Um supositório para cada contribuinte

Um supositório para cada contribuinte

13 de Novembro, 2019 0 Por Azores Today

Poucos se recordarão (faz agora 22 anos) de que o governo socialista de António Guterres decidiu assumir as dívidas dos Açores e da Madeira, quase todas elas relacionadas com o serviço regional de saúde.
O Estado assumiu a responsabilidade em partes iguais, perdoando 110 milhões de contos (ainda não existia o euro) à Madeira, correspondendo a 70 por cento dos 159 milhões da dívida madeirense, e outros 110 milhões aos Açores, cerca de 90 por cento dos 133 milhões de contos da dívida açoriana.
O “bónus” de Guterres permitiu ao primeiro governo de Carlos César, que tinha tomado posse um ano antes, limpar a dívida na saúde e desafogar as nossas finanças para outros investimentos.
Ninguém imaginaria que, duas décadas depois, os sucessivos governos de Carlos César e Vasco Cordeiro nos deixassem nova pesada herança, para pagarmos por muitos anos, num sector que é um poço sem fundo de dinheiros públicos e com os problemas crónicos e graves de funcionamento.
É uma incongruência inexplicável o facto de, quanto mais enterramos dinheiro no serviço regional de saúde, mais aumentam as listas de espera para cirurgias, mais medicamentos faltam nas unidades de saúde e menos médicos se deslocam às ilhas mais pequenas.
Neste último ano o Governo Regional escondeu mesmo os números das listas de espera, para que ninguém morresse com um fanico.
Um génio qualquer chegou até a inventar uma empresa para gerir todo o sector (a Saudaçor) e – adivinhem! – foi pior a emenda que o soneto.
A Saudaçor deixa-nos a todos, contribuintes, um calote de 750 milhões de euros para pagar e pouco ou nada mudou.
A constituição desta empresa foi mesmo uma grande festa, ao ponto de nem acertarem com a instalação de um sistema informático compatível com todos os hospitais e unidades de saúde desta região.
Agora, vamos absorver toda esta ruína no orçamento da região, aumentando o défice e reduzindo a nossa capacidade de investimento, sem que os milhares de açorianos que estão em casa à espera de lhes chamarem para uma cirurgia (fora os que já morreram sentados) tenham notado alguma diferença no acesso rápido e eficaz ao serviço regional de saúde, que tanto se prometeu aquando da sua criação.
A doença deste desastre é ainda mais grave, qual tumor que se espalha pelo corpo, quando o governo vem agora anunciar que também vai absorver a dívida dos hospitais de Ponta Delgada, Angra e Horta, para que as três unidades “deixem de recorrer a financiamento bancário”.
Ou seja, uma trapalhada a duplicar para a conta do contribuinte açoriano (sim, porque bem-aventuranças como no tempo de Guterres foi chão que deu uvas).
Contas feitas, para além dos 750 milhões de passivo da Saudaçor, vamos gemer com mais 580 milhões de euros, que é o passivo dos três hospitais.
Os três devem, ainda, a fornecedores mais de 115 milhões de euros e só o Hospital de Ponta Delgada deve à banca 189 milhões de euros.
Todos eles agravaram as suas contas nos primeiros seis meses deste ano, com o total dos resultados negativos a atingir os 16,5 milhões de euros e o total dos aumentos das dívidas a fornecedores para os 17,4 milhões de euros.
Os hospitais de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo aumentaram as dívidas a fornecedores em 2 milhões de euros e só no caso do hospital da Horta o resultado líquido negativo não é totalmente coberto por dívidas a fornecedores.
Do quadro em análise, resulta que o hospital da Horta penaliza menos os fornecedores e o da Terceira é o que os penaliza mais.
Mas a maior penalização absoluta acontece em S. Miguel, com 11,3 milhões de euros (65% do total).
Num quadro destes, o acesso à saúde nos Açores devia ser um luxo para todos.
Como sabemos, é para alguns. Sobretudo os que se movimentam mais nestes meios e os que têm conhecimentos.
Perguntem aos mais de 12 mil doentes em lista de espera e aos milhares por estas ilhas fora que não conseguem ter acesso a um especialista.
Atirar dinheiro para cima dos problemas e não ter imaginação e capacidade para encontrar soluções diferentes, competentes e eficazes, é continuar tudo na mesma.
Aliás, a nota que o Governo Regional emitiu ontem sobre as listas de espera devia envergonhar quem a escreveu.
Para além de pintar de cor-de-rosa um cenário que é todo negro, a nota governamental nem se atreve a revelar os boletins de cada hospital para que ninguém os possa interpretar.
A isto chama-se governar sem transparência, escondendo dos cidadãos os dados oficiais a que todos temos direito de saber. Até a lista de espera de mais de 12 mil doentes para cirurgias, o governo chama-lhe “propostas cirúrgicas” (!), uma terminologia para enganar os mais iletrados.
É incrível como é que Vasco Cordeiro permite estes disparates. São tiros nos pés, por governantes impreparados e mal intencionados, que o PS pagará caro.
Resumidamente: das fortunas que se estão a gastar no sector e continuarmos com mais de 12 mil doentes a aguardar melhores dias para as suas “propostas cirúrgicas”, milhares deles com anos de espera para serem operados, é uma afronta à dignidade de cada um.
É este o enorme passivo que vamos absorver.
Se a seguir vier a mesma decisão para absorver os passivos de toda a ruinosa e desastrada gestão das outras empresas públicas, então teremos a tempestade perfeita.
É que além dos 750 milhões da Saudaçor e dos 580 milhões dos três hospitais, é preciso não esquecer os quase 300 milhões da SATA, os cerca de 40 milhões da Lotaçor, os 30 milhões da Sinaga, os 1,5 milhões da ATA e por aí fora, que a lista é interminável e toda arrepiante.
E o pior disto tudo é que poucos acreditarão que “agora é que é”. Até porque esta pasta é a que já “triturou” mais Secretários Regionais e, ao que consta, nenhum deles deixou boa memória, como nenhum certamente guardará boas recordações.
Daqui a uns tempos cá estaremos para ver quanto mais nos vai custar este, por agora… supositório.

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A PRÓXIMA VÍTIMA – Nas actuais circunstâncias, a menos de um ano das eleições regionais, é óbvio que Vasco Cordeiro e o PS não irão lá fora procurar um gestor do topo, que saiba de aviação, para liderar a SATA.
Já se percebeu – e o presidente demissionário António Luís Teixeira confirmou – que o Governo Regional não quer reestruturação nenhuma na SATA, pelo menos até Outubro do próximo ano.
Portanto, o próximo sacrificado terá o perfil mais adequado ao frete eleitoral: uma gestora dócil, que obedeça à tutela, sem levantar ondas, tipo escola da EDA, que olhe muito para o governo e menos para os contribuintes.
Ou seja, mais um para aprender.

Novembro 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)