VOTO OBRIGATÓRIO, JÁ!

Por José Pacheco

Desde há muito que sou um defensor do voto obrigatório. Ora vejamos, somos obrigados a ter uma data de deveres cívicos, todos eles policiados pelo estado, porque razão há de ser o voto, que é para além de um direito, um dever, ser a excepção? Se tudo assim fosse, também quero que o pagamento de impostos siga o mesmo critério.

No entanto, ouvi da parte do presidente da RAA, Vasco Cordeiro, a vontade de se criarem benefícios fiscais e sociais para incentivar ao voto e consequentemente combater a abstenção galopante que vamos vendo de acto eleitoral, em acto eleitoral. Posso até concordar com o princípio, mas fico sempre a pensar que nem isto será uma mais valia ou convencerá alguém. Vejamos o exemplo do pedir factura, com as benesses que dai poderão vir, que não me parece tenha grandes efeitos presentemente. Por outro lado, sempre era bom perceber se serão os eventuais incentivos relevantes ou coisa para ninguém mexer um pé em direcção às urnas.

Dizem uns que “Quem não vota não se pode queixar do voto dos outros”. Estão todos aqueles que não votam perfeitamente alheios a isto e às respectivas consequências. Afirmam outros que devemos ter “mais informação sobre o trabalho político, parlamentar e governativo”. Ninguém quer saber disto. Já existem várias ferramentas neste sentido e não vejo grande interesse dos açoreanos no tema e muito menos de quem governa que ficaria demasiado exposto, se bem que para mim quanto maior a informação e transparência melhor.

Mas a abstenção vai muito para além do simples voto. Há coisas muito graves que não vejo qualquer medida para as combater. Comecemos pela qualidade dos governantes e passemos pela alta corrupção, transversal a todos os organismos do estado. Fecham-se os olhos ao “pequeno jeito” e acabamos todos a ser servidos pelos amigos dos amigos, dos parentes, adorentes e máquinas partidárias. Trocam-se favores a troco de cargos políticos ou similares, compram-se comunidades com esmolas que deveriam ser um direito inegável e numa maior proporção financeira. Uma promiscuidade nojenta e descarada. Não compreendo a lentidão, ou até ineficácia, da justiça, nesta matéria.

Usam-se e abusam-se dos nossos valores, tradições, costumes e mais valias culturais em prol do eleitoralismo e de protagonismos de simples provincianos de aldeia. Fazem-se comícios dentro de igrejas, colocam-se padres a defender o sistema e a mandar calar quem se insurge contra o “status quo”, a troco de uns baldes de tinta para pintar a sacristia. Mente-se descaradamente todos os dias com a falta de orçamento, quando vemos o dinheiro a ser desbaratado nas mãos de uns poucos “amigos”. Há uma cada vez maior destruição dos valores sagrados da nossa sociedade. Hoje, dá-se mais valor a um cão ou gato que a um ser humano.  Já ninguém sobe na vida pelo mérito e pelo trabalho, mas sim por padrões impostos ou adulterados socialmente, ou então, conhecendo as pessoas certas, nos lugares certos. É esta a mais triste realidade e quem não quiser ver é porque faz parte da mesma corja de aldrabões e vigaristas.

Como é possível viver tanta gente do estado e no dia de votar só lá vão alguns agradecer o “jeito”. Já que não se pode mudar o povo ao menos que se mudem os políticos.

O voto obrigatório vai resolver tudo isto? Não! Mas garantidamente vai por as cabecinhas pensantes, as tais que ficam no sofá em dia eleitoral, a pensarem melhor quando lá forem por a cruz. Terá também o mérito de fazer qualquer político pensar duas vezes antes de agir, uma vez que nada estará garantido, como tem sido até aqui. Nem todos dependem do sistema, e serão estes que vão fazer uma grande diferença.

Os partidos políticos estão cada vez mais desacreditados e quando me dizem que “votam em pessoas” dá-me vontade de soltar altas gargalhas, porque em certas circunstâncias ou lugares, até um burro ganha as eleições, se estiver do lado certo da barricada. As pessoas, as poucas que lá vão, andam a votar sim em contrapartidas pessoais, quer seja uma janela nova ou o emprego da filha. Ou seja, só lá vão votar os interesseiros e alguns tolos, como eu, que acham que podem fazer a diferença. Mas teimoso como sou conhecido, penso sim que um dia fará toda a diferença.

Podem até ficar os que lá estão, mas garantidamente será com maior legitimidade porque, no meu entender, ser eleito apenas por menos da metade dos eleitores não é democracia, mas sim uma grande vigarice democrática.

 

Ribeira Chã, 10 de Junho de 2019

José Pacheco

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