Estado de negação

Estado de negação

17 de Julho, 2019 0 Por Azores Today

Há por aí evidências de uma campanha orquestrada – não se sabe bem por quem, mas talvez me toque uma pequena parte – contra os Açores e a sua excelente via da felicidade.
Os últimos sinais são prova da maquinação ardilosa em ordem a destruir o mundo cor de rosa em que vivemos nestas ilhas.
Então não é que a agência de ‘rating’ Moodys já nos tinha posto no “lixo”, e agora surge a Fitch, colocando-nos à beira do lixo, abaixo da avaliação que faz à República?
E tem o desplante de olhar para as nossas contas como “uma combinação de elevada dívida da região em relação à receita operacional”?
Mas quem é que se julgam estas agências?
Esta região não deve nada a ninguém e é “atractiva para os investidores financeiros internacionais”.
Mais: passamos a ter “o acesso generalizado com menos custos aos mercados financeiros internacionais, libertando recursos dos bancos nacionais para a economia regional”.
Não vêem a quantidade de investidores internacionais que nos chegam todos os dias?
Íamos lá incomodar a banca nacional com acesso a dinheiro, ora esta!
Basta irmos ao Deutsche Bank, onde nos dão sacas de dinheiro para a SATA, com o aval das 240 mil alminhas destes torrões atlânticos.
E agora vem também a agência canadiana DBRS dizer que o nível de dívida dos Açores “é elevado”, alertando para o efeito negativo que os fracos resultados financeiros da SATA têm sobre o ‘rating’ da nossa região autónoma.
Eu não digo que isto está tudo combinado?
Esta agência julga que somos o quê? Caloteiros?
Não há fornecedor nesta região que diga que devemos alguma coisa.
Qual é o problema da SATA?
Até voamos para o Canadá, o país da referida agência caluniosa, como prova de que somos grandes e magnânimos.
Querem maior grandeza do que esta, que é sermos a única companhia do mundo que aluga um avião por 8 milhões de euros e está parado porque sai mais barato?
Isto é gestão moderna, percebem?
Claro que não percebem.
Só aqui, neste cantinho do mundo, é que fretamos um barco recauchetado e, depois, à última da hora, cancelamos o aluguer e vamos buscar o mesmo que esteve cá no ano passado.
A isto chama-se “capacidade de eficácia”, coisa que só a nossa secretária regional é que sabe.
Vocês não percebem nada de gestão e, por isso, correm o risco de serem chamados, a qualquer momento, para uma empresa pública.
Depois hão-de aprender. A isto chama-se “oportunidade para todos”, que é outro conceito inovador na nossa política açoriana.
Custa-nos os olhos da cara?
Na SATA foram 53 milhões de euros de prejuízo no ano passado e mais 20 milhões só neste primeiro trimestre.
E daí? Temos a banca lá de fora para o que for preciso.
Estamos a um “nível de investimento externo positivo” que “reforça ainda mais a capacidade da região de passar a emitir nos mercados internacionais”.
Vejam lá, ainda nesta segunda-feira fomos endividar-nos em mais 223,5 milhões de euros, numa emissão de dívida a 10 anos.
Ficamos com um juro acima de 1%, muito acima dos juros pagos pela República, mas o que é que isto interessa?
É a nossa primeira emissão de dívida, pelo que deve estar aí a sair mais um comunicado do nosso Vice a cantar hossanas…
O que é estas agências percebem de economia regional?
O nosso desempenho financeiro “tem sido estável, com a região a registar resultados operacionais sólidos e apenas pequenos défices de financiamento”.
Ora toma!
A nossa dívida pública anda à volta dos 2 mil milhões de euros e continuamos a aumentá-la de ano para ano?
O sector da Saúde está de pantanas, com dívidas até ao pescoço, a SATA idem aspas, a Saudaçor deixou-nos forte calote, a Sinaga e Santa Catarina em maus lençóis?
Tudo isso, como se diz nas nossas comunidades, é ‘pinotes’.
São “apenas pequenos défices de financiamento”.
O Tribunal de Contas já vinha alertando, na apreciação da Conta da Região de 2017, que ela “está afectada por erros e omissões materialmente relevantes”, nomeadamente em áreas como receitas da administração regional ou a dívida da mesma, pelo que foi a única Conta deste país aprovada com 20 recomendações e sete reservas!
Mas quem se julga o Tribunal de Contas?
Isto está tudo orquestrado contra nós.
Que autoridade têm estes senhores para virem dizer que “a regra do equilíbrio orçamental não foi observada” ou que “a dívida total do sector público administrativo regional excedeu em cerca de 354,6 milhões de euros (25,1%) o limite fixado para o efeito”?
Como se atrevem a contradizer o discurso oficial?
Logo se vê que também estão feitos com os empresários desta região, que se queixam de atrasos de pagamentos e da enorme trapalhada com barcos e aviões.
Deviam ir viver para a Venezuela para verem o que são dificuldades…
Nós estamos no paraíso das finanças públicas.
Ameaças no fornecimento de medicamentos?
Sabem que podemos ir ao Deutsche Bank num abrir e fechar de olhos?
Temos credibilidade internacional.
Nem precisamos da Caixa Geral de Depósitos, essa ingrata que, num recente empréstimo à SATA, obrigou a região a garantir em Jornal Oficial que ela seria sempre maioritariamente pública, se não ficávamos a ver navios…
Os nossos filhos e netos é que vão pagar o buraco que estamos a cavar?
E depois?
Não foi Sócrates, o grande amigo desta região, que disse que “as dívidas não são para pagar… gerem-se”?
Temem um resgate?
Isso é que era bom. Julgam que temos cá um Teixeira dos Santos ou quê?
Oh meus amigos, não liguem ao que esta gente diz por aí.
Eles querem é puxar os Açores para baixo.
São sempre os mesmos: as agências de ‘rating’, o Tribunal de Contas, os empresários, a oposição, o Osvaldo… julgam-se o quê?
Vão mas é de férias, que o tempo está bom (como as nossas finanças públicas) e aproveitem as festas que nunca mais acabam por estas ilhas fora.
Boas férias e até Setembro.

Julho 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)