O saque fiscal

O saque fiscal

23 de Janeiro, 2019 0 Por Azores Today

O Governo Regional dos Açores aprendeu rápido com o “Ronaldo das Finanças”.
Sem dinheiro nos cofres para distribuir pela clientela que dá maiorias absolutas – a vasta máquina da função pública -, não resta alternativa senão assaltar os nossos bolsos com impostos indirectos.
Já há muito que se desconfiava da marosca, mas num documento interno do governo, a que tivemos acesso, fica claro onde é que a Vice-Presidência tem ido buscar dinheiro para distribuir agora pelos funcionários públicos, em ano eleitoral importante – Parlamento Europeu e Assembleia da República – como rampa de lançamento para as regionais do próximo ano.
No primeiro quadro, que aqui publicamos, é possível constatar que de 2015 a 2017 a receita dos impostos indirectos aumentou 9,4%, passando de 395 milhões para 432 milhões de euros, ou seja mais 37 milhões.
No outro quadro, é visível o aumento das despesas com pessoal, no mesmo período, crescendo de 304 para 318 milhões de euros, ou seja mais 4,48%.
Ora, como os impostos directos (IRS e IRC) caíram 18 milhões (menos 8%), o que é uma excelente notícia para dar ao eleitorado distraído, vai-se buscar o que é preciso aos impostos indirectos, desde logo para pagar o tal aumento das despesas com pessoal.
Não admira, por isso, que o preço dos combustíveis esteja, há muito tempo, acima do preço praticado nalgumas estações do Continente.
A opção é legítima e é puramente política.
O critério é que pode ser discutível, porquanto há uma enorme necessidade de muitos investimentos públicos nas várias ilhas, alguns mesmos urgentes, que estão a ficar para trás.
Estes sim, criadores de riqueza e de emprego.
Mas a opção, como se vê, é alimentar uma regra básica do eleitoralismo: nenhum partido ganha eleições se não tiver a função pública na mão.
A campanha eleitoral está em marcha.
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DOENÇAS SEM CURA – E um dos investimentos públicos prementes é a criação de melhores acessibilidades para as ilhas que mais estão a crescer na área do turismo e desembarque de passageiros, com a ilha do Pico na liderança.
Tal como o respectivo aeroporto já deveria ter sido ampliado, também o maior porto dos Açores já deveria ter sido aumentado, modernizado e com abastecimento para gás natural, como já acontece na Madeira e nos principais portos continentais.
Em vez de distribuir dinheiro apenas para uma classe profissional, esquecendo até os mais idosos e mais necessitados, ao menos se invista na área da Saúde, que é outro caos por estas ilhas fora, sem acesso a especialidades e aos mais elementares cuidados médicos.
Até na Terceira já não há Neurocirurgia e em S. Miguel, como bem disse, no Correio dos Açores, o Director do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Ponta Delgada, o médico Cidálio Cruz, “houve uma regressão”, estando “moribunda”, porque “o poder político não teve o conhecimento e a visão para a deixar crescer”.
É este o retrato da nossa triste saúde.

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E NINGUÉM VAI PRESO? – A imprensa lisboeta anda a publicar a lista dos ‘caloteiros’ da Caixa Geral de Depósitos.
A coisa é simples de explicar: a Caixa teve perdas de quase 1.200 milhões de euros, entre 2000 e 2015, com a concessão de 46 financiamentos a empresas e empresários deste país, todos conhecidos pelo seu envolvimento com o poder de então.
As administrações do banco foram concedendo os créditos sem obedecer a nenhuma regra, ignorando mesmo pareceres contrários, porque não apresentavam garantias nestes negócios de vão de escada.
E muitos destes créditos, certamente, terão sido concedidos por ‘ordens de cima’, dos políticos com poder.
Agora somos nós, contribuintes, que nos sacrificamos para salvar a gestão ruinosa desta gente.
E ninguém vai preso!

Janeiro 2019
Osvaldo Cabral