O Congresso Helene

O Congresso Helene

18 de Setembro, 2018 Não Por Azores Today
O Congresso do PS foi uma espécie de Conselho de Governo alargado.
Uma cópia das visitas estatutárias às ilhas, onde nem faltou o anúncio da distribuição de… ambulâncias!
Foi um evento muito bem organizado, todo certinho, rigoroso na passadeira, cumpridor no desfile de oradores, mas, caramba!, nem uma voz crítica à actividade do PS no governo?
Percebeu-se a preocupação em deixar todo o palco para Vasco Cordeiro. E o líder cumpriu, com o tradicional discurso de uma lista de medidas que podiam ser incluídas num qualquer Conselho do Governo, algumas delas obviamente inexequíveis neste mandato.
Faltou consciência crítica neste congresso.
Varreu-se para longe do olho do furacão a quantidade de casos desastrosos neste mandato governamental, que ainda não foram superados.
O caso da SATA, cujo desastre é transversal, cá dentro e lá fora, com a péssima imagem que está a deixar dos Açores, é sintomático da incapacidade de enfrentar corajosamente os problemas mais presentes dos açorianos, já para não falar da desgraça que vai no sector da saúde.
Um governo que não consegue governar a SATA, como é que pode ter talento para governar uma região inteira?
O congresso até recebeu com aplausos a adesão ao partido de um dos principais responsáveis pela ruína da companhia aérea. Isto diz tudo da fraqueza de um partido, que dá sinais de esgotamento, nas ideias e nas pessoas, como se prova pela mini-remodelação governamental anunciada a seguir ao congresso.
Exactamente a meio do mandato, este congresso foi o ponto de partida para o novo ciclo eleitoral que vamos assistir até Outubro de 2020.
As medidas anunciadas são o exemplo do piscar de olho às três principais franjas do eleitorado açoriano, que estarão a fugir nas sondagens que vão chegando ao Palácio de Santana: os jovens, com a taxa de desemprego mais alta do país; as famílias da classe média, que não sabem onde colocar ou manter as crianças na creche; e os idosos, os tais que andam aos caídos nos lares ou que morrem à espera de uma cirurgia no nosso desmoronado Serviço Regional de Saúde.
Novidades foram as anunciadas por Vasco Cordeiro no célebre discurso do Dia dos Açores nas Lajes das Flores e que agora recuperou, mais uma vez, na sua moção.
Mas já lá vão três anos.
Recordam-se? Logo a seguir foi um autêntico frenesim de reuniões hoteleiras em Ponta Delgada com todos os partidos, para alterar tanta coisa óbvia no nosso sistema político.
Três anos depois, tudo na mesma.
Foi um congresso com muita coisa desadequada. Mesmo aquela homenagem a Mário Soares, apesar de justa, pareceu deslocada.
Se era para agradar a António Costa, agora que Vasco Cordeiro se rendeu à ‘geringonça’, a ausência do líder nacional foi muito significativa.
O PS deveria ter homenageado os seus fundadores nos Açores, sobretudo os falecidos, estes sim, os heróis de uma época em que ser socialista nos Açores era um acto de coragem.
Em resumo, o congresso foi bonito, mas em dia de furacão, comportou-se como o Helene: chegou cheio de expectativas, e acabou por se desvanecer no imenso Atlântico…

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A MINI-REMODELAÇÃO – Vasco Cordeiro é previsível nas suas remodelações.

A meio do mandato, substitui governantes que não mostram serviço.
Fê-lo no seu primeiro mandato, exactamente a meio, em 2014, só que em Julho, substituindo Secretários Regionais e “afinando” a estrutura governativa com novos departamentos.
Desta vez foi em Setembro, guardado cautelosamente para depois do Congresso do PS, mexendo apenas em Directores Regionais, que praticamente não existiam, e responsáveis por empresas públicas, alguns envolvidos em casos embaraçosos.
O problema desta remodelação está exactamente aí: é que haverá secretários regionais que se ‘machucaram’ nalguns destes casos, como o da Saúde, que está descredibilizado, ou outros que se apagaram, à semelhança dos seus Directores Regionais.
Vasco Cordeiro deveria ter procedido a uma remodelação mais profunda.
Com a equipa que dispõe, não vai conseguir dar a volta nesta segunda metade do mandato, porque na primeira metade alguns deles já demonstraram que são uma carta fora do baralho.
A não ser que a capacidade de recrutamento se tenha esgotado, o que é muito provável, a julgar pelo que se vai dizendo em surdina no interior do próprio partido.
Ficando-se apenas pelos ‘ajudantes’, esta remodelação é praticamente irrelevante.
O governo mantém-se como estava. Com pouca frescura.

 
 
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores de 19/09/2018)