Opinar, julgar e condenar

Opinar, julgar e condenar

1 de Outubro, 2018 0 Por Azores Today

Opinar, julgar e condenar são três coisas muito diferentes, cada uma delas com a sua importância, mas, infelizmente, muito misturadas na sociedade mediática que se criou e com a qual temos de viver. Opinar é direito de todos. A liberdade de opinião constitui um dos mais importantes pilares de uma sociedade evoluída e aberta. Já o julgar não é direito de todos. Antes pelo contrário, compete às instâncias e a quem tem por dever estudar, analisar e sopesar os diversos ângulos de uma questão para que, depois, apareça quem deve condenar ou absolver… Pode parecer tudo muito linear, mas não é e todos sabemos hoje como anda a Justiça, entre nós, em Portugal e no Mundo.
E é precisamente pelo descrédito da Justiça e por nos termos tornado (quase) todos em “justiceiros implacáveis” que estamos a viver uma das maiores ondas de crispação de todos os tempos. Parece que o “cada cavadela cada minhoca” tomou conta da sociedade, em que todos, nas redes sociais e no que transborda para a vida real, se tornam juízes condenadores dos comportamentos alheios e absolvedores dos nossos próprios comportamentos. Quem acompanha com atenção as redes sociais verifica, salvo honrosas excepções, que quem “posta” ou “comenta” é sempre irrepreensivelmente impoluto e de olho atento à corrupção, compadrio ou malvadez de (quase) todos os restantes.
Não vamos longe por este caminho e é importante que se diga que o valor de uma opinião mede-se, essencialmente, pela maneira como é exposta. Nenhum advogado de acusação verte sentença condenatória, nem nenhum advogado de defesa absolve o seu constituinte. Isto compete ao Juiz ou aos Jurados. Mas a sociedade acostumou-se tanto aos julgamentos na praça pública que se torna legítimo perguntar para que servem os tribunais.
Com centenas de partilhas nas redes sociais, com milhares de comentários, tornou-se viral um vídeo de um jovem filmado a danificar uma viatura na via pública. Uma cena que pensaríamos impossível há muito pouco tempo. Não o vandalismo que, infelizmente, sempre existiu, mas a forma como é perpetrado, filmado e divulgado. Perante este facto, todos temos direito à nossa opinião, mas a esse direito corresponde o dever de aguardar que a Justiça faça o seu papel e que as instituições, em colaboração com a família, tomem as medidas adequadas. O que faz com que o autor do hediondo vandalismo já esteja condenado e marcado perante toda a sociedade que o conhece e, abstratamente, pela sociedade em geral?
A única resposta é precisamente o facto de haver quem filmou e divulgou. E aqui não estamos dizer se fez bem ou se fez mal. Constatamos um facto. E este facto leva-nos ao degrau seguinte que é a morte da moral e da consciência, em nome do princípio de que uma acção qualquer só passa a ser crime quando o seu autor é apanhado, ou seja, o poder fazer e o não dever fazer são tábua rasa, desde que não se seja descoberto.
Enquanto na Justiça dos Tribunais há acusação e defesa, enquanto na comunicação social dita tradicional há um apertado código deontológico e detalhado enquadramento legal que obriga a ouvir todas as partes envolvidas (não estamos a dizer que seja sempre cumprido), os julgamentos de praça pública fazem-se sem qualquer escrúpulo, muitas vezes pela via do anonimato que não busca a Justiça em si, mas a destruição da honra e imagem de pessoas e/ou instituições.
Parece que a onda anarquista que se assume como julgadora de tudo e de todos apenas pretende a destruição para, sobre terra queimada ou desértica”, implantar a nova civilização do amoralismo e do hedonismo sem limites e sem fronteiras.
Opinar é um direito; julgar e condenar têm instâncias que se devem respeitar e dar ao respeito. Mal iremos se a praça pública for lugar de condenação. O pelourinho que aos outros hoje destinamos, amanhã pode ser o nosso lugar de sermos executados. Sem defesa!

Santos Narciso