ùltimas Notícias

Ricas prendas

A quadra festiva foi generosa em ricas prendas no nosso esmirrado espaço político regional.
Os nossos poderes políticos nunca param de nos surpreender e são mesmo uma rica fonte de inspiração crítica.
Os últimos meses foram de abundância natalícia ao fornecer-nos indicadores sociais e económicos tão pavorosos que até envergonham a vaquinha e o burrinho junto à manjedoura.
Mesmo assim, há quem veja nas estrelas “o bom caminho”, depois da chegada, esta semana, dos três Reis Magos, que vão despejar ouro, incenso e mirra no nosso dromedário aéreo, que também passa a ter duas ‘bossas’. À frente explico a metáfora.
Vamos então às ricas prendas deste Natal.

RICA PRENDA 1 – A visita de Marcelo veio confirmar aquilo que há muito se vem assumindo no quadro institucional da nossa região: o ‘Dono Disto Tudo’ é o Governo Regional e o primeiro órgão de soberania autonómica, que é a Assembleia Regional, sufragado directamente pelos eleitores, é remetido ao papel que há muito a sua Presidente e os seus deputados lhe atribuem: papel de embrulho!

RICA PRENDA 2 – No dia seguinte ao Natal ficou-se a saber que o nosso governo, numa atitude de caridade propícia à quadra, decidiu “reforçar” o capital social da Lotaçor… em 350 mil euros!
Ainda pensei que, atordoado com a temporada do “menino mija”, o nosso governo terá confundido a quadra natalícia com a quadra carnavalesca.
Com que então 350 mil euros para uma empresa que, a 30 de Junho, tinha um valor de activo de quase 40 milhões de euros (claro que quase 15 milhões são de participações noutras empresas, como a famigerada Santa Catarina, sem qualquer valor próximo destes milhões, sendo 3,5 milhões de clientes), com um capital realizado de cerca de 13,5 milhões, que compara com resultados transitados de 19,7 milhões negativos, com 32 milhões de passivos financeiros, mais 660 mil euros de capitais próprios e 6,5 milhões de outras variações de capital próprio, que eram 8,2 milhões em Dezembro de 2018.
Ora, perante este cenário calamitoso, numa empresa que não tem um buraco, mas sim uma cratera enorme só na Fábrica de Santa Catarina, 350 mil euros é, no mínimo, ridículo para consolidar tamanho desmando.
Lê-se e parece gozo.
Mas esta semana o comunicado do Conselho do Governo confirma.
É mesmo gozo.

RICA PRENDA 3 – Finalmente vieram a público as perturbadoras contas das empresas públicas relativas ao terceiro trimestre. A destempo, como interessa ao governo, porque as más notícias nunca se dão a tempo.
É mais uma prenda natalícia caída no sapatinho dos dois palácios cá do burgo governativo, enrolada em papel de polímero natural, mais conhecido por papel celofane, para brilhar mais do que o imenso carvão, bem negro, que a chaminé palaciana deixou besuntar.
Bonito trabalho que está ali feito: os hospitais a deverem já tanto como a SATA e a SATA a não atinar com voo sem turbulência no pico do Verão, mesmo aumentando as receitas.
O que é extraordinário no meio disto tudo, é que há poucos meses o Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, secundado pelos seus fidelíssimos deputados, prometeu “bons indicadores” e que estávamos “no bom caminho”.
Ora, as contas da SATA em 2019 vão ser tudo ao contrário do que prometeu o governo, os deputados do PS, a anterior administração, a secretária dos Transportes e por aí fora.
Fomos todos enganados e ninguém é responsável?
Nem uma assumpção de culpas?
Noutro presépio a sério, muita gente já tinha caído da manjedoura.

RICA RENDA 4 – Há empresas públicas, como a Sinaga, que já recebem mais subsídios do que as receitas do que produzem.
É a modalidade regional – muito agora em voga na banca – de criar “estabilidade emocional”…

RICA PRENDA 5 – Aí está a nova administração da SATA. E que administração!
No meio de 1.300 funcionários da empresa, ninguém habilitado para funções no corpo administrativo. É obra!
Em duas comunicações públicas, para anunciar os novos administradores, o Governo Regional escondeu, sorrateiramente, dois pormenores que fazem toda a diferença.
Na primeira, omitiu que o Presidente Luís Rodrigues só assumiria o cargo a tempo inteiro depois de terminar o período académico, lá para o final do Verão.
Esta semana, ao anunciar os outros dois administradores, volta a omitir as últimas funções desempenhadas pelo administrador Mário Chaves, enquanto Presidente da Transportadora Aérea de Cabo Verde, onde fez um trabalho de “limpeza” que deixou muitos caboverdianos de cara à banda.
Está visto quem é que vai assumir a presidência da SATA, pelo menos até ao Verão.
Mas há mais: o novo administrador é consultor e estratega da Icelandair, a mesma que se candidatou sozinha à compra dos 49% da Azores Airlines, concurso que só não avançou porque a Icelandair pretendia comprar os 49% por tuta e meia e o governo despachou o imbróglio com aquela trapalhada à volta de uma criativa fuga de informação por parte do parlamento regional.
Temos, então, sem necessidade de concurso, a Icelandair a tomar de “assalto” a gestão da SATA.
Oxalá que tudo corra bem e é muito provável que, daqui a uns tempos, estejamos todos a viajar em aviões da Icelandair e até da Binter. É só ver o que aconteceu em Cabo Verde…
Muita sorte para todos, mas cá para mim o governo, já em desespero, deixou-se sentar num barril de pólvora.

Bom ano.

Janeiro 2020
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-Açores, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

Ver também

Império da Santíssima Trindade Atafona São Vicente Fazer Malassadas

Império da Santíssima Trindade Atafona São Vicente Fazer Malassadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *