“ TAPANDO RACHAS E BURACOS NA AMÉRICA…GRANDE TRABALHO ! ”

“ TAPANDO RACHAS E BURACOS NA AMÉRICA…GRANDE TRABALHO ! ”

15 de Agosto, 2018 Não Por Azores Today

Por Roberto Medeiros

À conversa com um emigrante numa barraca da Festa
“ TAPANDO RACHAS E BURACOS NA AMÉRICA…GRANDE TRABALHO ! ”
O que a Festa de Nossa Senhora dos Anjos tem de bom também é podermos rever amigos de infância. Este ano o meu antigo vizinho Arturinho, o filho do mestre Artur Sapateiro, veio às «festas» da nossa “Quirida” ! E, entre um copo ou três de cerveja e laranjadas, já não me lembro, tivemos uma conversa de “lembras-te disso?..e daquilo quando eras p’quinino…e, por aí adiante. Depois a conversa virou-se para a América, a terra onde ele foi parar, quando emigrou há mais de 30 anos.
– “Arturtinho, o que é que fazes na América?” 
– “Eu?…eu trabalho por todo o lado, mas não é em casas p’quininas, eu trabalho é sempre em grandes «boldins» em Boston, Newport e em outras cidades, you know ?”
– “ Mas, … e o que é o teu trabalho?”
– “O meu trabalho…é tapar «rachas» e «buracos» !”
– “ E, elas ainda te pagam por isso?”
– “Elas? Ê-me isso não é nada disso que tás a pensar. Eu trabalho n’oá companhia que bota “Shilrák” you know, para fazer as paredes. Quando montam as placas sempre ficam algumas rachas e buracos e eu vou atrás, boto a massa p’a tapar e a seguir vêm os pintores e dão o finís cons mexins…you know óre I mean?”
– “Sim, agora já entendi, assim faz sentido, o que disseste”, respondi-lhe. “E assim que chegaste à América, quando começaste a trabalhar eles não te perguntaram o que é que fazias em Água de Pau, antes de «embarcar» das ilhas, ?”
– “Óh yeah ! Isso fou logo a primeira cousa! Até quiserim saber o que é que meu pai fazia e tudo. Não sei p’ra quê, mas eu tive de d’zer, mas fou falcim porque o bossa falava um poucoxim de português.”
– “E depois…o que foi que lhe disseste?”
– Disse a verdade… que meu pai trabalhava in’couro e até com sola!”
– “C’mé? Disseste isso ao teu bossa?”
– “Claro, meu pai não era sapateiro?… com que é que ele fazia os sapatos, não era com couro e solas?”
-“Ah pois, tá-certo! E o que foi que o teu bossa disse?”
– “F’cou muito confuso e chamou o bossa p’quinino que falava melhor português e ele é que lhe explicou o que era a profissão de meu pai. Aquela gente, «arguns» americanos, you know (?) às vezes são de compreensão lenta!
— “Só não percebo é como o teu bossa decidiu dar-te o trabalho sem nunca teres alguma vez trabalhado naquilo aqui na ilha?”
— No problema, my friend….naquele país, é tudo rár-o-way! Num dia eu aprendi a tapar rachas e buracos e desde aquele tempo ainda continuo a tapar rachas e buracos pá-queles boldins …p’la-América-á-fora!”

RoberTo MedeirOs – conta a história da sua comunidade pauense por todo o mundo, aonde for parar.