A desumanidade autárquica em vésperas de Natal!

Por Camen Ventura

Para o caso em apreço, basta-me referir dois políticos que governaram esta terra: Carlos César e Luís Martins Mota. Respectivamente, o presidente do Governo dos Açores e o presidente da Câmara Municipal da Lagoa.
Não estarei errada se disser que, caso estivessem no Poder, minutos depois da emissão da reportagem “Agarrada a Deus: entre duas prisões”, a assinalar o Dia Internacional da Deficiência, bastaria um simples telefonema para que um(a) assistente social estivesse em casa de Teresa Piques a constatar “in loco” o que tinham acabado de ouvir.

Dos últimos recados da governação de Carlos César, ficou-me gravado na memória o que enviou precisamente aos assistentes sociais, a quem exigiu que saíssem das secretárias e fossem para o terreno.
É por isso ensurdecedor, o silêncio da governação de Vasco Cordeiro a propósito deste caso de dignidade humana.
A reportagem foi emitida no passado dia 3 de Dezembro.
Até à data, não houve um assistente social, quer do Governo quer da Câmara, que fosse à Ribeira Chã testemunhar as condições em que Teresa Piques vive, junto da mãe, acamada. E de quem cuida. Mesmo presa a uma cadeira de rodas.
Vinte dias depois, precisamente hoje, fui informada que Teresa Piques vai poder cozinhar algo para a sua ceia de Natal. A generosidade de quem não está na política faz-se na entrega de um fogão a esta cidadã.

Até agora, o único sinal dado pela autarquia da Lagoa foi a publicação de um comunicado, na sua página do Facebook, a dizer: “…é preciso salientar que, em primeira linha, o apoio deve partir da família na resolução dos problemas e em certa medida a situação em que se encontra a habitação em que vivem passa em larga medida por isso…”.

A senhora autarca da Lagoa quis presentear-nos, em vésperas de Natal, quando os discursos são todos de solidariedade e amor ao próximo, com esta vergonhosa afirmação, que mete nojo a qualquer pessoa de bom senso.
Ter família, não é, por si só, sinónimo de qualquer um de nós ter os seus problemas resolvidos.
A este “lavar de mãos”, convém aconselhar a senhora autarca que será melhor “não cuspir para o ar”.
Mas como se não bastasse a violência da sua falta de humanismo, ainda afirmou no referido comunicado: “…desde logo, pela possibilidade de serem vendidas as propriedades e com os montantes auferidos ser melhorada a habitação própria, por outro lado, ter-se em consideração que todo o procedimento de apoio requer da parte da família o empenho na resolução de documentação necessária, sendo certo que há mais um irmão, nora e netos que poderão auxiliar a Sra. Teresa e a sua mãe nesse processo.”.
O que está aqui escrito, da responsabilidade da senhora autarca da Lagoa, é revelador da maior insensibilidade humana e política que alguma vez eu assisti e tenho memória.
Este tremendo desprezo pela dor dos outros, no caso concreto de uma munícipe deficiente, sem meios sequer para se defender na praça pública, é atróz.
A leviandade política da senhora autarca devia envergonhar o Partido Socialista. Devia, e deve, porque, desde logo, o Presidente do PS, em discursos que são públicos, tem deixado a garantia: onde houver um açoriano que precise de nós, nós estaremos presentes…
Seria bom que a autarca socialista, com cargos no “aparelho do Partido”, ouvisse da primeira fila, ou mandasse gravar, o que diz o Presidente do seu Partido.
Vasco Cordeiro, não tenho dúvidas, é humano. É solidário. O seu silêncio em não mandar averiguar o que se passa é, por isso, uma terrível contradição ao seu discurso.
Tanto mais que é sempre com visível emoção que fala aos mais desfavorecidos, aos deficientes, como ainda há poucos dias no lançamento da primeira pedra de uma instituição, precisamente, para deficientes.
Não percebo, e não aceito, que a sua governação, neste caso concreto, seja esta terrível sentença de “não querer saber”.
“Onde estiver um açoriano que precise da actuação do Governo, nós estaremos lá”. Então tome nota, senhor Presidente, está aqui: Mora na Ribeira Chã. Numa rua, onde os políticos não fazem campanha. A casa da açoriana Teresa Piques não tem um lava-loiças. Só vai ter agora um fogão, por solidariedade anónima. Solidariedade que não existe para tapar as falhas do seu Governo.
O tecto da casa onde Teresa mora ameaça cair…o soalho, igual.
Teresa cuida da mãe, acamada há anos. Vivem as duas num quarto minúsculo à entrada da porta da rua. Quando resta dinheiro da pensão, Teresa compra os medicamentos.
Teresa Piques não tem propriedades, como diz, maldosamente, a senhora autarca da Lagoa. A casa onde Teresa vive é de herdeiros.
As alegadas propriedades referidas pela senhora autarca são, na verdade, “um pedaço de terra no “Pizão”, património dos tios e da mãe de Teresa.
Teresa Piques enviou-me o seguinte esclarecimento: “a minha mãe nem tem a escritura, tá tudo em comum, tudo no nome de meu avô. aqui á anos não faziam nada, passava tudo de família para família. ainda tá tudo igual. nem os meus tios tem escritura, mas sabemos que cada um tem o seu bocadinho. Não lhe disse mentira alguma”.
Senhora autarca, mentir, de modo maldoso e vergonhoso, para ficar bem na fotografia política, devia obrigá-la a um pedido de desculpas público à cidadã Teresa Piques. Por acaso, e só a título de curiosidade, já foi visitar a senhora desde que a reportagem foi emitida? Ou a presidente da assembleia municipal, que é da Ribeira Chã?
Não se brinca nem se faz política suja com o nome de gente séria. É que não comem todos à mesma mesa. Lembre-se que não é mais do que ninguém. Nem o cargo que ocupa lhe dá a si, ou a outro, o direito de menosprezar quem quer que seja.
Teresa Piques nada pediu à Câmara da Lagoa. O comunicado divulgado no FB é só a prova de uma consciência pesada. Muito pesada.
Tão pesada que leva uma autarca a mandar, em plena assembleia municipal, votar contra um “voto de protesto” que denuncia “o uso e o acesso a um processo confidencial”. Uma atitude déspota. Demonstrativa do modo como governa o concelho. Quanto aos dois ou três imbecis que aconselharam o voto de protesto ser contra a reportagem, eu nem vou comentar.
Incompreensivelmente, ou talvez não, a Lagoa e o seu futuro, projectados e desenhados então por Luís Martins Mota, mais não é, hoje, do que uma Lagoa cinzenta, feita de pessoas tristes, de lagoenses com medo de falarem, de empresários preteridos. Mas também, verdade seja dita, é uma Lagoa feita de privilegiados, poucos, muito poucos, que em “ajustes directos” governam bem a sua vida.
Esta Lagoa dos últimos anos é uma cópia pardacenta da Lagoa de há vinte ou trinta.
E a freguesia da Ribeira Chã, onde mora Teresa Piques, é um pedaço de terra, parado no tempo do Padre João Flores, desde que foi “vendida” para saciar os apetites políticos de uns poucos.

Carmen Ventura

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