Engana-me que eu gosto…

Engana-me que eu gosto…

24 de Setembro, 2020 0 Por Azores Today

A poucas semanas das eleições regionais não pode valer tudo.
Há um conjunto de informações importantes que o Governo dos Açores está a esconder da população e outras que distorce até não mais poder.
Todos sabemos que a central de propaganda do governo está muito bem montada e cumpre fielmente o seu papel de inundar as redacções e o espaço público com uma avalanche de informação que nunca é escrutinada.
Só dois ou três exemplos mais recentes.
Foi posto a circular, com muita pompa, que os fundos atribuídos à região para o próximo quadro comunitário tinham sido duplicados.
Não é verdade.
O novo quadro traz um valor de 1.359 milhões de euros, atribuídos no âmbito da coesão, que é um pouco mais do quadro anterior, mas nada de surpreendente.
O que há de novo é a atribuição de 835 milhões de euros, especificamente para recuperar a economia devido à crise da pandemia, à semelhança de ajudas semelhantes para outras regiões e países.
Se não houvesse pandemia, não havia esta verba.
Juntar as duas coisas e falar numa “vitória” na duplicação fundos não é sério.
Mais grave: no meio das ajudas para combater a crise da pandemia vem uma verba de 198 milhões de euros para reconstruir o porto das Lajes das Flores e os danos causados pelo furacão Lorenzo.
Ora, durante este tempo todo o Governo Regional e o Governo da República andaram a anunciar que a República é que assumiria, do Orçamento de Estado, as verbas para aquelas reparações.
Mais uma vez não foram sérios.
É caso para dizer que o Lorenzo apanhou covid…
Outro exemplo é o que se passa com a SATA.
Esta é a grande pedra no sapato desta governação, que corre o risco de apanhar um enorme trambolhão se a Comissão Europeia não levar em conta os argumentos que serão apresentados em Bruxelas para os aumentos de capital e até para o aval obrigacionista de 65 milhões que os comissários certamente desconhecem.
Nos corredores governamentais já se fala no eventual fecho da SATA Internacional, o que seria um escândalo para esta governação.
É por isso que a estratégia do momento é fugir o mais que se puder do assunto até às eleições.
O pedido de adiamento para apresentar as explicações exigidas pela Comissão Europeia contém argumentos ridículos, percebendo-se que Vasco Cordeiro quer empurrar para a frente o problema, a ver se não atrapalha a campanha, em benefício do seu partido.
Ora, o problema em que está envolvido a SATA é deste governo e seria sério que no final desta legislatura os cidadãos estivessem munidos de toda a informação e desfecho para poderem fazer o julgamento adequado.
Ao não facultar toda a informação, ao esconder planos e documentos importantes, como é o plano de reestruturação ou o contrato com as assinaturas de quem permitiu aquele desastroso aluguer do “Cachalote”, está-se a esconder toda a verdade de uma parte importante desta governação.
O julgamento dos eleitores agora não será o mesmo depois de conhecido o desfecho de toda esta trapalhada da SATA.
Temos agora mais um “milagre” em tempo de pandemia, que tem servido de chacota nos meios económicos e dos analistas nacionais.
Trata-se da baixa do desemprego nos Açores, a única região do país que, em plena crise sanitária, até conseguiu criar empregos… Não se percebe como nenhum país ou instituição internacional não vem cá estudar este caso inédito no mundo da economia.
Mais uma vez não há seriedade ao apresentar os números.
O que verdadeiramente se passa é que muitos desempregados deixaram de fazer parte da lista oficial do desemprego, mas eles andam por aí.
Muitos deles já desistiram de procurar emprego e outros estão a ser encaminhados, novamente, para os programas ocupacionais.
A maior curiosidade dos números agora divulgados é que, em Agosto de 2020 o número de inscritos é inferior ao número de Julho e de Março deste ano.
Alguma coisa tem de ser explicada, como já o foi com o caso do inquérito que deixa de fora, por definição, os que não estiveram activamente a procurar emprego, e terão sido muitos em face das restrições de circulação.
Desapareceram do mercado de trabalho cerca de 7 mil activos, o que diz muito dos resultados subsequentemente apurados.
Voltando às estatísticas agora divulgadas pelo Instituto do Emprego e comparando Março de 2020 com Julho de 2020 (não existem ainda estatísticas completas para Agosto), constata-se que só há mais 6 inscritos (menos 2 se comparado com Agosto), sendo que Ponta Delgada tem mais 13, a Terceira menos 4 e a Horta menos 3.
Por outro lado, o número de inscritos em programas ocupacionais voltou a aumentar de 3.643 em Março para 3.947 em Julho (mais 304), sendo que S. Miguel tem mais 138, a Terceira mais 102 (a maior variação percentual) e a Horta mais 64.
A Horta chega a ter, neste momento, mais inscritos como ‘ocupados’ do que inscritos como desempregados!
Os programas ocupacionais têm sido utilizados extensivamente nos Açores como forma de esbater os números dos desempregados inscritos.
No resto do país e na Madeira o rácio de ocupacionais é metade dos Açores.
Esta engenharia dá muito jeito para efeitos eleitorais e para os discursos ingénuos de muita gente que idolatra o sistema.
Mais uma vez não há seriedade ao apresentar os números. Estamos perante mais um episódio tipo “superavit” protagonizado pelos suspeitos do costume.
Alguns gostam de ser enganados, mas há os que são levados por toda esta propaganda porque, infelizmente, o nível de literacia na nossa região é o pior de todo o país.
Por alguma razão a taxa de população com o ensino superior é de apenas 11% nos Açores, quando no resto do país é de 20%, a taxa de abandono precoce é de 27% na região e de apenas 11% no país e a taxa de retenção e desistência no ensino secundário é de 20% cá e de 15% no país.
É com este cenário desolador que se faz muita da política de enganos entre nós.
E há quem goste.

Setembro 2020
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-Açores, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)