À mesma hora que o Dr. Vasco Cordeiro apresentava na Terceira um conjunto de medidas para mitigar os efeitos do furacão Lorenzo, o Dr. António Teixeira apresentava em Ponta Delgada o desastre anunciado do outro furacão financeiro chamado SATA.
A diferença entre as duas conferências de imprensa é que, enquanto na primeira o Presidente do Governo anunciava como iria recorrer à Protecção Civil para estancar as eventuais consequências contra os “factores externos”, na segunda o Presidente da SATA invocava exactamente “factores externos e circunstanciais” para explicar os prejuízos… mas não tinha ninguém a quem recorrer (seremos nós, contribuintes, a pagar o descalabro).
Nas semelhanças entre as duas conferências de imprensa, bastava olhar para a cara de ambos para deduzir que no subconsciente estavam a invocar Nossa Senhora da Agonia para amenizar os desastres.
O problema é que, enquanto no furacão, não há nada a fazer, a não ser esperar, já na SATA é exactamente o contrário.
Portanto, o Dr. Vasco Cordeiro estava na conferência de imprensa errada.
O Presidente do Governo há muito que devia sentar-se naquele lugar e dar um murro na mesa, ou fazer um acto de contricção, para pôr na ordem uma companhia em que o dedo dele fez aumentar a dívida em mais de 500% na última década!
As contas agora apresentadas são exactamente o contrário daquilo que o Presidente do Governo prometeu no parlamento e ainda vamos a meio do ano.
Mais grave ainda: o que se passou naquela conferência de imprensa é uma coisa inenarrável!
Perante um cenário pindérico, rodeado por colaboradores de segunda linha, o Presidente da SATA tentou iludir toda a gente, ao ocultar os verdadeiros prejuízos da SATA.
Anunciou que eram de 27,9 milhões e por aí ficou.
Só ontem é que tivemos acesso, por portas travessas, às contas da transportadora regional.
E o espanto não podia ser maior!
O que ali foi anunciado foi apenas o resultado operacional do Grupo SATA e não o resultado do exercício total do primeiro semestre.
O prejuízo, na verdade, é de 33,5 milhões de euros, porque o Presidente da SATA ‘escondeu’ o pagamento de juros do novo empréstimo, que só na Air Açores atinge os 4,7 milhões de euros.
A verdade é esta: a Air Açores teve um prejuízo de 6,6 milhões de euros e a Internacional atingiu os 26,9 milhões.
Ou seja, o resultado piorou em relação ao mesmo período do ano passado, passando de -31,9 milhões para, agora, -33,5 milhões de euros.
Como é possível apresentar resultados ocultando estes dados?
O Governo Regional sabia disso?
O Dr. Vasco Cordeiro deixou passar isso sem dizer nada?
Ao que isto chegou!
Com este resultado é mais do que certo que o objectivo da administração, de redução do défice de exploração em 50%, está definitivamente comprometido.
Ao ritmo actual, os resultados de 2019 serão piores do que os de 2018, o que não se estranha.
Mais uma vez, estes resultados vão implicar novo esforço considerável de saneamento financeiro da situação da empresa.
E o Dr. Sérgio Ávila, como sempre, antecipou-se logo pela manhã, no Conselho Económico e Social, ao anunciar mais 40 milhões para injectar no capital da SATA.
Ou seja , mais 40 milhões para tapar um buraco criado pelo seu governo, que ficarão a faltar para investir na criação de riqueza em 2020.
É mais uma daquelas verbas em que se paga o que já está feito, neste caso o buracão.
Quando o Dr. Vasco Cordeiro anunciou, com euforia contida, mais 40 milhões de euros de investimento público no próximo Plano e Orçamento, muitos parceiros sociais terão esfregado as mãos de contente, mas logo a seguir o Vice desferiu, como é seu timbre, a desilusão final: são destinados à SATA, que, de resto, já os “engoliu” nos prejuízos do ano passado. Já faltam mais milhões para o deste ano.
E chamam a isso, “investimento público”!
O segundo semestre, por norma, é sempre mais favorável para as companhias de aviação, uma vez que englobam o pino do Verão e o Natal, épocas essenciais para arrecadar receita.
O problema é que, com a SATA, tudo é imprevisível.
Com os inúmeros alugueres de aviões que efectuou neste Verão, mais o que virá, o mais certo é que as contas vão ser uma nova borrasca no final do ano, devido a estas coisas “circunstanciais”, em que nenhum gestor está preparado…
Nem mesmo com o A330 parado.
Vai chegar o dia em que nos vão tentar convencer que a SATA, para ter contas equilibradas, precisa pôr todos os aviões em terra.
Não há-de faltar muito.
Pode ser que, nesse dia, haja conferência de imprensa conjunta… mas não haverá Protecção Civil que nos salve!

Outubro de 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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