A Lagoa não é um paraíso

Por André Silveira

A mim, enerva-me o endeusamento de algumas personalidades e o frequente hábito de colocar certas coisas num pedestal acima de qualquer crítica ou mácula. Um estatuto quase sagrado, porém frequentemente oco e desprovido de base de sustentação, ou na melhor das hipóteses, medíocre e absolutamente normal. A normalidade de uma terra onde o normal é normalmente muito fraco. Assim é na Lagoa.

A Lagoa é um concelho onde se escondem os problemas e se aclama a fraca ambição de enfrentar os desafios que a jovem cidade terá de ultrapassar. E são muitos. São muitos e não se vislumbra qualquer vontade de se assumir que assim o é. Aliás, vive-se a fantasia de que tudo está bem, e que o concelho é um paraíso. Não o é.

Poderia enumerar todos o pontos negros que amordaçam o desenvolvimento do concelho, mas antecipando os do “apresentem soluções”, vou me resignar a apresentar soluções. Sem grande esperança porém. Outros já o fizerem com sucesso provavelmente igual.

A Lagoa necessita de um plano de emergência de intervenção escolar.

Os resultados são paupérrimos apesar do astronómico investimento nas paredes das escolas esquecendo que quem ensina são pessoas. Aliás, como tem sido por todos os Açores. Resolver com betão o que se deve resolver com gente será sempre caro e errado. O primeiro passo para uma educação à séria é a intervenção o mais precoce possível, de modo a retirar essas crianças de um ciclo que não lhes permita iguais oportunidades. Em Água de Pau esse trabalho é de emergência. Se se tivesse gasto menos um ou dois milhões de euros em betão e se investisse em equipas multi-disciplinares de actuação, certamente os resultados seriam outros. Ter um plano de bolsas de estudo que coloque alunos em universidades mas que os traga de novo ao concelho é fundamental.

A Lagoa necessita de atractividade e âncoras turísticas.

Não há como fugir a que o turismo será o novo pilar principal da economia regional. A Lagoa tem feito muito pouco para se preparar para tal. Apenas atrair hotéis é uma visão absolutamente redutora disso. Há que trabalhar, inventariar e valorizar os pontos de atractividade do concelho. E isso é ainda mais verdade quando olhamos para o potencial da costa. Defender e planear a utilização económica do mar e da costa deveria ser prioridade numa perspectiva de desenvolvimento e salvaguarda dos activos naturais. A Lagoa tem diversas zonas balneares que deveriam ser qualificadas e tem diversas que poderiam ser criadas. Mas como em quase tudo o resto que dependa de investimento público, aqui nada se faz. A actividade marítimo-turística é inexistente no concelho apesar de boa parte da sua costa fazer parte de uma área marinha protegida que nunca saiu do papel.

A Lagoa necessita de transparência.

Os ajustes directos são a forma que a nossa democracia encontrou para continuar com o sistema de amiguismo e favorecimentos. Adjudicar aos mesmo porque sim, ou impedir que outros acedam a contratação pública é errado de diversas formas. É ilegal e lesa a economia, mas antes de mais lesa o erário público. O exemplo da recente contratação do aluguer(?) da iluminação de Natal mostra bem o aparente favorecimento a algumas empresas, que mesmo assumindo ser legal, será imoral e errado. Criar um ambiente de mercado livre e livre concorrência, onde todos podem ter hipóteses iguais, deveria ser obrigação do estado. Na Lagoa não é assim.

A Lagoa necessita de acarinhar e valorizar a sua cultura e história.

Importar cultura quando a nossa é tão pouco valorizada não faz qualquer sentido. Apostar em “blues” quando falta quase tudo no apoio à nossa cultura é novo riquismo cultural, e demonstra tiques de vaidade burguesa simplesmente tola. Faz sentido um festival de blues na Lagoa pago pelos contribuintes? Eu adoro blues. Mas se gosto, eu que o pague. Há um levantamento sério da cultura do concelho? A sua história está devidamente estudada? e onde está a sua respectiva divulgação?

A Lagoa necessita de valorizar as suas actividades económicas tradicionais.

A pesca e a pecuária são as actividades tradicionais de quase todos os concelhos dos Açores. A Lagoa tem dois portos de pesca, sendo que um está em decadência e o outro para lá caminha dada a proximidade de portos maiores e mais capazes. Urge pensar, no médio longo prazo, o que se quer com estes equipamentos. O desnorte da governação é tal que se chegou a sugerir o aumento de um deles. Uma ideia tresloucada e que rapidamente caiu, felizmente para os bolsos dos contribuintes.

Na pecuária faz-se zero, à parte de se permitir que a maior parte do território esteja ocupado por pastos e mais pastos. Com o lento definhar do ciclo do leite, talvez fosse boa ideia criar um plano que promova a instalação de empresas que valorizem esse produto. Aliás, como no resto dos Açores, não se entende como não há um plano estratégico de promoção dessas pequenas e média indústrias. As queijarias por exemplo são uma solução em algumas ilhas. Ou a criação de um agregado de produtores de outros produtos que possam ser valorizados.

A Lagoa necessita de urbanismo.

Pelo menos nos últimos vinte anos não se fez nenhuma intervenção de fundo no centro urbano da cidade. Tudo continua igual. Não há qualquer estratégia nem adaptação da cidade à realidade do século XXI. Não há uma única rua pedonal. O estacionamento continua-se a fazer na via. Não foi definido o que se quer e como se quer o centro da cidade. O estacionamento é ad-hoc sem qualquer plano de gestão, mas vamos ter minibuses para o pessoal do RSI poder ir levantar o cheque aos correios todos os meses.

A Lagoa necessita de acabar com o despesismo

A Lagoa necessita de acabar com a cosmética política e deixar-se de tiques novo ricos e passar a assumir o seu enorme potencial. A via não pode ser apostar em mopis milionários comprados aos do costume, e apostar em festas “brancas” para os funcionários da autarquia, família e amigos. A via não pode ser apostar em aberrações caras como pistas de gelo e pseudo festivais a fingir que são pelo o que é local, quando não passam de feiras de vaidades vazias e com zero impacto no concelho e seu povo.

A Lagoa é muito diferente de outros concelhos dos Açores? Não é. É apenas uma caricatura do que são os nossos Açores e do modo como são governados.

André Silveira

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