“Dos bancos vazios da Matriz da Povoação ouço o grito das Comunidades que me foram confiadas”

“Dos bancos vazios da Matriz da Povoação ouço o grito das Comunidades que me foram confiadas”

2 de Abril, 2020 0 Por Azores Today

“Dos bancos vazios da Matriz da Povoação ouço o grito das Comunidades que me foram confiadas”

Abr 2, 2020 | co-n-vid-a

Pelo Padre João da Ponte*

Os dias que se vivem, um pouco por todo o lado, e também na Povoação, são dias de deserto. Há poucos meses atrás caminhávamos sem saber a que meta nos destinávamos e, em menos de um mês, a vida obrigou-nos a parar. Para podermos salvaguardar a vida fomos obrigados a parar. As prioridades que julgávamos ser prioritárias, deixaram de o ser para se dar lugar à única prioridade que exigirá de nós zelo e cuidados: a vida. Nunca mais seremos os mesmos, nem o mundo será igual após esta forçada paragem.

Embora se tenha decretado, e bem, a partir de domingo passado, um cordão sanitário em torno do Concelho da Povoação, fazendo com que, aparentemente, se transforme numa espécie de décima Ilha deste nosso Arquipélago e se aumente o isolamento social, sinto que nunca estivemos tão próximos uns dos outros e a Igreja Paroquial nunca esteve tão cheia como nestes dias.

Dos bancos vazios da Matriz da Povoação ouço o grito das Comunidades que me foram confiadas. Na Missa que celebro todos os dias ao meio dia, e que é transmitida pelas redes sociais, sinto que há uma grande multidão de pessoas em oração, unindo-se ao Sacrifício da Páscoa de Cristo. Ouço as súplicas dos doentes, dos profissionais de saúde, dos que cuidam dos doentes, das famílias, dos que se recomendam às minhas orações, dos que trabalham para poder garantir os serviços mínimos, mas necessários a todos os que estamos neste Barco, dos que estão isolados nas suas casas sem ninguém que os abrace, de todos os que estão perto ou longe e de tantos outros que estão no Coração de Deus. Sinto que hoje a Igreja está mais cheia do que nunca.

Procuro todos os dias celebrar a Missa ao meio dia, pois é a hora em que sol está no alto a dar calor, vida e a iluminar todas as Casas. Assim, também, pela Celebração da Missa, Cristo ilumina a nossa vida. A celebração da Missa é o ponto alto do meu dia e peço sempre às pessoas das minhas comunidades que façam com que a Páscoa do Senhor, na Celebração da Missa, seja também o momento mais sublime dos seus dias.

De manhã, dirijo-me à Igreja Paroquial para colocar azeite na Lâmpada, que se encontra diante do Santíssimo Sacramento, para fazer a Oração de Laudes e um momento de meditação pessoal. Ainda da parte da manhã, procuro organizar a casa Paroquial e realizar alguns trabalhos pessoais. Ao meio dia celebro a Missa, como já referi. Nos últimos tempos tenho celebrado na Casa das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Na Casa das Irmãs tomo parte das suas refeições fraternas. Após o almoço realizo alguns trabalhos pendentes e procuro telefonar ou enviar mensagens a pessoas das comunidades, sobretudo àquelas que vivem sós ou que passam por grandes dificuldades. Depois, realizamos algumas atividades com as crianças e com os jovens que estão ao cuidado das Irmãs. De referir que as atividades têm sido uma excelente oportunidade para redescobrirmos e aprofundarmos os nossos dons. Há tempo para atividades ligadas à educação física, música, leitura, artes plásticas, cozinha, limpeza de espaços, elaboração de mensagens de esperança para serem colocadas nas janelas, entre outras. Seguimos, através da Comunicação Social, a situação atual nos Açores, no País e no mundo. Ao final do dia, eu e as irmãs fazemos uma hora de adoração ao Santíssimo Sacramento, terminando com a Oração e Vésperas, onde apresentamos várias intenções que nos são enviadas. Geralmente, terminamos o dia com um momento de oração (oração do terço ou via Sacra ou adoração Comunitária ao Santíssimo Sacramento – alguns desses momentos são partilhados com as comunidades a partir das redes sociais), de Convívio com alguns jogos e de partilha. Após a partilha, regresso à Casa Paroquial para o descanso noturno e para renovar as forças para o dia seguinte.

Gostaria de salientar que chegam até nós inúmeros pedidos de intenção, quer para a celebração da Missa, quer para os outros momentos de Oração. Os grupos paroquiais têm apostado nas redes sociais para poderem estar mais próximos de quem sofre neste momento e têm –se unido, em Oração, cada um nas suas casas, para que toda esta situação se resolva. A Catequese está a reorganizar-se para poder continuar este trabalho de proximidade com as crianças / jovens e as suas famílias através das redes sociais. Estão a formar-se já grupos online, com os vários anos de catequese, a fim de se promover o diálogo e a partilha de atividades.

Às Comunidades, em geral, tem-se pedido Oração e que se cultive a Pastoral de vizinhança, sobretudo com as pessoas que vivem sozinhas, apelando a que se crie um verdadeiro espírito de Igreja doméstica em cada lar. Todos os dias há inúmeras partilhas da Palavra de Deus, de orações e de atividades nas páginas de facebook, para que as pessoas não sintam o frio isolamento, e sejam capazes de experimentar a presença carinhosa de Jesus Cristo, através da Sua Igreja.

O momento atual leva-me a experimentar o que realmente é o essencial e que nunca pode faltar. Acredito que a redescoberta do essencial faz-nos saborear o quão importante é amar e ser amado.

Quero aproveitar para agradecer a atenção que inúmeras pessoas têm tido, padres e tantas outras, nestes últimos dias, para comigo e para com todos os que residem neste concelho. Não estamos sozinhos. Estamos todos no mesmo Barco e, Deus vai ao leme.

Hoje, é a minha vez de cozinhar com um dos jovens. Ainda não sei o que será a ementa. O Senhor providenciará.

Um abraço para todos e rezemos uns pelos outros.

*O Padre João da Ponte é pároco na Igreja Matriz da Povoação

Fonte: Igreja Açores