Banho de ética

Banho de ética

5 Julho, 2019 0 Por Azores Today

Por André Silveira

A abstenção será certamente o maior obstáculo a uma mudança de cor política no governo dos Açores. Em ciência política, em particular quando se fala de campanhas eleitorais, é de antologia dizer-se que a mensagem não deve ser direccionada ao eleitorado base dos adversários políticos, quer-se apelar sim aos que não têm militância, muito em particular aos abstencionistas, já que esses são a esmagadora maioria. No caso dos Açores isto é mais do que evidente. A base eleitoral militante dos dois principais partidos tem se vindo a reduzir, e ambos necessitam dos restantes para uma vitória. No caso do PSD ainda mais, dada a longa travessia de quase um quarto de século na oposição triturando líderes e personalidades.

O PSD Açores necessita de se afirmar como alternativa clara e credível de modo a cativar aqueles que deixaram sequer de votar, apesar de ideologicamente estarem no mesmo espaço político. A parte do “credível”, aqui, assume toda a importância. Mais fácil dizer do que fazer, é certo, mas será mais ou menos óbvio que terá de começar pelo líder. O líder ser constituído arguido num caso de abuso de poder e peculato, certamente não ajuda em nada, ou feriu mesmo de morte qualquer réstia de possibilidade.

Alexandre Gaudêncio foi eleito pela “máquina” partidária instituída contra as intenções alegadas de renovação de Pedro Nascimento Cabral. Eu apoiei o segundo mas, porque é assim que acho que se deve estar em democracia, e porque já chega de triturar líderes no PSD Açores, assumi o primeiro como a melhor hipótese de levar o partido ao bom porto das Regionais 2020. Vi vontade, vi abertura e muitas vezes a humildade em querer abrir o partido e tentar mudar. Vi a tentativa de que a mensagem daqui em diante fosse credível e aberta também à sociedade. Vi incómodo quando se tentou perturbar o status quo: um excelente sinal. Entusiasmei-me confesso.

Acredito no estado de direito. Acredito no poder judicial. Vi “o Sócrates” ser preso e vi os Portugueses votarem nos amigos dele o suficiente para nos governarem. Mesmo assim, acredito no estado de direito. No dia em que não acreditar serei o primeiro a lutar por ele, mas até lá acredito. Acredito na presunção da inocência, nos direitos, liberdades e garantias constitucionais, e por isso, não consigo admitir a possibilidade de que em Portugal se constitua arguido um presidente de um partido sem se ter consciência plena das implicações. Não acredito que quando uma polícia afirma existirem fortes suspeitas, está ao serviço de um partido, ou apenas apoiada em denúncias anónimas. O PSD Açores certamente não pode pensar de modo diferente, nem pode ter posição contrária.

Não está em causa a inocência dos que foram constituídos arguidos. Aliás, Alexandre Gaudêncio ainda nem foi sequer ouvido em sede própria, e acredito que esta possível acusação possa cair. Seria grave do mesmo modo e sinal de que o estado de direito está bem mais doente do que quero acreditar. No entanto, a bem da transparência e da credibilização do seu projecto político, deveria ter suspendido a sua liderança mesmo que optasse por não se demitir, pelo menos até ser ouvido, e os órgãos do partido deveriam ter-se mantido em silêncio. Não o fizeram, estão solidários em toda esta trapalhada para o bem e para o mal.

Este caso pode, e deve ser visto como um caso de estudo acerca do que vai mal nos aparelhos partidários, e porque razão a abstenção tem sido quem vence todas as eleições. Confesso que nos últimos dias até a mim me apeteceu dizer “são todos iguais”. Não são porém sei bem, mas não basta não serem, é preciso fazerem e dizerem diferente.

André Silveira