A arte de bem (des)educar – Parte II

A arte de bem (des)educar – Parte II

8 de Maio, 2020 0 Por Azores Today

Duas semanas após o inicio das “hostilidades” educativas muito já se poderá escalpelizar, muito ja se poderá aferir e concluir, tal é a “bagunça” que se verifica.

Os trabalhos caem em catadupa, aulas síncronas via “Microsoft Teams” que nuns casos arrasta-se ao sabor da velocidade da internet na casa de cada um, ou em outros casos nem se arrasta porque simplesmente não a há fazendo com que os miudos não possam estar presentes. Num mundo perfeito, aquele que eles dizem que estamos, “está tudo bem”, “tudo está a ser bem feito”, todos teem internet 4G, ou fibra de 100mbps… a realidade que vemos, que sentimos, é que o mundo é mesmo imperfeito e nada disto se verifica.

Na realidade que temos, no meu caso concreto por exemplo, a fibra não chega cá e a internet móvel funciona conforme as condições atmosféricas permitem, para não falar nos parcos e curtos limites da mesma em termos de tráfego. Talvez, fosse mais que altura das operadoras darem o seu contributo também nesta muito delicada fase, reforçando a qualidade do sinal nos locais onde este é deficiente… ah… já me esquecia… estas só funcionam mediante os lucros… pois… o mundo é… imperfeito de facto.

Educativamente falando, não me fiquei pela experiencia própria e procurei falar com alguns daqueles que estão do outro lado da barricada e que estão também eles a contas com esta “ideia triste” de ensino à distancia para crianças… sim, falei com professores e duma forma mais ou menos acentuada todos eles foram unanimes em afirmar… “porquê tanto lixo”? porquê em insistir em disciplinas cuja procedência é zero, ou seja, educação física, educação visual, religião e moral, cidadania, etc, etc, etc… porquê não nos concentramos apenas naquelas cujo conteúdo será essencial para o ano letivo seguinte? Português, Matemática, Físico-química, por exemplo? No artigo anterior referi… 13 trabalhos por semana, aulas síncronas, tele-escola, e a aberração que é ter de filmar os exercícios físicos para a disciplina de educação física…. uma aberração total e completa, uma promoção efectiva e real das desigualdades sociais… tens meios técnicos? Tens pais esclarecidos e preparados e motivados para dar total apoio? Atrever-me-ei a dizer que só numa pequena percentagem de casos estes pressupostos se conjugam e se verificam.

Dir-me-ão, o objectivo será apenas manter os miudos ocupados… o resultado será mesmo só esse, ao qual juntar-se-á algumas dores de cabeça dos pais, porque subsistem inúmeras duvidas de que irão aprender alguma coisa de válido, erradamente optou-se por em termos de ensino não o reduzir à sua expressão mais simplista e essencial, complicando enormemente aquilo que seria fácil afinal.

Em jeito de conclusão, o que se verifica dia após dia, é que os miudos estão desmotivados, os pais estão esgotados, ou pelo menos aqueles que se importam, e pouco, muito pouco, está a funcionar.

Os “iluminados” que conceberam este modelo do seu “pedestal”, no seu “mundo perfeito”, esqueceram-se, ou nem quiseram saber mesmo, que nos Açores há efectivamente enormes desigualdades em termos sociais e educativos.

Termino aludindo um grande amigo, pai, professor da cidade da Horta que é perentório em afirmar… “temos um sistema educativo podre… Portugal não trabalha nem pugna para educar efectivamente, mas sim para cumprir as metas estatísticas impostas pela Europa”. Isto diz tudo do pântano em que lentamente nos fomos tornando nesta área. Uma verdadeira e real Vergonha!

 

César Ferreira

Dirigente do Chega Açores

 

Fonte: Jornal Tribuna das Ilhas, do Faial, a 8 de Maio de 2020