Uma máquina de fazer pobres

Desde o tempo da Grécia antiga que existe a mentira na política.
Só que, nos tempos de hoje, ela corre mais depressa, graças aos recursos digitais ao dispor de qualquer cidadão, difundindo e partilhando tudo em que acredita ser verdade, só porque “vem escrito ou dito por alguém”.
A ausência de ‘fact cheking’ (confirmação dos factos) nas redes sociais está a matar a verdade e se a imprensa tradicional não se dedicar a investigar e a ajudar os cidadãos a procurarem a verdade, então não cumprem o seu papel de ‘gatekeeping’ (guardião da verdade).
É neste sentido, também, que o papel dos media tradicionais se torna relevante na sociedade de hoje, adicionado ao seu papel fundamental de defesa da justiça e do bem comum.
Compreende-se, por isso, a preocupação, mais uma vez, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o futuro da nossa imprensa no país, sugerindo que gostaria que o Orçamento do Estado para o próximo ano contemple medidas para a comunicação social e defendendo que os apoios devem ser gerais sem favorecer nenhum grupo em particular.
Há muitas medidas já inventadas noutros países, que não a distribuição aleatória de subsídios, como acontece nos Açores, mas na forma de incentivos indirectos que ajudam a diminuir custos de contexto e de distribuição, para uma maior circulação entre leitores, a começar pelas escolas.
Estamos a viver uma época perigosa do ponto de vista da circulação de informação na esfera pública, onde se julga que tudo é notícia e tudo é verdadeiro porque está difundido.
Combater esta iliteracia mediática é uma das prioridades do nosso tempo, mas quando os instrumentos para esse combate estão, na sua globalidade, nas mãos de alguns políticos, os mesmos que gostam de lidar com a informação não filtrada, sem intermediários e sem possibilidade de se recorrer ao ‘fact cheking’, então será cada vez mais difícil à imprensa tradicional cumprir a sua missão a favor da democracia e da verdade.
Convencer uma classe dirigente habituada ao “quero, posso e mando” é o cabo dos trabalhos.
Vivem noutro mundo, completamente irreal e sem interesse, intencional, em pensar com racionalidade e seriedade sobre os problemas que afectam a sociedade.
Preferem a ignorância e iliteracia dos cidadãos, enchendo-lhes o sonho com a dependência e discursos irrealistas.
Se num meio tão regulado, escrutinado e vigiado, como é lá fora, já é difícil – daí os alertas de Marcelo -, imagine-se numa sociedade como a nossa, cá, onde não existe reguladores, o escrutínio é inexistente e a vigilância parlamentar é pobríssima…
É por isso que vamos assistindo, quase todos os dias – e agora com mais intensidade, porque se aproximam as eleições regionais -, a tantas declarações disparatadas, meias verdades e informação inexacta, de deputados, governantes e outros responsáveis políticos, porque sabem que o escrutínio, entre nós, é amplamente deficiente e abafado pela enorme máquina de propaganda que se estende por todas as ilhas.
E isto é grave.
Sobretudo para uma geração que não está a viver numa sociedade com base na verdade.
Tudo isto amplificado, como convém, nas redes, não só provoca ódios, ausência de valores, indignação, ameaças, medos e descrenças, como consegue convencer as mentes mais frágeis de que vivem num mundo onde tudo é permitido e sem danos para o futuro.
Este modo sistémico vai acabar mal.
Sem algoritmos ou ciência de computação que nos salvem.

O EXEMPLO DA POBREZA – Um exemplo da visão irrealista que nos apregoam todos os dias está no Plano e Orçamento para o próximo ano, que começou a ser discutido ontem no parlamento regional.
O que se ouviu sobre o modo como os açorianos estão a viver é exemplar de quem não vive neste mundo.
Pintou-se a região como o paraíso da riqueza de rendimentos, da evolução das igualdades e do quase pleno emprego celestial.
A grande ironia de ontem é que, enquanto o documento estava a ser apresentado, o Instituto Nacional de Estatística divulgava ao mesmo tempo os últimos dados, relativos ao ano passado, sobre o risco de pobreza e exclusão social no país.
A realidade, nua e crua, vem escarrapachada nos números do INE: os Açores continuam a ser a região do país mais pobre e com mais exclusão social.
Pior disto tudo: enquanto no país se reduz a taxa de risco, nos Açores estamos a aumentar.
Como é possível, tantos anos depois de milhões e milhões transferidos pela União Europeia, pelo Orçamento de Estado e pela cada vez maior arrecadação de impostos, continuemos a piorar?
Que temos muitos pobres, já todos sabíamos. Basta olhar para a lista do Rendimento Social de Inserção, a maior de todo o país, ou para os dados sobre o poder de compra, a taxa de desigualdade e a privação material severa, tudo indicadores em que somos os piores do país, para concluir que estamos no caminho errado.
Quando 70% dos agregados familiares na nossa região têm rendimentos inferiores a 600 euros, o equivalente a quase 180 mil açorianos a viver com baixos rendimentos, ou quando mais de 80% dos alunos nas escolas vivem com apoios sociais, todas as campainhas de alarme deviam tocar na nossa região.
Há muita gente que poderá estar a viver muito bem, sobretudo os mais ligados ao sistema, mas quem sai das portas da Rua Marcelino Lima, na Horta, ou na Rua de Santana, em Ponta Delgada, é que fica a saber a desgraça que vai por estas ilhas fora entre tantas famílias.
A máquina de propaganda pode funcionar muito bem, mas a máquina de fazer pobres é muito mais eficiente.
E quem o diz não sou eu, é o insuspeito Instituto Nacional de Estatística.
A realidade é tramada.

Novembro 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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