Temperaturas do mar mais elevadas nos Açores podem atrair este ano ciclones tropicais de maior intensidade

Temperaturas do mar mais elevadas nos Açores podem atrair este ano ciclones tropicais de maior intensidade

24 de Abril, 2020 0 Por Azores Today

Ao longo dos 36 anos em que Pedro Mata foi uma cara habitual na apresentação dos boletins meteorológicos da RTP- Açores, dedicando assim toda uma carreira ao “estado do tempo” e juntando-lhe agora sete anos desde a sua reforma, a alteração climática que adianta ser mais significativa nos Açores será a alteração da temperatura da água do mar.
A par do gosto pela meteorologia e pelos demais fenómenos climáticos que nunca desaparece, o especialista é também um amante da pesca de alto mar e foi a conjugação destes dois saberes que o fez, em conjunto com outros conhecedores, perceber que pela primeira vez em muitos anos, pelo menos consoante os registos existentes, a temperatura da água do mar não baixou como seria de esperar. Pelo contrário, em vez de se situar entre os 15ºC e os 16ºC, a temperatura da água do mar nos Açores mantém-se nos 17ºC, podendo inclusive atingir temperaturas superiores, o que não é de esperar na transição entre o Inverno e a Primavera na Região.
Tal fenómeno chamou a atenção dos especialistas também pela abundância de atum que continua a existir no mar, uma vez que no início de cada ano não costuma haver abundância desta espécie.
“Sempre estive muito ligado ao mar porque faço pesca de alto mar, e para nós é muito importante a temperatura da água por causa dos atuns. Este ano temos tido muito atum porque a temperatura da água do mar está muito mais alta do que aquilo que é costume, principalmente no princípio do ano”, conta.
Para perceber se esta suspeita relativamente à temperatura da água seria verdadeira, Pedro Mata recorreu aos registos mantidos por um amigo que contêm informações preciosas sobre o estado do mar ao longo dos últimos anos, confirmando-se que “a temperatura da água do mar só baixou nos últimos 15 dias na zona da ilha das Flores, onde atingiu os 16,5ºC, enquanto no resto do arquipélago não baixou os 17ºC”.

As temperaturas do mar
e a formação de furacões

A par dos benefícios que podem existir na pesca ou na observação de mais criaturas marinhas que sejam atraídas por águas mais quentes, como pode ser o caso dos tubarões-baleia, por exemplo, que no Verão costumam chegar até ao largo da ilha de Santa Maria, há no entanto algumas preocupações relacionadas com o impacto de certos fenómenos climáticos nos Açores que também necessitam de águas mais quentes para atingir diferentes intensidades, como no caso dos ciclones tropicais.
Assim, adianta o antigo meteorologista que durante décadas entrou na casa dos açorianos durante a apresentação dos boletins meteorológicos, poderá dar-se a situação de “com temperaturas do mar mais altas, podermos ter mais ciclones tropicais e depressões tropicais a formarem-se nos Açores”.
Para além disso, Pedro Mata refere que as temperaturas de mar mais elevadas do que o esperado podem também indicar que outros ciclones ou furacões que “se formem mais longe poderão vir a passar nos Açores, e como as temperaturas do mar são mais elevadas eles podem vir a passar mais fortes, como o Lorenzo no ano passado”.
O especialista refere-se assim ao furacão que em Outubro de 2019 “ocupou uma maior área e apresentou ventos mais fortes”, causando prejuízos na ordem dos 330 milhões de euros, incluindo a destruição do porto das Lajes das Flores, entre outras infra-estruturas, e fazendo ainda um total de 53 desalojados pelo caminho.
O fenómeno em causa, onde se registam temperaturas mais elevadas na água do mar, deverá, na opinião do meteorologista, ter influenciado também a passagem deste furacão no arquipélago, salientando que, caso não existisse esta condição, os seus impactos teriam sido mais diminutos.
“No ano passado os Açores foram um bocado castigados, portanto deve ter havido temperaturas de água do mar mais elevadas, embora saiba que no início do ano elas baixaram os 17ºC, mas se não fosse assim o Lorenzo não passaria no arquipélago daquela forma”, diz.
No futuro isto “pode acontecer e pode não acontecer”, diz o antigo meteorologista, salientando que, no passado, os cenários mais comuns ocorriam quando se formava um ciclone tropical “uma vez por outra e depois formava-se outro passados seis anos”.
Já na passagem destes fenómenos pelo arquipélago, no que diz respeito a ciclones, o esperado era “que passassem todos os anos, mas o máximo que me lembro é de terem passado dois no espaço de um ano”.
Assim, ao longo do resto do ano, e se as temperaturas não baixaram até ao momento, isto significa que a temperatura do mar estará “mais alta do que é normal, podendo chegar até aos 25ºC” nas alturas mais quentes do ano.
Em relação ao Anticiclone dos Açores, Pedro Mata adianta que embora seja fundamental para “conseguir aguentar algumas coisas, este tipo de fenómenos não aguenta”. Até lá, adianta é importante que tanto os governos como a população em geral tenham conhecimento desta possibilidade, embora nem sempre seja possível conter os efeitos das intempéries.
“É preciso estar num estado de alerta porque isto pode acontecer. Não quer dizer que aconteça, mas que há uma possibilidade grande de vir a acontecer, há.A meteorologia avisa sempre com uma certa antecedência, mas às vezes pode não dar tempo para tudo, como no caso do Lorenzo que estragou um porto e não se poderia fazer mais nada a não ser retirar de lá os barcos”, explica.

