Por André Silveira

O modelo de negócio subjacente ao projeto de Carlos César de ter uma companhia aérea regional que competisse no mercado aberto, cujo o ideólogo foi o CEO da altura, sempre foi apenas uma fantasia socialista. O mercado da aviação não se compadece com contos de fadas, e foi sempre óbvio que uma companhia minúscula gerida pelo estado estaria fadada ao insucesso. É aí que reside a raiz do problema SATA Internacional. À boa maneira socialista, o insucesso pode existir se for pago pelo estado, tanto melhor se pelo caminho ajudar o sistema com “jobs”, contratos milionários com os amigos (do partido ou do sistema), ou simplesmente com a possibilidade de se atrasar este ou aquele voo para o Sr. Secretário não perder o avião. A SATA foi tudo isso e muito mais. Quem não queria trabalhar na SATA? Sem cartão do partido era difícil, e tinha-se sempre de ter o tal “padrinho”. Bons tempos dirão alguns saudosos. Os tempos de hoje são os de pagar a fatura.

Esta semana rasgaram-se as vestes por causa da fraquíssima reportagem da TVI sobre a aérea regional. Ao estilo sensacionalista que esta televisão nacional já nos habituou, foi mostrado ao país uma imagem de pré-falência, gestão danosa e total descontentamento por parte dos Açorianos. Apesar da reportagem, muito assente nas declarações dos entrevistados, diga-se, e muito poucos documentos, de conter imensas imprecisões, de se centrar quase em exclusividade em algumas ilhas e até falar dos assuntos com muita ligeireza, nada do que foi mostrado poderá ser uma surpresa para qualquer ser pensante que leia jornais e não tenha vivido numa ilha deserta isolada do mundo nos últimos dez anos. A comunicação social regional, até alguma nacional e imensas personalidades ao longo dessa última década têm vindo a alertar para todo o descalabro e para a sequência de desaires da SATA. Já para não falar na oposição, organizações empresariais, etc. Na verdade, quem tem andado distraído, adormecido diria, é o Açoriano. Foi necessário, como também já é habitual, vir uma televisão nacional dizer o óbvio para acordar (pouco, diga-se).
Ficou muito por dizer, mas a história recente da SATA necessitaria de uma mini série documental com vários episódios e um longo trabalho de investigação para poder ser contada. Coisa impensável nos dias que correm. Um dia a história tratará de mostrar todo o novelo.
A petição “Salvem a SATA” será discutida no parlamento regional nos próximos meses. Na verdade, reconheço que o nome escolhido deveria ter sido “Salvem os Açorianos”. Porque apesar destes terem se habituado a serem sempre salvos pelo estado ou pela Europa, neste caso isso será muito difícil de acontecer, ou a acontecer, trará consequências trágicas e muito reais na vida da Região. Se por um lado a empresa terá de ser saneada financeiramente, por outro terá de se financiar a própria reestruturação. As contas do primeiro semestre de 2019 estarão certamente “escondidas” até às eleições legislativas nacionais de Outubro, mas conhecendo-se os números do primeiro trimestre, e sem ter havido qualquer alteração significativa, o segundo será muito semelhante. Quer isso dizer que só este ano a empresa poderá ter um resultado negativos superior em muito aos 53,3 milhões de 2018. A sua dívida será, portanto, superior a 300 milhões, capitais próprios negativos e grandes dificuldades de tesouraria com a banca a exigir que o estado garanta todas as operações, ou seja, todos nós somos corresponsáveis. Isto tudo assumindo que não existem cenários escondidos, e dando as contas por boas, porque o cenário pode ser muito pior. Se não fosse o subsídio social de mobilidade que muito tem ajudado os cofres da empresa, muito provavelmente já se teria chegado ao ponto de resolução obrigatória. Mas todos sabemos que quer Vasco Cordeiro, quer o seu antecessor, são mestres em levar os problemas ao limite adiando tudo ao ritmo dos interesses eleitoralistas e do poder. Aqui, não foi, nem será diferente, e no fim o resultado será o habitual. Pagamos nós!
André Silveira

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