D. Aurélio “era uma pessoa com um temperamento muito forte: era exigente consigo e com os que o rodeavam”

D. Aurélio “era uma pessoa com um temperamento muito forte: era exigente consigo e com os que o rodeavam”

27 de Agosto, 2020 0 Por Azores Today

D. Aurélio “era uma pessoa com um temperamento muito forte: era exigente consigo e com os que o rodeavam”

Ago 27, 2020 | opiniao

Pelo padre João António Neves*

Já conhecia o Sr. D. Aurélio antes de ir para o Seminário, em 1981. Pois ele veio à minha Paróquia fazer a Visita Pastoral e Crismar, ainda como Bispo Coadjutor.

Quando ingressei no Seminário, comecei por ver o já então bispo de Angra, com mais alguma frequência, especialmente nas celebrações de Ordenações e Instituições ou nas esporádicas visitas que ele fazia ao Seminário, sempre com a devida distância. Mas não me esqueço de ele ter perguntado de onde é que eu era, lá lhe disse a minha proveniência, a Prainha, no Pico, ao que ele disse conhecer bem.

Quando fui Ordenado Sacerdote, precisamente por ele, em 25 de Junho de 1989, no dia seguinte chamou-me ao Palácio de Santa Catarina, para me dizer onde seria colocado: “ficas connosco”! Depreendi logo que ficaria como secretário particular dele, tarefa que já esperava e que naquele momento se confirmava.

Dos quatro anos de convívio com ele, como seu secretário, guardo boas recordações: como por exemplo ter ficado em Angra, cidade que gosto muito, perto do Seminário, ao qual estive e estou sempre ligado; poder ter conhecido mais e melhor a Diocese, nomeadamente nas Visitas Pastorais, acompanhando-o. Foi, aliás, nessa condição que fui pela primeira vez às ilhas das Flores e do Corvo e que conheci muitos dos locais distantes da ilha de São Miguel, tal como as Ouvidorias do Nordeste e de Fenais da Ajuda.

Era uma pessoa com um temperamento muito forte, exigente consigo e com quem o rodeava; por isso, senti essa exigência no trabalho que era pedido, e que sempre prontamente procurei realizar, nomeadamente trabalho de secretaria: dactilografar documentos ou homilias, nas antigas máquinas de escrever, que quando era preciso corrigir uma frase ou palavra, tinha que se escrever a folha toda novamente… Adaptei-me bem ao ambiente e à personalidade do Sr. D. Aurélio, embora algumas vezes ficasse “incomodado” com algumas atitudes que na altura não compreendia, mas que hoje percebo.

Tinha em cada ilha um ou dois padres que o recebiam quando lá se deslocava e de quem era mais confidente, no entanto, conhecia e era amigo de todos os sacerdotes, mesmo daqueles que não concordavam com as suas atitudes. Às vezes fazia grupos de reflexão pastoral, ouvia todos e a todos respeitava.

Vi-o discordar de um ou outro sacerdote, mas nunca o ouvi dizer mal de nenhum e a todos tratava com respeito.

Durante este tempo de secretário, tive o privilégio de ajudar a preparar e a realizar a Visita do Papa São João Paulo II à nossa Diocese, que foi um dos dias, senão mesmo o dia maior, do seu pontificado como Bispo de Angra: trazer o Papa aos Açores. Isso ficou gravado na alegria incontida que ele próprio manifestou quando recebeu o Santo Padre na ilha Terceira, nesse dia 11 de Maio de 1991, como na despedida, ao final da tarde desse dia, na ilha de São Miguel.

A visita da imagem Peregrina de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, foi também um dos momentos altos do seu episcopado nestas ilhas. A peregrinação começou pela ilha Terceira, onde correu bem; no entanto em São Miguel na zona de Ponta Delgada, não havia muito entusiasmo. Então, por sua iniciativa a visita começou pelo Nordeste e acabou por correr tudo bem.

O Congresso Diocesano de Leigos, em 1992, foi também outro evento que marcou a sua atividade pastoral como Bispo de Angra, ao qual emprestou todo o seu empenho. Pena que não tenha tido continuidade.

Quando deixou a diocese, ainda o encontrei algumas vezes. saudava-me sempre com um sorriso característico e perguntava pelo trabalho das paróquias, pelos meus pais e familiares e convidou-me para ira a sua casa a Alcaíns, o que nunca aconteceu.

*O padre João António Neves é Vigário Episcopal para a Vigararia do Ocidente e foi secretário pessoal de D. Aurélio Granada Escudeiro. No centenário do seu nascimento o Igreja Açores está a confiar algumas personalidades da vida da Igreja, que mais privaram com o 37º bispo de Angra a escrever sobre o bispo que faleceu há 8 anos. O título é da responsabilidade do Sítio Igreja Açores.

Fonte: Igreja Açores