Falidos, mas sonhando com o espaço!

Falidos, mas sonhando com o espaço!

26 de Setembro, 2018 Não Por Azores Today

EM FORÇA PARA O ESPAÇO – Desde que o segundo governo de Vasco Cordeiro tomou posse, já tivemos de tudo.
Primeiro era o mar, agora é o espaço.
Com os cofres vazios, a nossa região anda numa roda viva de anúncios sobre investimentos do arco da velha que nunca se concretizam.
Lembram-se do famoso Air Center? E da enorme cimeira com vistosas comitivas estrangeiras, que só num repasto na ilha Terceira custou mais de 100 mil euros?
O que é que resultou mais de um ano depois?
Um gabinete, uma secretária e um computador.
Uma “sede simbólica”, segundo o cândido Secretário Regional do Mar e do Espaço, que carregou na sua bagagem um super-computador do Brasil para a Universidade do Minho, à custa do tal Air Center.
Agora é o espaço.
Santa Maria que se prepare para mais um gabinete, uma secretária, um computador e uma antena gigantesca para impressionar…
Nunca se viu tamanha desorientação num governo.
Não há estratégia consistente e já ninguém acredita na boa nova do “novo ciclo”.
As ilhas por aí acima estão a definhar e tanta gente a penar por uma consulta ou uma intervenção cirúrgica.
E eles preocupados se há vida em Marte.

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EM FORÇA PARA O MAR – Faz hoje exactamente três anos que Vasco Cordeiro foi a Bruxelas, a uma reunião sobre aquilo que era a “nova aposta açoriana”: o ‘crescimento azul’, como lhe chamaram.
O Presidente do Governo anunciou então que a região tinha disponíveis 280 milhões de euros – leram bem, 280 milhões de euros – “para as actividades marítimas nos Açores entre 2014 e 2020”.
Um excelente bolo “para o desenvolvimento dos Açores, desde as pescas, o turismo, a biotecnologia, a sustentabilidade ambiental, a investigação, a logística, os portos ou o reforço do papel do arquipélago como plataforma intercontinental e transatlântica entre a Europa e a América do Norte”.
Uma Bíblia de intenções.
Três anos depois os 280 milhões esfumaram-se no encerramento da Espada Pescas, na falida Santa Catarina e na ruinosa Lotaçor.
O jeito que isto dava para pagar os calotes do governo a imensos fornecedores desta região, que vivem com as calças na mão.
Talvez vejam as facturas saldadas um dia destes, com o dinheiro que há-de cair do espaço…

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EM FORÇA PARA O ABISMO – O único governante – e o que tem mais longevidade neste país e arredores – que é coerente no seu discurso é Sérgio Ávila.
Acusavam Álvaro Cunhal de utilizar sempre a mesma cassete, mas ninguém bate a coerência verbal do nosso Vice-Presidente, que vive sempre no mesmo mundo da região “sólida”, “robusta” e sem nenhum problema de finanças.
O mundo das nuvens, do espaço, o que conjuga com o novo ciclo.
A ‘troika’, que veio porque as finanças públicas estavam caóticas e a confusão no funcionamento da economia era generalizado, levando ao seu declínio por falta de competitividade, bem nos avisou que se diminuísse o peso do sector público e que se gastasse apenas o que se podia pagar imediatamente.
Nos Açores fizemos tudo ao contrário nestes últimos anos: o peso do sector público aumentou; a liberalização resumiu-se aos transportes aéreos, só para algumas ilhas, pese embora os evidentes benefícios; a alienação de empresas públicas não tem sido mais do que uma trapalhada sem resultados; o orçamento não pára de crescer; os impostos não param de subir com as propaladas reduções em IRS imediatamente engolidas por maiores aumentos em sede de IVA; e os empregos que se vão criando são à custa de trabalho precário ou então no sector público, que não pára de engrossar.
Em 2018, segundo o Inquérito Trimestral ao Emprego (2º trimestre), temos praticamente o mesmo número de empregos (mais 733) do que em 2009 quando a crise começou em força.
Este valor global, no entanto, tem uma composição muito diferente.
Há menos cerca de 2 mil pessoas a trabalhar no sector primário (agricultura e pescas) e menos 15 mil na indústria, sendo quase 12 mil com origem na construção. Um cenário muito negativo.
No comércio, estamos praticamente ao mesmo nível do momento pré-crise (menos 733 trabalhadores).
Nas actividades mais ligadas ao turismo temos uma variação positiva nos transportes (1.330), no alojamento e restauração (2.893) e em actividades administrativas e serviços de apoio (1.718).
Estas áreas dão um saldo de 5.140 novos postos de trabalho, que não compensam os 15 mil perdidos.
A grande compensação vem do que aconteceu na Administração Pública (+3.633), na Educação (+1.712) e na Saúde (+5.300), para um total de 10.645 novos postos de trabalho públicos.
Conclusão: dois terços do ajustamento de recuperação foi feito com mais funcionários públicos (directos e indirectos); um orçamento maior; mais impostos a incidir sobre os contribuintes para pagar uma máquina pública cada vez maior e, seguramente, mais ineficiente.
Já para não falar do desastre financeiro que vai por aí nas empresas públicas, que vamos ter que pagar um dia.
Até lá, olhemos para o espaço, o novo ciclo, e rezemos aos santos…

Setembro 2018
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times (EUA), LusoPresse (Montreal), Milénio Stadium (Toronto)