Caro Senhor Presidente da República,

Na próxima sexta-feira à noite, na RTP-Açores, os jornalistas destas ilhas vão retomar o programa televisivo “Conselho de Redacção”, um espaço de comentário e análise em que participam os jornalistas açorianos, nomeadamente os responsáveis editoriais, que também moderam.

Se V. Exa. estiver em reunião, não nos importamos que a interrompa para nos poder ligar e desejar felicidades!

Claro que não o fará. Fê-lo apenas para a Cristina, porque é sua amiga.

Mas, Senhor Presidente, para a próxima poupe-nos a esta peça de teatro e ligue quando o programa terminar, sob pena de ter agora que telefonar, em directo, para tudo o que é programas de donas de casa e reformados, a quem as nossas TVs dedicam as manhãs.

Percebe-se a sua intenção. Vem na esteira da sua actuação, em estar forçosamente e afectuosamente em todo o lado, tornando-se no Presidente mais omnipresente da nossa democracia.

Mas há coisas que, por tão forçadas ou marteladas, tornam-se no ridículo.

Não foi para isso que os portugueses o elegeram.

Dedique-se mais aos inúmeros problemas que estão a afectar todos os portugueses, especialmente os mais desfavorecidos.

Dispensamos esses telefonemas piegas e apreciamos mais as suas intervenções quando é para pôr o governo na ordem ou para chamar a atenção, como fez na mensagem natalícia, para a credibilidade dos nossos políticos, que anda nas ruas da amargura.

A bem da verdade, nós, jornalistas, aqui nos Açores, também dispensamos o seu telefonema para o tal programa de sexta-feira à noite, preferindo que use o mesmo expediente para ligar, por exemplo, aos responsáveis dos CTT neste país e colocar aquela empresa na ordem, que anda desorganizadíssima aqui nas ilhas, fazendo a distribuição postal como se estivéssemos todos à distância da China, prejudicando inclusivé, muito seriamente, as empresas jornalísticas desta região.

O Senhor Presidente, que já foi jornalista, sabe o que é receber em casa à sexta-feira todos os jornais acumulados da semana?

Pois isto acontece cá, para não falar das encomendas e cartas dos cidadãos, que chegam com semanas e meses de atraso.

Faça os telefonemas que entender Senhor Presidente, mas ponha essa gente a mexer-se, como fez na cerimónia dos Prémios Gazeta 2017, em que manifestou publicamente a sua preocupação pelo que considerou ser uma “situação de emergência da comunicação social em Portugal” o problema do jornalismo e do porte pago da imprensa regional.

Num ambiente tão difícil de gerir, como o que atravessam as empresas de comunicação social, sobretudo a imprensa tradicional, o Estado tem mesmo que intervir, porque, como muito bem disse V. Exa., é uma questão que “de ano para ano vai sendo cada vez mais grave”, alertando que esta realidade está “a criar problemas já democráticos, problemas de regime”.

Quando diz que vivemos um “período dramático da crise profunda da comunicação social em Portugal e, portanto, da liberdade em Portugal e, portanto, da democracia em Portugal”, tem toda a razão, mas parte do problema é por culpa dos políticos e das instituições, que fazem leis estapafúrdias para só complicar as nossas vidas.

Foi bom ouvir a sua mensagem de esperança aos que suportam as dificuldades actuais da comunicação social, porque “este tempo é um tempo de resistência. Vão ter que resistir para poder vencer. Eu vou ver o que posso fazer para ajudar nessa resistência”, porque, como também diz, “vale a pena resistir, pelo jornalismo, pela liberdade, pela democracia em Portugal”, sugerindo a intervenção através de “pequenas medidas”, como o reforço do “porte pago, por exemplo”.

Ora aí está Senhor Presidente, não perca tempo com os programas televisivos das manhãs, pegue no telefone e ligue às pessoas certas para resolver o que é preciso resolver neste país.

Bom ano… e bons afectos!

Janeiro 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milénio Stadium Toronto)

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