Um adeus e um agradecimento

Um adeus e um agradecimento

24 de Agosto, 2020 0 Por Azores Today

Um adeus e um agradecimento

Ago 24, 2020 | opiniao

Por António Pedro Costa*

Com a nomeação de um novo Padre para a Paróquia do Senhor Bom Jesus, a Comunidade Obra de Maria dá por finda a sua missão naquela Vila, onde tão sábia e espiritualmente conduziu os destinos daquela grande messe, onde residem cerca de dez mil almas.

Durante oito anos e meio tivemos a graça da sua presença na Paróquia do Senhor Bom Jesus e já começamos a sentir a nostalgia da sua partida, mas na vida, tudo tem o seu início e tudo tem o seu fim. A partida custa, mas tem de ser e quem não sente pena pela saída do Padre José Cláudio.

Dizer adeus nunca foi fácil, mas chega um momento em que é preciso dizer adeus, por pontos finais, fechar capítulos, encerrar etapas da vida, para se recomeçar outras, quiçá mais desafiantes.

Se qualquer partida provoca tristeza, neste caso, fica a alegria de que tudo fez para semear concórdia entre o nosso povo que inspiradamente soube guiar. Ou seja nada mais fez do que espalhar de forma tranquila paz e serenidade por toda a Vila, com a sua palavra e postura cândida e amiga, plantando amizades por onde passava e que irão perdurar para além da sua partida.

O seu múnus sacerdotal foi um autêntico testemunho espiritual que nos cativou pela sua simplicidade e dom da palavra. O seu sorriso e o tom tranquilo da sua postura sábia e carinhosa mostra bem como ele é um verdadeiro homem de Deus que habitou entre nós.

Para muitos paroquianos que passaram por momentos difíceis, a sua presença foi como um anjo que trouxe paz, luz, conforto e esperança, para corações e espíritos feridos, abatidos, fracos e sem esperança.

A sua dedicação, a sua atenção, a sua meditação, o seu cuidado e o seu carinho jamais serão esquecidos, pois ficarão nos corações como sementes que dão frutos, sementes que foram plantadas, cuidadas, regadas e alimentadas pelo seu carisma, pelo seu amor, pela sua fé e pela sua amizade.

Mas não foi só na vasta evangelização levada a cabo mesmo pelas ruas desta Paróquia. A Obra de Maria mostrou a sua responsabilidade na missão que teve nesta vila, a preocupação permanente na valorização e manutenção do património religioso que foi uma constante, graças às milhares de moedinhas que foram amealhadas, também com o apoio da nossa diáspora, em que todos se mobilizaram para se arrecadar os montantes suficientes para as inúmeras obras concretizadas com tanta eficácia. O seu nome ficará gravado nos anais desta Paróquia.

A Obra de Maria irá partir, levando Rabo de Peixe no coração, mas levará também no seu coração, estamos certos, o bom povo de Rabo de Peixe, que fica com a viva mágoa de ver sair daqui quem tanto nos ajudou a caminhar e a seguir pelos caminhos do Senhor.

E é de pessoas como estas que a Igreja precisa, que viviam aqui em total desprendimento, com simplicidade, alegria e proximidade. Por isso, uma palavra para a Obra de Maria, pelo que nestes 8 anos e meio fizeram por Rabo de Peixe. Foi como que uma viagem inesquecível, onde não faltaram os grandes obstáculos, as subidas e as descidas. Juntos percorremos descobrimos o Rabo de Peixe profundo, nas suas virtualidades e fragilidades, mas chegou o momento de seguir viagem até ao outro lado do mar.

A saudade é um aperto que nos dói o coração. Que corre nas nossas veias. Que vive dentro de nós, sempre. Na vida, como numa batalha, é preciso estar atento à hora certa de partir. Só assim é possível avançar com mais força, com mais garra em busca de novos destinos, novas batalhas, e novas vitórias.

Gostaríamos de, nesta hora, de lhe dar um abraço de despedida, mas como diz o grande poeta, o nosso Cardeal Tolentino Mendonça, vivemos nesta pandemia: O vazio de todos os abraços não dados. O vazio da espontaneidade dos gestos. O vazio da proximidade interditada. O vazio deste verão que está a passar sem que notemos. O vazio do sacerdote que celebra missa na igreja quase vazia. O vazio das nossas igrejas onde Tu, Senhor, continuas presente, e dali nos ensinas a transformar os vazios.

Custa muito dizer adeus, sobretudo quando o que mais desejamos é ficar. Rabo de Peixe ficará a rezar pelo sucesso apostólico desta Comunidade.

*António Pedro Costa é presidente da Fundação Pia Diocesana Nossa Senhora Mercês

Fonte: Igreja Açores