“Há vários factores que determinam
a passagem de ciclones”,
diz Carlos Ramalho

A concordar com esta teoria está o Delegado regional nos Açores do IPMA, uma vez que há “fenómenos meteorológicos que estão associados à temperatura da água do mar”, nomeadamente “os ciclones tropicais que afectam os Açores”, que podem ir desde as tempestades tropicais até aos furacões.
No entanto, recorda que para além da temperatura da água do mar há também um conjunto de factores que influenciam a passagem destes fenómenos na Região bem como a sua intensidade.
“A intensidade de um ciclone tropical depende de vários factores, no fundo depende da temperatura da água do mar quanto mais elevada ela for, especialmente acima de 26ºC e se ocorrer a sul do arquipélago tem impactos também na nossa Região, mas por outro lado temos o conteúdo do vapor de água na atmosfera e, ainda, o vento em altitude, a diferentes níveis da atmosfera.
Se a temperatura da água do mar for mais elevada, isto pode fazer com que os ciclones tropicais sejam mais intensos. No entanto, é preciso conjugá-lo com outros factores, por exemplo, os ventos em altitude ou o conteúdo do vapor de água na atmosfera”, diz o delegado regional.
Por exemplo, se um ciclone tropical for surpreendido por uma intrusão de ar seco, explica, este irá diminuir de intensidade mesmo que a temperatura da água do mar se encontre elevada, mesmo sendo este uma das principais condições que determina a intensidade dos fenómenos climáticos em questão.
Nos Açores, conforme já foi referido, a água do mar encontra-se a uma temperatura de 17ºC (podendo atingir os 18ºC em algumas alturas do dia), “uma temperatura um pouco alta para aquilo que é normal” mas que não pode ser comparada com a temperatura que atinge o mar noutras latitudes, nomeadamente em Portugal continental, uma vez que no Algarve as temperaturas têm vindo a ser semelhantes, explica Carlos Ramalho.
“As temperaturas da água do mar no continente, apesar de estarmos à mesma latitude, não podem ser comparáveis com as nossas porque tem também a ver com as correntes oceânicas, como por exemplo com a nossa proximidade à corrente do Golfo, especialmente as ilhas do Grupo Ocidental.
Por outro lado, no continente existem outros fenómenos que têm alguma influência do Mediterrâneo no Algarve, e na costa ocidental também existe outro fenómeno que ocorre muitas vezes no Verão, o Upwelling, que faz com que a temperatura da água do mar seja mais baixa do que nos Açores, e isto apesar de estarmos à mesma latitude, por isso é algo que não pode ser comparado directamente”, explica.

O mesmo número de fenómenos
mas com maior intensidade

Com o aumento da temperatura a nível global, incluindo tanto o aquecimento da temperatura do ar como o aquecimento dos oceanos, os cenários climáticos dos próximos anos, conforme refere o meteorologista do IPMA, adiantam que podem surgir não só “mais condições para a ocorrência de ciclones tropicais” como um aumento da intensidade dos mesmos.
“No cenário das alterações climáticas, o que os modelos também nos dão em relação a ciclones tropicais é que não se prevê propriamente um aumento no número de ciclones tropicais ou furacões, prevê-se sim que dentro do mesmo número de furacões seja mais frequente que eles sejam mais fortes”, indica.
Assim sendo, estas não são boas notícias nem para os Açores nem para o mundo de uma forma geral, uma vez que “um aumento da intensidade implica ventos mais fortes e maior agitação marítima, e como vivemos em ilhas acabamos por sofrer não só com os ventos fortes mas também com a agitação do mar”.
A par da prevenção que pode ser feita consoante a aproximação de ciclones ou furacões, Carlos Ramalho adianta que, uma vez que estes são fenómenos que ocorrem em todo o mundo, há também esforços que devem ser feitos em conjunto e que não dependem apenas das acções políticas.
“Há alguns aspectos que são a nível político e outros que são de todos nós no nosso dia-a-dia. Não podemos deixar tudo para cima da classe política e temos que alterar algumas coisas na nossa forma de viver, poluir menos, consumir menos – sobretudo combustíveis fósseis.
Depende muito de nós mas temos que fazer tudo em conjunto e no mundo inteiro porque na atmosfera não existem fronteiras, o que fazemos num lado tem efeito naquilo que acontece no outro, está tudo interligado”, relembra o meteorologista.
Neste estado de emergência, embora o país e o mundo esteja a funcionar com “serviços mínimos”, o delegado regional do IPMA refere que a paralisação que hoje acontece “não é suficiente” para – por si só – reverter os últimos anos de estragos feitos na camada do ozono.
“O que acontece agora não é suficiente porque estamos a falar de efeitos de poluição na atmosfera que duram há dezenas de anos. Este foi, no fundo, um pequeno respirar do planeta mas não é de forma nenhuma suficiente porque quando passar esta situação nós vamos voltar à nossa vida normal”, conclui.

 

Fonte: Correio dos Açores