Açoriano de Água Retorta vende vinho nos Estados Unidos da América e o rendimento oferece para bolsas de estudo

Açoriano de Água Retorta vende vinho nos Estados Unidos da América e o rendimento oferece para bolsas de estudo

7 de Setembro, 2019 0 Por Azores Today

A maior parte dos portugueses que um dia emigraram para os Estados Unidos levaram consigo o engenho, a arte, o talento e a vontade de singrar num país que proporcionava excelentes oportunidades para o desenvolvimento dessas capacidades e conhecimentos extraordinários adquiridos de geração em geração.
Gabriel Cabral, natural de Água Retorta, aprendeu a arte de cultivar a terra e o que dela advinha com os avós e pais.
A paixão e apetência pela agricultura foi crescendo nos Estados Unidos e o ‘Portuguese Times’ foi encontrar este homem de sete ofícios na sua propriedade em Portsmouth, Rhode Island, onde cultiva de tudo um pouco, à custa do que aprendeu e foi aprendendo ao longo dos anos.
Reformado há vários anos, completou os seus estudos durante a noite enquanto trabalhava durante o dia. Formou-se em professor tendo leccionado em liceus da área e ainda no SER Jobs for Progress, onde leccionou cinco idiomas.
“Fui criado em São Miguel na minha terra por esse gosto incutido pelos meus pais e avós. Íamos de manhã cedo para as terras. O meu avô materno tinha uma loja. Queria ir para a aviação, aos meus 16 a 17 anos… Sempre gostei muito de ler. Sei a história toda de Portugal e sempre gostei imenso de matemática…”, sublinhou Gabriel Cabral ao Portuguese Times.
Recorda os primeiros tempos quando chegou aos Estados Unidos oriundo de São Miguel e as primeiras experiências na agricultura, precisamente na propriedade que hoje é sua, a que chama de paraíso e onde ocupa grande parte do seu tempo.
“O meu avô e meu sogro eram homens de negócios e quando vim para os Estados Unidos fui morar para a casa de meu sogro. Isto aqui era a sua casa de Verão e nesta área havia um grande pé de vinha. No dia seguinte plantei a vinha, enterrei três galhos usando uma picareta porque era inverno e a terra estava dura. Meu sogro disse, olha Gabriel faz tudo o que quiseres. Estudava e trabalhava para uma excelente companhia e deslocava-me a New York com frequência”, descreve.
Dotado de uma capacidade extraordinária de rápida aprendizagem e percepção, conseguiu, no seu primeiro emprego nos Estados Unidos, uma posição de destaque.
“Eu era gerente de “Quality Control”, fiz a primeira camisola sozinho… O primeiro trabalho que tive foi como prensador. Durante dois anos fui substituir um indivíduo que foi acometido de doenca e tomei conta da área”.
Ao fim de dois anos assumiu o cargo de gerente da fábrica, o patrão viu nele extraordinárias capacidades de líder. Para além da agricultura tem outra paixão: escrever livros, tendo já editado dois, poemas e autobiografia.
A sua natural curiosidade em desvendar mistérios da natureza, levou-o a investigar o processo da genética, sobre os fenómenos da hereditariedade e da variação nos seres vivos, nomeadamente nos coelhos que tem na sua quinta. “Perguntava a mim mesmo como é que o coelho branco tinha sempre o olho vermelho e estava curioso. Levei treze anos a fazer experiência nos coelhos para trocar para olho azul. À terceira e quarta geração consegui. Coelho com olho azul”.
Recorda os tempos de infância e juventude quando aprendeu com o seu pai as noções básicas da agricultura.
“Meu pai tinha muita experiência, era bom carpinteiro, marceneiro, sabia de tudo. Recordo que ele me dizia: olha e aprende. Aprendi a fazer assim dessa maneira. Aprendi aos 14 a 15 anos a podar as vinhas. Há pais que ensinam correctamente sem falarem muito”, salienta Cabral.
Reformado há mais de vinte anos, ocupa o seu tempo de Inverno a fazer cestos em vime e preparar o vinho.
“De Inverno faço cestos e engarrafo vinho. Nunca estou parado. Durante o Verão e a Primavera estou aqui fora”, refere Gabriel Cabral, que para além das inúmeras experiências no processo de enxerto nas várias árvores de fruto no seu quintal, confecciona vinho com base em vários frutos: maçã, tomate, pêra, etc…
“Faço vinho de muitas qualidades: de mesa, fortificado e com base em frutas, e vendo às caixas, porque tudo isto envolve muita despesa e o dinheiro que daí advém dou para bolsas de estudo”, conclui Gabriel Cabral

Texto e fotos Francisco Rezendes
Portuguese Times

 

Fonte: Correio dos Açores