Pedinchice

Todos sabemos que, perto das eleições, os políticos prestam-se a tudo.

Os governantes fazem campanha eleitoral descaradamente e são capazes dos maiores disparates para agradar a gregos e troianos, mesmo que ao longo do mandato se tenham mantido impiedosamente alheios.

É o caso da secretária regional Ana Cunha, que se deslocou esta semana a Lisboa, como os Governadores Civis faziam antigamente, para “sensibilizar” um ministro para problemas dos Açores que deviam ter sido resolvidos ao longo da legislatura.

“Sensibilizámos o senhor Ministro para esta recomendação e para o seu conteúdo (recomendação do parlamento regional para que a TAP regresse às ligações Lisboa-Horta e Lisboa-Pico)”, disse Ana Cunha, adiantando que Pedro Nuno Santos respondeu que, “dentro daquilo que são as competências do Governo da República, enquanto accionista, diligenciaria, ou sensibilizaria, a TAP, no sentido de operacionalizar o cumprimento desta resolução da ALRAA”.

Ou seja, um membro do governo da nossa região foi a Lisboa confessar a notável incapacidade do seu governo e da SATA em cumprir as obrigações de serviço público.

Não tarda nada, seguir-se-à o secretário da Saúde a pedir socorro para o crónico problema do serviço regional de saúde, que também está de rastos.

Entretanto, na fila de espera poderá estar também o Vice, para pedir que lhe resolvam a falência das empresas públicas e os pagamentos em atraso aos fornecedores.

Deixamos de ter um governo próprio para passarmos a ter um governo de pedintes.

Um dia destes temos todo o governo a pedir que Lisboa nos venha governar.

Com este gesto, o governo do Dr. Vasco Cordeiro inaugurou uma nova modalidade de governação regional: bater à porta de Lisboa para nos socorrer dos problemas em que somos incompetentes a resolver.

Ao que chegou a nossa Autonomia com tamanho vexame!

O pedido de socorro é tão surreal, que o ministro certamente terá avisado que não lhe competia imiscuir-se nas rotas da TAP, como o Governo Regional faz na SATA, pelo que a secretária prontamente veio dizer que “não é uma situação que se consiga obrigar a TAP a fazer, nem muito menos será a curto prazo”.

Então porque foi “sensibilizar” o ministro?

Uma “sensibilização” que nem é para cumprir a curto prazo?

Ele, que acaba a governação daqui a um mês?

Como também nem conseguiram resolver, nesta legislatura, a pouca vergonha do subsídio de mobilidade aérea, que “foi assegurado pelo senhor Ministro que está em desenvolvimento uma plataforma eletrónica que agilizará o processo de reembolso do SSM.”!

Sabem quanto tempo custa a desenvolver uma plataforma electrónica?

Mais de 4 anos?!

Estão a atirar mais bagacina para os nossos olhos… Tal e qual como no caso da nova cadeia.

Tudo isto cheira a campanha e não é para levar a sério.

É uma tentativa desesperada para salvar a face do Governo do PS em Lisboa, que fez um péssimo mandato relativamente aos Açores, ignorando-nos em tudo.

É o mesmo que dizer: atenção eleitorado açoriano, estamos a um mês do fim do governo de António Costa mas ainda é possível demonstrar que, com jeitinho, estamos aqui unidos à volta de temas importantes que nunca conseguimos resolver em quatro anos, mas vamos resolver depois das eleições… se votarem em nós.

O ridículo não ficou por aqui.

Estendeu-se, também, à ampliação do aeroporto da Horta, outra pedinchice que não dependerá apenas do Governo da República, mas também da ANA, que o administra, nem tão pouco é obra para este mandato.

Temos, portanto, tudo intenções, profissões de fé, “sensibilizações”, manifestações de interesse e muita pedinchice, de chapéu na mão, como nos tempos da velha senhora.

Em vez do Governo Regional estar preocupado com aquilo que é seu, naquilo em que manda, como é, por exemplo, a ampliação do aeroporto do Pico, que já devia estar resolvida há muito tempo (sem precisar de ir de chapéu na mão a Lisboa), presta-se a estes papéis no Terreiro do Paço que nos envergonha a todos.

Em vez de se empenhar em resolver a podridão da gestão da SATA, vai para Lisboa esmolar para que venha a TAP!

Não é só a região que fica mal com estas manobras eleitorais em que ninguém ganha nada.

É a própria política que se vai matando a si própria.

É o descrédito cada vez maior junto dos eleitores.

É mais um contributo para os cidadãos desabafarem, com razão, que afinal “são todos iguais”.

Setembro 2019

Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-A, Portuguese TImes EUA, LusoPresse Montreal)

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Um Comentário

  1. De que vale todas estas lamurias se, como desabafou o Osvaldo Cabral, os partidos “são todos iguais”.O que falta, isso sim, é que haja uma “oposição forte”, o que não acontece, neste momento, nem a nível Regional, nem tão pouco no âmbito Nacional, para que hajam alternativas credíveis!…Mais uma vez, deixo o desafio, para que, como jornalista e analista político com uma vasta experiência sobre os Açores, apresente o seu valioso contributo com alternativas concretas para que a situação que considera catastrófica dos Açores, se possa inverter:- como e com quem?
    Luís Botelho

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