Nos Açores, o que há a mais: Pastos ou Hotéis?

Está na moda ser anti turismo. Para uns é apenas por moda, para outros porque simplesmente é chato ter de marcar restaurante para se ir jantar fora, e ainda para outros simplesmente não estão nada habituados à concorrência, e por isso “dá jeito” dizer que deixar crescer o sector será mau para a Região. Depois há o turismo de massas. O turismo de massas é um fantasma que ninguém sabe muito bem o que é, mas que todos acreditam não ser o que os Açores necessitam. Nunca ninguém o viu, mas ele anda aí. Os relatos dramáticos das suas aparições são abundantes nas redes sociais. Dizem, o que necessitamos é de ser um destino diferenciado que procure o maior Valor acrescentado, natureza, o mar e o mais não sei o quê cheio de lugares comuns, e que espremido não quer dizer absolutamente nada. Ou seja, o mesmo que qualquer destino do mundo procura. Mais rendimento com o menor gasto possível de recursos. Qualquer plano estratégico de qualquer destino contém formulações semelhantes, seja a ilha destino de praia com milhões de turistas por ano, seja um qualquer lugar remoto exclusivo e ao alcance de poucos. E por isso, apenas podemos assumir que, no final, somos um destino como os outros, que está no mercado em concorrência, e que luta por uma melhor performance possível. Temos características únicas. Mas quantos outros também têm?

Os Açores nos últimos anos têm como um dos principais pilares da economia a mono cultura da vaca para produção de leite. Muito ou pouco subsidiada foi, e é, uma actividade que trouxe riqueza e emprego. Actividade essa que depende da ocupação do território. Resultado disso é termos uma área de pasto relativa enorme, e que cobre grande parte das nossas ilhas. Muito em especial em São Miguel. Ora, os pastos são verdes, mas não deixam de ser uma ocupação de recurso pouco sustentável. À custa de apogeu do leite destruímos habitats únicos e levámos espécies quase à extinção. Aniquilamos quase toda a terra cultivável em substituição de pasto. Já para não falar que quase destruímos as mesmas lagoas que agora outros pagam para se deslumbrarem com a sua vista. À parte de um ou outro movimento pontual, não me recordo de em momento algum haver uma preocupação efectiva com isso durante o crescimento do sector. Nada surpreendente, porque de um modo quase natural toda a sociedade percebeu que o rácio entre a ocupação de recursos e a riqueza gerada seria benéfico para o bem comum. Na verdade, foi-se longe de mais, e agora, com o inevitável encolhimento do sector, já se começam a constatar os problemas gerados pelo exagerado foco no aumento da produção. Mas esse é outro assunto. O que quero demonstrar com esta reflexão é que a economia consome, ou tem de ter alocados, recursos.

O turismo também consome ou ocupa recursos, é certo. E a questão de ordenamento urbanístico e de infra-estruturas é um dos desafios para que não se comentam os erros de outros destinos bem conhecidos. Por outro lado, se não houver planeamento e promoção adequada, certamente o resultado não será o melhor. Todas essas reflexões são pertinentes e muito necessárias. Mas a reflexão fundamental que impera ser feita pela sociedade civil e pela classe política é: que Açores queremos para o futuro? Existe outro sector nos Açores com capacidade de crescimento e criação de riqueza como o turismo?

O que nos resta num cenário de provável estagnação ou até mesmo recessão do sector do leite? A pesca poderá crescer de forma significativa como indústria num ambiente de maior contenção, e onde assuntos como a sobrepesca e ambientalismo terão cada vez mais preponderância? Ou acreditamos que será a indústria aeroespacial o motor da nossa frágil economia arquipelágica? Pior, vamos exportar tecnologia, conhecimento?
À parte da ciência do mar e de possíveis, muito remotos, ganhos, que com esta política de não investimento serão impossíveis, não se vislumbra qualquer alternativa nem qualquer indústria que milagrosamente vai retirar beneficiários ao rendimento social de inserção ou colocar o desemprego abaixo da média nacional. E, portanto, parece-me vamos passar pela era do turismo nos Açores para o bem e para o mal.

Para o progresso serão necessários compromissos. É óbvio que a calma bucólica dos nossos Açores não vai ser a mesma. Lamentamos se calhar isso. Porém será gerado emprego e riqueza. Haverá investimento externo. Seremos mais independentes economicamente e temos a oportunidade de afirmarmo-nos a nível internacional. Esse é que deverá ser o desígnio de quem nos governa.

Não quero com isso dizer que a sociedade civil e a classe política se devam inibir de uma vigilância atenta. A nível da governação, terá de se ver muito mais além, e será necessário regular o sector de modo a impedir o crescimento selvagem. O próprio poder local terá de fazer a sua parte como parte activa na regulamentação da ordenação do território. Mas, estamos muito longe da ideia de eminente desastre que alguns querem tentar passar, elevando bem alto a bandeira do medo num acto absolutamente populista.

Na verdade os Açores têm bem mais pastos a mais do que hotéis.

André Silveira

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