O especialista em negócios de buracos

O negócio da compra dos campos de golfe em S. Miguel é, somente, mais uma demonstração da gestão ruinosa com que o Governo Regional trata as empresas públicas regionais.
Porque se trata, de facto, de má gestão e incapacidade de ter as pessoas certas nos sítios certos.
Vejam só esta engenharia financeira: o governo manda uma empresa pública (Ilhas de Valor) ir à banca pedir dinheiro emprestado para comprar, por 6,6 milhões de euros, os campos de golfe da Batalha e das Furnas, que tinham sido vendidos há alguns anos por 9 milhões, mas que, na retoma, já tinham consumido à mesma empresa pública (Ilhas de Valor), que geriu os campos nestes últimos anos, cerca de 9 milhões de euros!
Conclusão: primeiro o governo vende de forma atabalhoada, depois é obrigado a gastar 9 milhões para manter os campos, e depois paga ainda mais 6,6 milhões aos fundos dos bancos falidos para recomprar os campos!
Agora dizem que valem 19 milhões, certamente para camuflarem o que já foi lá enterrado.
No meio disto tudo, o objectivo principal é não obrigar as Ilhas de Valor a registar uma imparidade de 9 milhões.
Ficaria feio nas contas desta empresa pública, mas como as contas de todas as empresas públicas já estão muito feias e escandalosas, não convém acrescentar o descalabro.
Vamos lá, então, à história recente deste enorme buraco, que soma aos 45 buracos dos dois campos.
O Governo Regional, que não tem vocação para gerir fábricas de açúcar, de conservas e muito menos campos de golfe, decidiu entregar os campos de S. Miguel à Oceânico, uma empresa irlandesa com interesses em campos de golfe no Algarve, que depois, em 2008, descobriu que não ia a lado nenhum com as condições impostas pela tutela regional, passando de imediato a bola para o grupo madeirense SIRAM, que entrou no negócio com uma tacada que dava para percorrer todos os campos e ainda mais alguns por estas ilhas fora.
Assim foi.
Prometeu de imediato construir um campo de golfe no Faial, conforme condição imposta pelo nosso governo (que fez fugir a sete pés a internacional Oceânico) e entregou mesmo o Estudo de Impacto Ambiental à Secretaria Regional do Ambiente, para um terreno de 90 hectares, próximo da cidade da Horta, como “contributo para um novo impulso no desenvolvimento turístico do Faial e do arquipélago açoriano”.
Governantes e administradores fizeram um desfile de promessas na ilha do Faial, porque vinha aí a chave do desenvolvimento turístico da ilha.
Quem já conhecia história da construção do campo de golfe na ilha de Santa Maria (que vou contar mais à frente) ficou logo com o pé atrás.
Bastaram dois anos para se perceber que o negócio era mesmo… um grande buraco.
A SIRAM, que veio a falir e obrigando o governo a retomar os campos, disse logo adeus ao Faial.
Para trás, no campo da Batalha, ficaram, também, por cumprir, outras promessas no papel, como a construção de um hotel, um centro de congressos, um SPA, apartamentos de turismo residencial nos terrenos junto ao campo, assim como a componente hoteleira no tal campo do Faial, tudo em mãos largas no valor de 700 milhões de euros.
Mesmo assim, depois de cancelar tudo, alegando a crise económica do país, a empresa ainda prometeu que retomaria um dia o negócio e até prometia mais: construir um campo na ilha do Pico!
O nosso governo lá foi aprovando a cantilena.
Quando deu por si, já tinha novamente o menino nas mãos.
Tivemos assim que, apenas entre 2010 e 2013, a exploração dos campos, nas mãos do governo regional, acumularam prejuízos de exploração de quase 3 milhões de euros, a somar a outros 3,6 milhões de dívida acumulada.
A subsidiação à exploração dos campos, durante todos estes anos, foi de tal ordem, que se perguntarem hoje à tutela quanto somam os prejuízos e dívida financeira, ninguém vai saber responder ao certo.
Pior, durante todos esses anos foi um tal acumular gente nos quadros da empresa, sem se perceber porquê, muitos deles arrastando-se ainda hoje pelos corredores do imponente ‘Club House’ da Batalha sem que ninguém saiba o que fazem.
A especialização em buracos não fica por aqui.
Em 2006 o governo prometia-nos outro campo de golfe em Santa Maria, com festa rija em Vila do Porto, governo em peso, deputados, autarcas e os subsidiados do orçamento do costume, lambendo-se num fastidioso concerto de loas acerca do futuro promissor que vinha aí.
Até foi anunciada a contratação de um dos maiores projectistas e golfistas do mundo, o famoso Nick Faldo, para desenhar o campo, prova de que teríamos o maior símbolo da modernidade golfista em plena ilha do sol (agora é terrenos fértil para satélites…).
Resumindo que se faz tarde: foram atirados ao caixote de lixo mais de 1,3 milhões de euros na execução de estudos, levantamentos, projectos e publicitação.
O projecto arrastou-se, sem antes se enterrarem mais umas centenas de milhares em furos para captação de água para regar o prometido campo, compra de terrenos e por aí fora.
Até hoje.
Temos agora nova novela.
Mais uns milhões a tirar do nosso bolso para pagar todos estes desmandos e ficar à espera que apareça uma alma caridosa que queira, de uma vez por todas, pegar nos campos de S. Miguel com as condições do governo, que ninguém certamente aceitará, porque são a certeza de prejuízo inscrito no fim do ano de exploração.
E assim se brinca aos buracos, sem acertar num que seja. Na gíria golfista chamamos a isto um “grande podão”.

Osvaldo Cabral

(Diário dos Açores de 30/01/2019)

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