Guerra comercial. Queijo açoreano é um dos alvos das novas tarifas de Trump

Guerra comercial. Queijo açoreano é um dos alvos das novas tarifas de Trump

5 de Outubro, 2019 0 Por Azores Today

Sector agro-alimentar será o mais penalizado em Portugal pelas taxas de 25% autorizadas pela Organização Mundial de Comércio

No rescaldo da decisão da OMC – Organização Mundial do Comércio autorizar os Estados Unidos a impor novas tarifas aduaneiras como retaliação às ajudas da União Europeia à aviação, os produtores nacionais começam a fazer contas e a antecipar que o sector mais penalizado em Portugal será o agroalimentar.

“Os laticínios portugueses são um dos alvos das novas taxas de 25%, o que significa que os queijos serão especialmente afetados porque são a base das nossas exportações para os Estados Unidos”, diz Maria Cândida Marraquene, diretora-geral da ANIL – Associação Nacional dos Industriais de Laticínios, certa de que o queijo das ilhas será a principal vítima da ofensiva de Trump. “O mercado da saudade e os emigrantes nos EUA vão certamente ser penalizados”, acrescenta a dirigente associativa, à espera de exportar €3 milhões em queijo para a América do Norte este ano.

Na fruta, estão em causa pêssegos, cerejas, limões e laranjas, o que leva Domingos Santos, presidente da FNOP – Federação Nacional das Organizações de Produtores de Fruta e Hortícolas a admitir que os efeitos das novas taxas deverão ser sentidos sim, mas mais de forma indireta, uma vez que as exportações destes produtos para os EUA “são residuais”. “Se as tarifas se agravam e os produtores europeus perdem capacidade competitiva e mercado nos EUA, acabarão por vir pressionar os destinos em que estamos presentes e, até o próprio mercado nacional”, explica.

Na base do novo foco de tensão comercial entre Europa e EUA está uma disputa de 15 anos relativa aos apoios públicos à francesa Airbus (França) que a OMC considerou terem penalizado a norte-americana Boeing, pelo que decidiu dar luz verde à administração Trump para “adotar contramedidas em relação à União Europeia e a certos Estados-membro (…) desde que o valor não exceda os 7,5 mil milhões de dólares (€7 mil milhões)”.

“A decisão da OMC terá sempre impacto em Portugal porque temos uma economia muito aberta”, diz ao Expresso Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal, antecipando que o sector agroalimentar será o mais afetado, uma vez que a lista de produtos que passam a ser taxados com 25% inclui frutos como cerejas, pêssegos, limões e laranjas, lacticínios e carne transformada.

“E haverá sempre um impacto indireto desta medida, uma vez que alguns dos principais mercados de destino de Portugal como a França, Espanha, Alemanha, Itália e Reino Unido são fortemente afetados”, acrescenta.

Tarifas podem ser agravadas

Na decisão publicada na sua página da internet, a OMC informa que os EUA podem pedir autorização para adotar contramedidas em relação à UE e a certos Estados-membros, na forma de suspensão de concessões tarifárias e de obrigações ou na forma de suspensão de compromissos.

Em causa estão os subsídios atribuídos à construtora aeronáutica Airbus que a OMC reconheceu como sendo ilegais e penalizadores da Boeing norte-americana, pelo que o valor agora determinado (7,5 mil milhões de dólares) é fixado proporcionalmente ao grau e à natureza dos efeitos adversos relativos ao período em que foram dados apoios à Airbus (2011 – 2013).

A UE reagiu à decisão afirmando estar disponível para negociar com a administração Trump e disposta a retaliar caso o presidente norte-americano optasse por impor tarifas.

Mas os EUA já avançaram nesse sentido, anunciando novas tarifas de 10% sobre as aeronaves europeias e de 25% sobre centenas de produtos, do vinho francês, ao uísque escocês, ao vestuário de lã do Reino Unido e ao café alemão. O pacote inclui, ainda, produtos que podem ter proveniência portuguesa como os pêssegos, cerejas, limões e laranjas, lacticínios e derivados de porco.

O vinho português parece ter escapado às consequências diretas das taxas americanas, assim como os têxteis made in Portugal. Já a fileira metalurgica, que coloca nos EUA 3% das suas vendas ao exterior, admite impactos diretos e indiretos, em especial no sector automóvel e aeronáutico.

“Além do mais, com esta decisão da OMC, Trump acaba por sentir-se legitimado para novos agravamentos de tarifas”, diz Rafael Campos Pereira, vice-presidente da associação dos industriais do sector, AIMMAP. Aliás a representação comercial dos EUA já deixou claro que o país tem “autoridade para aumentar as tarifas a qualquer momento, ou para alterar os produtos visados”.

 

 

Fonte: Expresso