Valores e Tradições

Não espero, e ninguém espera, uma sociedade que viva na “santidade”, muito menos como monges. Obviamente que, aqui e ali, temos as nossas falhas, omissões, os nossos pecados, enquanto seres humanos imperfeitos, mas perfeitamente normais.

No entanto, todos nós vivemos, ou deveríamos viver, tentando seguir certos padrões que julgamos serem os mais correctos, os mais acertados. A isto chamo Valores, outros poderão chamar regras de vida ou até mesmo regras sociais.

Certo é que o facilitismo em que caímos quotidianamente, nesta velocidade vertiginosa que os tempos nos obrigam, fazem toda uma sociedade se questionar constantemente, colocando até mesmo em causa os princípios mais básicos do ser humano, como é o da Vida. Cuidar do que é importante é complicado e trabalhoso, mas encurtar caminho, com soluções fáceis, é o espelho da preguiça, do deixa andar que os outros cuidam.

Não sou, nem nunca fui, de grandes moralismos. Tento compreender cada argumento e ter a capacidade de aceitar a diferença, mesmo que muito me incomode. Mas tudo tem limites, tudo tem de ter uma linha de fronteira, caso contrário caímos constantemente na destruição social, mesmo que esta só se veja passado dezenas de anos.

Tudo isto porque, conhecendo os meus Açores, como conheço, conhecendo as minhas gentes, já que sou um deles, fico abismado com o que vejo por estes nove pedaços de terra sagrada. Dia após dia, tudo é colocado em causa, sejam as nossas crenças, sejam as nossas tradições. Quer seja por regras impostas, quer por decretos, ou por modas e modinhas, tudo se vai questionando, dificultando e acabando. O grau de dificuldade em exercer a cultura, a cidadania, a educação, tende a ser tão difícil, tão condicionado, que nos interrogamos se o podemos fazer, sendo que, a maioria das vezes, cai nas mãos do estado os bens mais preciosos que um povo tem, como são os seus Valores e Tradições.  Não com o intuito original e verdadeiro, mas sim com as finalidades políticas, que todos conhecemos, que se resumem a mais uma “cruzinha no quadradinho”.  É a cultura do faz-de-conta, é o circo do mediático, são os sorrisos para a fotografia.

Ao longo de séculos, por estas nossas ilhas, sempre soubemos cuidar, com a maior dignidade, das nossas crenças, tradições e manifestações de cultura popular. Entretanto, nestes novos tempos de uma suposta democracia, fazem-nos crer que não. Substituem-se as festas locais por festivais milionários. Desprezam-se os agentes culturais em importações caríssimas de cultura comercial. Criam-se dificuldades à tradicional gastronomia, impedem-se as comunidades de angariar os fundos necessários a cada localidade, com taxas, taxinhas, regras e legalidades, inventadas num qualquer gabinete que ninguém sabe onde fica, onde ninguém quer ir. Chegamos ao exagero de substituir as nossas “barraquinhas” por “street food”, é mais moderno e até fala americano.

Por outro lado, criam-se organizações virtuais, geridas por políticos ou pensadores de secretária, que, regados com muitas verbas dos nossos impostos, iludem-nos com uma pretensa cultura festivaleira, que em nada respeita aqueles que os rodeiam, mas aos poucos vai matando o que de bom sempre tivemos.

Chamem-me “Velho do Restelo”, digam o que quiserem, mas a diferença entre pessoas como eu e eles é que estamos acostumados diariamente a saber fazer, saber gerir e divulgar, o que os nossos avós nos assinaram através dos nossos Valores e Tradições. Onde estavam eles quando não havia dinheiro?

Haja saúde meu povo que um dia isto tem de mudar!

 

José Pacheco

 

Artigo publicado no Jornal Tribuna das Ilhas a 13 de Março de 2020

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