A samaritana e o marroquino

A samaritana e o marroquino

12 Julho, 2019 0 Por Azores Today

A samaritana e o marroquino

Jul 12, 2019 | 35 mm

Pelo Pe. Teodoro Medeiros

A carreira de Rainer Weiner Fassbinder terminou cedo, aos 36 anos, com uma overdose que terá sido suicídio. A essa data, 1982, Fassbinder já deixava um legado de mais de 40 filmes e cerca de 15 peças de teatro (algumas das quais ele também filmou). A melhor palavra para descrevê-lo? Génio (do género atormentado).

Um eterno insatisfeito, um trabalhador febril dotado de um sentido crítico invulgar, o realizador alemão teve uma infância difícil: caiu em depressão aos 15 anos depois do divórcio dos pais e do abandono a que a própria mãe o votou. Durante muito tempo, dirá mais tarde, o cinema foi a família que não tinha em casa.

Mesmo assim, falhou quando, aos 20 anos, tentou entrar na Escola de Cinema de Berlim com uma curta metragem. Esse facto fê-lo refugiar-se no Teatro, onde desenvolveu a sua escrita. Também o insere no pouco povoado grupo dos que são apontados como “o realizador melhor de sempre” sem nunca terem estudado cinema (Herzog, Fellini, Kubrick, Hitchcock).

Fassbinder considerava que o cinema devia ser político primeiro e agradável depois: muitos dos seus filmes são reflexões sobre os problemas sociais que mais o afligiam, mas o seu interesse pela dificuldade de relações amorosas estáveis foi crescendo. Talvez por isso, o seu cinema foi-se tornando sempre mais humano e mais melodramático também.

Em 1974, o realizador admitiria um volte face na sua carreira: “-neste momento, considero que a necessidade primária é satisfazer a audiência. Só depois se deve lidar com o conteúdo político.” Surge-nos espontânea uma pergunta: quais eram as questões políticas da Alemanha em 1974?

A julgar pela produção desse ano, o telefilme “Marta”, a opressão sádica do outro é um assunto relevante; e olhando para “O medo come a alma”, a xenofobia e o racismo fazem parte do ADN das pessoas de bem alemãs. Não se trata de uma aproximação subtil: as feridas do Nazismo devem ser reabertas, não vá a cicatrização ser só superficial (a protagonista afirma que sempre quis comer ali, onde Hitler o fez também, entre 1929 e 33).

Se “O medo come a alma” é um ditado árabe, assim como a canção do genérico inicial, a estória é explicitamente europeia, a do amor entre Emmi, uma mulher madura, e Ali, um marroquino que procurou uma vida melhor. Trata-se de um conto de fadas doloroso e sê-lo-ia sempre: como se atreve uma viúva a abrigar um africano?

Os problemas não se fazem esperar, as vizinhas cedo começam a falar… e as companheiras de trabalho reagem contra todos os imigrantes antes de saberem seja o que for. Grande pedra no caminho da amada: tem três filhos adultos a quem terá de revelar os últimos acontecimentos.

Os dois amantes estão muitas vezes enclausurados no mesmo plano, separados de todos os outros: não é possível entrar calmamente nessa noite. Nem isso interessa a Emmi: com mais de 60 anos vividos, não está interessada em soluções de meio termo e contrai matrimónio com o seu novo amor.

Adentrado neste rumo irreversível, o casal inicia o seu calvário: tudo muda à sua volta e não para melhor. O filme expõe com paciência todos os pormenores da punição: viverão alienados de tudo o resto, como os marginais que se auto definiram. Adão e Eva já não têm alojamento no paraíso.

As pessoas evitarão falar com Emmi; os empregados de restaurante serão antipáticos; as amigas censuram a pecadora e os filhos repudiam-na finalmente. Até o dono da mercearia prefere não a ter como cliente, o que não pode deixar de a arrasar. Ali sente-se alienado.

Poderão eles prescindir dos grupos que os circundam? Com certeza que não e é essa a questão: as divergências sobre o que comer são apenas uma metáfora sobre dois mundos que coexistem e coabitam mas que não casam um com o outro. A inveja, o escândalo e o nojo dos outros também os tocam, também os empeçonham.

“O medo come a alma” é um ditado árabe e é irónico que seja o melhor comentário para a Europa do século XXI: aquela que professa a justiça da morte de seres humanos nas águas do mediterrâneo. Bem recorda o Evangelho: é enorme a distância entre ser-se bom samaritano e bom sacerdote ou levita. Ou será só um sonho inútil?

Se regressarmos ao já citado Dylan Thomas:

“Good men, the last wave by, crying how bright

Their frail deeds might have danced in a green bay,

Rage, rage against the dying of the light.”

Contra a morte da Luz, o filme está disponível com legendas no youtube: “O medo devora a alma”.

Fonte: Igreja Açores