UMA DÉCADA PARA PRIVATIZAR

Não há nada como revisitar a História política recente para compreender certos mistérios que assolam a nossa santa terrinha.
Numa célebre manhã radiosa de Maio de 2007, o então Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, recebia no Palácio de Santana o Primeiro-Ministro de Cabo Verde, especulando-se que os dois arquipélagos, entre outros assuntos na agenda, poderiam encontrar um entendimento entre as suas duas companhias de aviação: a SATA e a TACV.
No final, Carlos César anunciou: “Já estamos a trabalhar com vista à privatização parcial da SATA, na legislatura que se inicia em 2008”.
E o governante explicava as razões: “A SATA precisa de ser insuflada com novas energias e capitais privados”.
Passou-se uma década e a tal privatização parcial da SATA é aquilo que se sabe…
Há três anos, Vasco Cordeiro, numa outra tarde radiosa para os mesmos lados de Santana, recebia “um grupo de investidores europeus e árabes que tencionam concretizar negócios nos sectores do turismo e exportação”.
Destes investidores – à semelhança de outros que vêm cá, de vez em quando, provar o cozido das Furnas e desaparecem sem deixar mais rasto – nunca mais ouvimos falar.
Mas Vasco Cordeiro anunciou à saída da reunião que o facto de haver empresários interessados nas privatizações, nomeadamente os que as tinham defendido num encontro acabado de promover pela Câmara do Comércio, era “um reconhecimento do mérito do trabalho” desenvolvido pelo seu executivo nas empresas intervencionadas.
“Acho que é razoável partirmos do pressuposto que se há essas afirmações é porque essas empresas são apetecíveis para o sector privado. Se partirmos desse pressuposto, isso só pode constituir também um reconhecimento do mérito do trabalho que o Governo Regional desenvolveu nessas empresas”, acrescentou, então, Vasco Cordeiro.
Passamos três anos, nem investidores, nem privatizações, apesar do “mérito do trabalho” auto-elogiado pelo Presidente do Governo.
Em Junho deste ano, o Governo Regional anuncia nova investida nas privatizações, com uma resolução em que classifica o processo de “reforma, que se pretende ampla”.
Das duas dezenas de empresas a extinguir, a fundir ou a ceder, apenas 3 já têm o processo concluído: a Espada Pescas, a Campanha e a ENTA (as mais fáceis).
As restantes vão-se arrastando. E o caso mais bicudo, o da SATA, vai de novo para as calendas gregas.
O problema é que já vamos entrar em Dezembro e o governo prometeu, na tal resolução aprovada em Conselho, que “a reestruturação pretende-se célere, prevendo-se que no decurso do corrente ano de 2018 sejam realizados os procedimentos de alienação/extinção, com exceção da extinção da Saudaçor – Sociedade Gestora de Recursos e Equipamentos da Saúde dos Açores, S.A., cuja produção de efeitos ocorrerá até final de 2019”.
Se se pretende “célere” em apenas um mês, que é o que falta para acabar o ano, então vai ter de correr muito.
Ora, se em 10 anos não conseguiram privatizar parcialmente a SATA, o que é que vão fazer num mês?
O calendário e as previsões deste governo são muito diferentes do calendário real em que nós, contribuintes, vivemos… e gememos.

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FIM DA BANDALHEIRA? – Finalmente, sete meses depois (eu bem digo que o calendário dos políticos não é igual ao nosso), a Assembleia da República já tem um parecer sobre as viagens dos deputados dos Açores e da Madeira, que estavam a pôr ao bolso as ajudas de custo e o subsídio de mobilidade. Uma alegria!
Agora vão ter de pagar as viagens mediante apresentação de factura.
Uma década para privatizar
Mas atenção: a proposta ainda vai a conferência de líderes e de- pois a votação.
Querem ver que vão utilizar outra vez o calendário deles?

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CUNHAS E PADRINHOS – Todos os dias ouvimos histórias de cunhas e apadrinhamentos para aceder a empregos na administração pública regional. Já não é nada de anormal nestas ilhas, onde antes se andava de chapéu na mão, mas agora é com o cartão na mão.
A última que uma família nos veio contar é assim: a Unidade de Saúde da Ilha Terceira publicou no portal uma oferta de ‘Estagiar L’ em Ciências de Nutrição, com o prazo a decorrer até 30 de Novembro.
Uma candidata de S. Miguel enviou a respectiva candidatura e com um currículo de fazer inveja a qualquer um.
Passada apenas uma hora, a candidata é informada, pelo telefone, que a vaga já estava ocupada, ao que parece por alguém que já lá estava a estagiar.
Mais ‘transparente’ do que isso?
Nem deixaram terminar o prazo das candidaturas. Desta vez o calendário correu depressa!

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AFINAL, QUEM DECIDE? – O Governo Regional prometeu que o lançamento de foguetões em Santa Maria só será decidido depois de se ponderar os prós e contras, sem nunca marginalizar a população mariense e açoriana.
O ministro da Ciência, Manuel Heitor, sem dar cavaco a ninguém, anda a dar entrevistas por tudo o que é sítio, a anunciar que “vamos tornar Santa Maria numa ilha 100% espacial”!
O governante da república já dá como certo o lançamento dos foguetões, a instalação naquela ilha de cientistas estrangeiros e outras iniciativas, sem esclarecer quem lhe deu autorização para isso.
Ou será que Santa Maria já não pertence aos Açores?
O silêncio do Governo Regional é sintomático.
Vai manter-se também caladinho quando forem eles a decidir quem manda no nosso mar…

 

Osvaldo José Cabral

(Diário dos Açores de 28/11/2018)

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