Cinco vergonhas numa semana

Cinco vergonhas numa semana

22 Julho, 2019 0 Por Azores Today
1ª – Imagine o leitor que lhe oferecem, a título gratuito e definitivo, um terreno de 1,6 milhões de euros para construir a sua
casa.
Certamente que esfrega as mãos de contente.
Mas a história não acaba aqui.
Depois do engenheiro da obra analisar o terreno, diz-lhe que vai
ter de gastar 3,5 milhões de euros só para retirar de lá bagacina!
O que é que fazia?
O mais provável é que procuraria outro terreno.
Pois é, mas o Estado português e o Governo Regional são gente rica. Estamos a nadar em dinheiro!
A história que contamos esta semana, na edição de quarta-feira,
é de bradar aos céus.
A Região oferece um terreno à República, que pertence ao Instituto de Segurança Social, organismo que deve zelar pelos seus activos, em nome dos contribuintes, como se fôssemos mais ricos que a República.
Um Ministério que se diz da Justiça fica todo contente por gastar
3,5 milhões, só para retirar bagacina, como se estivesse a retirar ouro de uma mina.
Uma verba que dava para pagar obras nas velhas esquadras da
PSP nesta região, nas salas dos tribunais e dos conservatórios que metem água de inverno e nos equipamentos que faltam em tantos serviços do Estado pelas ilhas fora.
Uma autêntica provocação de um ministério irresponsável, com
o conluio de um Governo Regional nado-morto.
Uma vergonha.
2ª – Vergonha é o que já não há na SATA, tutelada pelo tal
nado-morto.
O que está a acontecer por estes dias é inenarrável.
Depois da região, há mais de uma década, andar a investir milhões de euros em promoção nos EUA e Canadá, eis que em poucos dias a SATA mete isso tudo no lixo com a operação em Boston e Toronto.
Não houve canal de rádio e de TV americana que emitisse tantas reportagens, com famílias inteiras e passageiros a vilipendiarem a transportadora regional, com polícia e tudo a ser chamada ao aeroporto de Boston.
Nunca se viu tamanha vergonha.
A cereja em cima do bolo: então não é que os grandes gestores
da empresa programaram voos com o novo avião Long Range sem saberem que ficaria certificado pela ANAC em tempo útil?
Ninguém se demite?
Ninguém do nado-morto levanta a voz?
3ª – O Governo Regional, pela primeira vez, borrou-se todo
para uma emissão de dívida a 10 anos, para 223,5 milhões de euros, com juros acima de 1%!
Ou seja, os Açores, de que fazem tanto alarido com “as contas
certas”, são mais arriscados do que a República, pelo que vão pagar mais pelo dinheiro que pedem.
É mais meio ponto percentual, com a taxa em cerca de 0,6% para Portugal e um pouco mais do que 1% para os Açores.
Neste momento os Açores pagam quase o dobro da taxa quando comparado com a República.
Para selar a situação, a Moody’s já tinha classificado a dívida dos Açores em “lixo”.
Vieram agora as outras agências colocar-nos lá à beirinha, abaixo da República.
E fazem disto uma festa.
4ª – Quando é que a Senhora Secretária Regional da Solidariedade Social, Andreia Cardoso, pára com este festim vergonhoso que é expor as caras de pessoas debilitadas, pobres ou de menores recursos, nas fotografias e imagens de propaganda em entregas de casas ou assinaturas de apoio a habitações degradadas?
São as pessoas em fila, ou sentadas à mesa, como se fossem à
esmola, com as caras de crianças e restante família expostas a uma situação que já é de si pouco edificante.
Onde já se viu isto?
A Comissão Nacional de Protecção de Dados não intervém?
Parece que estamos na Coreia do Norte.
Apoiem os pobres, mas não os envergonhem ainda mais com as imagens degradantes distribuídas pela central de propaganda do governo.
Ou já não há vergonha?
5ª – Numa viagem de menos de meia hora entre o Pico e Faial
perderam-se colheitas de sangue de vários doentes.
Iam como se fosse uma encomenda banal, em caixa de cartão,
como quem manda bolos da Padaria dos Fetais para um amigo do lado de lá do canal…
Cuidem-se os picoenses com a mil vezes prometida e propagandeada hemodiálise.
É bem provável que as máquinas também se tenham perdido algures nas profundezas do canal.
Tudo isto é o retrato perfeito de como vão os serviços e empresas públicas desta região: um autêntico regabofe, sem que ninguém seja responsável por nada, com uma administração política descredibilizada e a sensação, entre todos os cidadãos, de que a região está sem rumo. Sem governo nem oposição.
Triste sina.
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores 21 Julho 2019)