Sr. Presidente, isto está a bater no fundo!

Sr. Presidente, isto está a bater no fundo!

14 de Novembro, 2018 0 Por Azores Today

O desfecho da privatização dos 49% da Azores Airlines poderá ter sido a última gota.
É claro e notório que se está gerar em todo o arquipélago um sentimento de profundo descontentamento com este governo, que ainda não acertou uma na área dos transportes – marítimos ou aéreos -, mas também nos outros sectores de investimento público, onde as opções têm sido claramente desastrosas.
Estamos a enterrar, de ano para ano, milhões de oportunidades que fariam a vida dos açorianos muito mais facilitada e com um futuro muito mais promitente.
Pondo de lado os objectivos partidários do Governo da República, a verdade é que lá fora vamos vendo o aproveitamento favorável da conjuntura para aliviar a bolsa dos portugueses e facilitar outros aspectos da vida do dia a dia, como a agora prometida redução das tarifas dos transportes públicos, redução de propinas, investimentos em aeroportos e portos.
Por cá, a conjuntura é destinada apenas às empresas públicas, que somam prejuízos de milhões atrás de milhões, decisões desastradas como aconteceu na SATA e nos transportes marítimos, algumas destas empresas investigadas pelo Ministério Público, aviões da SATA entregues a um banco, o aumento do desemprego quando em todas as regiões está a diminuir e um mal estar nunca visto nos sectores da Saúde e da Educação.
É incrível como o actual governo regional faz investimento deitado ao lixo, como aquele da construção de um ‘bunker’ para tratamentos de radioterapia na ilha Terceira, para agora chegar à conclusão que não é suficientemente rentável para funcionar.
Todos os meses o ritmo é frenético. Vão aparecendo em catadupa casos e mais casos como resultado da incompetência e incúria de tanta governação, cujos estragos vão sendo minimizados com muita propaganda tresandando a podridão.
Já no triste episódio do inquérito ao desvio do helicóptero para beneficiar parentes e a actuação do responsável da Saúde, ficou claro que não há autoridade neste governo.
Ou melhor, ficou claro que há outros poderes que se atravessam na liderança, enfraquecendo-a aos olhos dos cidadãos.
A reacção simplória à fuga de informação sobre o caso da privatização da SATA, como se fosse um caso de regime, é mais um momento demonstrativo do mundo irreal onde alguns políticos vivem.
Quem se der ao trabalho de ler aquela documentação, constatará facilmente que não há ali nenhum motivo que justifique qualquer confidencialidade.
O que vem lá sobre a SATA, toda a gente sabe.
E o que respeita à Icelandair ia ser sabido.
Transformar isso num caso de polícia é desviar o foco do problema. E o problema é a situação da SATA, que vem sendo gerida pelo governo com muita incompetência.
Isto sim, merecia ser investigado pelo Ministério Público, para sabermos até que ponto o património público foi arruinado e quem foram os responsáveis.
Caso de polícia foi o negócio da SINAGA, agora revelado pelo “Diário dos Açores”.
Os documentos revelados pela comunicação social não têm nada que ser confidenciais só porque o governo não os quer divulgar por serem inconvenientes politicamente.
Os trabalhos da Comissão de Inquérito foram todos públicos e a informação da comissão também deve ser quando não colida com a acção da justiça.
O que se descobriu é que governo e a SATA, durante mais de dois meses, nada decidiram sobre um assunto óbvio: a Icelandair não tinha apresentado nenhuma proposta vinculativa e as condições que avançou eram irrealizáveis.
Quem é que vai preparar, agora, o novo processo já que o anterior foi uma barracada? Os mesmos? Com um caderno de encargos igual?
Estão preocupados com um documento que veio à praça pública, mas ninguém se preocupa com os mais de 10 mil açorianos que se arrastam nos hospitais desta região à procura de uma consulta ou de uma cirurgia como quem procura agulha num palheiro.
Ninguém se preocupa com as inúmeras famílias que, no dia a dia, fazem os maiores malabarismos para dar de comer aos filhos.
Ninguém se preocupa com as famílias por estas ilhas fora que não sabem o que fazer com os seus velhinhos, pais ou avós, ou aqueles que não conseguem arranjar emprego para os filhos, para no fim ainda terem de fazer contas ao pagamento da água, luz e gás, enquanto assistem ao engordar de uma casta política de mérito duvidoso, com lugares garantidos em tudo o que é público.
Ninguém se preocupa com professores desmotivados, porque enganados pelo poder, enquanto o governo se dispensa da nossa Autonomia Administrativa para esperar agrilhoado pela decisão dos parceiros de Lisboa.
Se é este o critério, então é bem provável que vamos esperar pela decisão de Lisboa em relação ao domínio do nosso mar e de tudo o que nos rodeia.
É bem capaz de um dia já nem precisarmos de governo próprio e voltarmos ao antigamente…
Este governo está muito distante dos cidadãos e é incapaz de fazer uma leitura realista da vida das pessoas.
Quando a estatística não convém, arranja outras comparações para se enganar a si próprio.
É incapaz de anteceder problemas, revelando uma penosa lentidão em actuar e muito ausente de autoridade e humildade.
São demasiados erros sistemáticos, numa incapacidade de dar bons exemplos nas inúmeras sucessões de casos.
Na economia, mesmo com os sinais positivos do turismo, estamos cada vez mais distantes dos outros, que crescem mais depressa do que nós, com menos solavancos económicos e sem apresentar o crescente nível de endividamento, como vai acontecer mais uma vez no próximo orçamento regional.
Por cá parece haver apenas uma cultura de desenvolver empresas falidas e ainda pagar senhas de presença a gestores, enquanto os fornecedores vão gemendo, e nós, os consumidores, vamos sendo mal servidos e com o peso na consciência de que os nossos filhos e netos terão uma herança pesadíssima para pagar.
Não sei se é possível bater mais no fundo.

Novembro 2018
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milenio Stadium Toronto)