Na Lagoa Expira-se Cultura

Na Lagoa Expira-se Cultura

14 de Agosto, 2018 Não Por Azores Today

À semelhança do que já aconteceu há poucas semanas com o Caloura Blues, a Câmara da Lagoa presenteia os lagoenses com mais um evento a pensar nos artistas de fora. Ainda assim cabem alguns de São Miguel, ao contrário do evento passado, mas outros virão de terras estranhas, recebendo contrapartidas financeiras em montantes que pagariam várias atuações dos artistas locais. Os artistas da Lagoa continuam a ser os filhos bastardos desta desinspirada politica cultural (ou ausência total dela) no concelho. Não se compreende.

Infelizmente, são cada vez menos os grupos culturais na Lagoa. Aos poucos vão desaparecendo ou minguando a sua atividade, baixando a autoestima coletiva. Numa lógica que ultrapassa a racionalidade, vemos cada vez mais uma ambição de protagonismo em ter artistas estrangeiros sem sequer se perceber quem são, o que tocam, quem os quer ouvir.

O que deveria ser uma politica cultural abrangente e direccionada à população transformou-se num pequeno clube pseudoelitista que apenas posa para a fotografia, mas com um custo elevadíssimo para os cofres públicos. É a pura arrogância politica a falar por si.

Enquanto musico, agente cultural e social, sinto-me atropelado em todo o meu trabalho e dos meus colegas, que de forma gratuita, voluntária e descomprometida, vamos dando à nossa terra, e que apenas recebemos em troca o despreza e a ignorância. Tal como sempre dissemos e voltamos a repetir, não precisamos de subsídios, precisamos sim de trabalhar e de auferir a contrapartida financeira, que mesmo sendo pequena, é digna, legitima e fruto de anos de trabalho e esforço, mantendo assim continua toda uma atividade cultural sem amarras ao poder politico.

Bem meus amigos, lamentar a ausência de algo que já existiu é sempre o nosso fado por cá, fruto de vistas estreitas, ouvidos tapados e cérebros adormecidos pelo deslumbramento dos lugares ocupados. E que nunca se esqueçam que todo o poder é emprestado, e que, mais cedo ou mais tarde, acaba por ceder. Só se espera que até lá não fique uma destruição total pelo caminho.

Diz o povo e diz bem “Quem não sabe mexer, não mexe!” ou seja, quem não percebe nada disto o melhor é meter-se em casa a fazer outras coisas que não estraguem o pouco que temos ainda.

Felizmente, para alguns de nós, o nosso valor é reconhecido noutras localidades destes Açores, o que nos vai permitindo algum ânimo em continuar uma tarefa que é cada vez mais árdua e difícil de executar. Realmente os santos da casa nunca fizeram milagres.

 

José Pacheco