Incineradora em São Miguel seria mais um crime contra os açorianos

Incineradora em São Miguel seria mais um crime contra os açorianos

16 de Julho, 2020 0 Por Azores Today

Numa altura em que a estrutura açoriana do CHEGA-Açores prepara o seu programa de governo e nele já têm assento estratégias bem definidas e fundamentadas para o futuro desta Região, nomeadamente sobre o assunto em epígrafe, eis que surge na comunicação social a notícia de uma ação judicial no sentido de travar a instalação de uma incineradora de resíduos sólidos urbanos, RSU´s, em São Miguel.

No nosso programa constarão medidas específicas para este setor, bem como a decisão fundamentada da não instalação de mais nenhuma unidade desta natureza nos Açores, sendo que lamentamos ter sido esta a estratégia adotada e construída na ilha Terceira.

Fazemo-lo não porque somos e queremos ser diferentes, não pelas razões de princípio circunstancial evocadas pelos outros partidos que se opõem a esta obra. Somos ambientalistas, e aí estamos muito à frente dos demais, mas não somos saloios. Somos na nossa leitura política, claros e pragmáticos. Fazemo-lo sim por razões essencialmente de Saúde Pública, o que para nossa surpresa parece não preocupar ninguém.

O governo socialista da Região Autónoma dos Açores instalou na ilha Terceira uma usina incineradora de RSU´s com o custo aproximado de 33 M de Euros.

Como já dissemos, considera o CHEGA que a utilização desta tecnologia, não é de todo a mais responsável, do ponto de vista da saúde pública, não tendo assim a intenção de permitir a sua proliferação.

Obstante, e tratando-se de um investimento já realizado, o CHEGA desenvolverá a sua ação, valorizando os resíduos orgânicos nos locais de produção, bem como a recolha seletiva de recicláveis para encaminhamento para valorização. Os resíduos não valorizáveis serão encaminhados para a usina da ilha Terceira para incineração. Este é um processo de recurso comummente apresentado como de valorização energética. De fato não o é, sendo o valor absoluto de energia consumida no processo, muito superior a seu correspondente de energia recuperável. Isto deve-se a baixo valor energético dos RSU´s.

Contra a viabilidade de projetos desta natureza, mesmo em universos populacionais exponencialmente maiores, encontra-se a sua falta de sustentabilidade económica e os riscos para a Saúde Pública.

Apesar dos cuidados de filtragem e tecnologias utilizadas no tratamento dos efluentes gasosos gerados, pela mistura variada de compostos que constituem os RSU´s, é de todo impossível assegurar, por via das investigações independentes já realizada sobre esta tecnologia, emissões isentas de nano partículas de PCB´s, PCDDs (Dioxinas), PCDFs (Furanos) e outras (Paul Connett, Professor Emeritus de Química, Universidade de St Lawrence, Canton , NY, Dioxinas e Incineração,  2007).

Neste capítulo sabemos que tanto as dioxinas como os furanos são bioacumuláveis, depositando-se nos tecidos gordos, não sendo possível a sua redução no organismo a não ser pelas mulheres e demais mamíferos fêmea que ao desenvolverem o feto partilham com ele a sua acumulação de dioxinas, voltando a partilha-las novamente com o seu ente mais querido pela amamentação. É cruel, mas é do jeito que é, daí a nossa preocupação.

Sabemos também que 1 litro de leite de vaca transmite a mesma concentração de dioxinas acumulável em 8 meses de o mesmo recetor humano, respirando o mesmo ar que contaminou a dita vaca (Connett and Webster, 1987);

Também sabemos que pelo seu pastoreio, uma vaca acumula num dia tantas dioxinas como um humano acumularia em 14 anos respirando no mesmo ambiente (McLachlan, 1995).

As dioxinas atuam como hormonas solúveis em gordura, causando disfunções em pelo menos seis sistemas hormonais diferentes. (Linda S. Birnbaum – Health Effects Research Laboratory, US EPA – Developmental Effects os Dioxins Environmental Health Perspectives, 103:89-94, 1995); Efeitos das dioxinas na tiroide de recém-nascidos [H.J. Plluim et al. The Lancet, 23 de Maio 1992, (Volume 339, 1303).

Em consciência, não pode assim o CHEGA promover a instalação de mais nenhum centro de tratamento de lixos por este processo na Região Autónoma dos Açores, por não deverem estes ser instalados em espaços em que no raio de 50 Km coabite utilização urbana ou onde exista algum tipo de exploração agrícola ou produção de alimentos.

Irá assim o CHEGA acautelar a periódica monitorização dos bovinos que pastoreiam nas explorações agrícolas envolventes à incineradora instalada na ilha Terceira, procedendo de acordo sempre e quando justificado, no sentido de minorar o potencial de contaminação destes animais e populações alvo, salvaguardando a Saúde Pública.

Não sendo ciência aéreo-espacial e sendo de à muito do conhecimento público, diríamos que os nossos governantes e gestores públicos, ou sofrem de analfabetismo crónico ou padecendo de falta de cultura de segurança se estão absolutamente nas tintas para os impactes que os seus atos têm na saúde dos Açorianos.

Por explicar ficam ainda algumas questões, entre elas, o porquê da opção da governação socialista pela Terceira para a instalação desta unidade, quando São Miguel produz cerca de 60% dos lixos produzidos na Região.

Tinha a ilha Terceira um já conhecido passivo ambiental deixado pelos norte-americanos, com o dolo de negligência dos sucessivos governos da República e Regionais, a que a atual governação socialista não é alheia. Realmente não precisava de mais.

Medidas urgentes terão de ser implementadas para minorar este passivo, tal como o sofrimento das populações, sendo responsabilidade Regional e da República compensa-las pelos meios possíveis por este fardo que as acompanhará por muitas gerações.

 

Orlando Lima

Vice-presidente do Chega Açores