Os Professores não mereciam!

Os Professores não mereciam!

17 de Setembro, 2018 Não Por Azores Today

Por Santos Narciso

Os professores não mereciam isto. E é cada vez mais perigoso o caminho que estamos a trilhar no sentido do “vale tudo”, na política e na competição social. Muito mal vamos nós se nos deixarmos levar e prender nesta onda do nivelar por baixo, do destruir por destruir e do “do ut des”!
As notícias, deduções e conclusões de um pretenso relatório sobre a comparação daquilo que ganham os professores em relação a outras profissões com habilitações ou currículos semelhantes, pela forma como foi “vendida” e pela “oportunidade” da sua divulgação, são, no mínimo, ofensivas, para não dizer humilhantes para uma classe profissional que deveria ser a “menina dos olhos” de toda a sociedade. De facto, cuidar (estamos a falar de saúde) e ensinar (estamos a falar de professores) são as pedras basilares de toda a actividade paga pelo Estado, ou seja, paga por nós. Ofender qualquer uma delas é não ter a noção do colapso que se pode originar para toda a sociedade e para o futuro.
Por irresponsabilidade política e sede de poder, o Partido Socialista instigado pelo “braço armado” da geringonça, prometeu o descongelamento das carreiras e a reposição de todas as regalias do funcionalismo público e, consequentemente, dos professores. Gerou expectativas. Não quis – porque não convinha – dizer que não havia dinheiro para reverter os cortes iniciados por outro Governo Socialista em 2009 e continuados no passismo austeritário. Os professores confiaram, como confiaram muitos outros funcionários públicos… Para alguns, foi fácil repor os cortes. Mas quando chegou a vez da “multidão”, viu-se que, afinal, a montanha de promessas tinha parido um rato.
E veio a luta, com os sindicatos a apertar e o governo a justificar-se e a adiar. Tudo normal em democracia e, talvez, tudo aceitável.
Inaceitável foi o passo seguinte, nascido de uma forma torpe e medonha de fazer política só própria de regimes ditatoriais: explora-se um estudo com a nítida e indisfarçada intenção de criar divisionismos e de colocar os professores na fácil e baixa comparação de quem gosta de “nivelar por baixo”, aproveitando números tirados do contexto e criando a imagem de um “el dorado” que não existe, desde os professores em início de carreira até aos que eventualmente pudessem atingir o topo da mesma carreira.
Os professores não mereciam isto. Pode discutir-se a possibilidade ou não de dar satisfação às reivindicações; pode discutir-se a forma de se fazerem ouvir, com sindicatos que demonstram tiques autistas e autoritários agindo consoante as marés e as forças políticas.
Mas, chegar ao ponto de derramar na praça pública o vaso do ódio que põe trabalhadores contra trabalhadores, destilando o veneno das diferenças salariais, como se o ideal fosse que todos ganhassem o salário mínimo nacional, é descer a um nível que poderá ter sérias consequências na nossa sociedade.
Agora foram os professores, mas amanhã serão outros que achem ou que tenham coragem para pedir a melhoria das suas condições, como foi o caso recente dos enfermeiros, dos técnicos de terapia e diagnóstico, dos médicos e muitos outros.
Já basta a sociedade odiar os políticos pelo que ganham e pela capacidade que têm de definir os seus próprios aumentos salariais. Se esta humilhação que os professores agora sofreram, por absurda hipótese pegasse de moda, estaríamos a criar uma sociedade para a qual não valeria a pena contribuir porque, afinal, a equidade seria substituída por um conceito de nivelamento igualitário, primeiro passo para o fim do estímulo e da diligência.
Mas, se calhar, é isto que se pretende: castigar os que trabalham para os tornar iguais aos parasitas que só contam viver com o dinheiro que não ganham.
Que haja força para dizer que o País não pode ser o pote mágico para satisfazer todos, mas que se respeite a luta e o sonho, que são degraus para um mundo melhor. Com os professores na conta!
Santos Narciso