A cultura na Lagoa ou o rei vai nu

Por José Pacheco

Pasmei-me ao ler a noticia que o Caloura Blues tinha sido um sucesso. Fiquei para aqui a interrogar-me que raio de sucesso falavam, até mesmo pelo feedback que tenho recebido e lido, por aqui e por ali, pelas fotos que vi. À semelhança do que já tinha acontecido com o Lagoa Convida, o Caloura Blues foi um fracasso descarado e ofensivo à cultura lagoense e uma má utilização de dinheiros públicos.

Ora vejamos, um festival que apenas copiou o que já existia; com um orçamento que se multiplicou inúmeras vezes, em relação ao que já havia sido feito; com uma afluência de publico fraca e supostamente, na sua maioria não pagante; com um estilo musical que a poucos agrada, protagonizado por bandas ou grupos de fora, é um sucesso em quê? O sucesso das vaidades? da incompetência? Da falta de visão do que é a cultura num concelho? O sucesso em cilindrar a nossa cultura, as nossas organizações e as nossas freguesias, despojando-as das ferramentas necessárias a produzir de forma autónoma a verdadeira cultura?

Na Lagoa já pouco estanho neste e noutros âmbitos. Atiram-se “sacos de dinheiro” para cima das coisas e usam-se os lugares para caprichos pessoais ou, mais grave ainda, “vinganças” politicas simplesmente mesquinhas. Mas quando se age assim condena-se, a pouco e pouco, o que ainda vai sobrevivendo a muito custo, no panorama cultural lagoense.

Sucesso é trabalhar todos os dias sem sequer saber o que nos reserva o futuro cultural. Sucesso é impor regras e compromissos enquanto o mundo que nos rodeia nos oferece o laxismo e o facilitismo, muito bem regado com o dinheiro de nós todos. Sucesso é olhar nos olhos de um jovem e ter coragem de lhe exigir rigor e compromisso. Sucesso é a coragem de ter os melhores e não uma multidão de desanimados ou pior, um bando de seguidores obedientes, tais cordeirinhos amestrados. Sucesso é não vender a nossa arte e dedicação a troco de trinta moedas.

Enquanto alguns se deslumbram do alto dos pedestais dourados, outros arregaçam as mangas e fazem o trabalho silencioso de contribuir, muito ou pouco, para que a sociedade que os rodeia seja melhor ou menos má. Especialmente, nos dias que correm, em que os jovens são cada vez mais aliciados ao individualismo e reféns de um mundo tecnológico e egoísta, é urgente acarinhar o pouco que ainda vai existindo de coletividades culturais e desportivas e não somente usar e abusar do sucesso de alguns como manto protetor da atividade governativa a que se propuseram e deveriam por em prática.

Enquanto agente dinamizador de cultura, e de quem anda nestas coisas de forma gratuita, sinto-me triste e ofendido com todas estas atitudes, com este desleixo, com esta arrogância desmedida, própria de ditaduras e não de uma suposta democracia em que deveríamos viver. Isto porque, quando não somos chamados a exercer a nossa atividade cultural sentimos que o nosso trabalho e esforço não é reconhecido, é o mesmo que dizer, que valeu de pouco para alguns, os mesmo que deveriam ser os primeiros a incentivar tudo isto.

Mas se acham que isto já é mau, esperem por setembro com o “Inspiral” que mais uma vez passa por cima dos grupos e organizações da Lagoa. Mais uma vez teremos os interesses de alguns colocados a frente dos interesses de todos. Mais uma vez irão emitir noticias de sucessos que só eles conseguem ver, mas que não passam de caros fracassos à custa dos lagoenses.

Se as pessoas fossem sérias na sua postura começavam por não mentir e demitiam-se das funções que exercem ou vamos todos continuar a dizer “o rei vai nu”!

 

José Pacheco

Foto: C. M. de Lagoa