Festejando a fantasia

Festejando a fantasia

3 de Julho, 2018 Não Por Azores Today

Terminou esta semana, finalmente, mais uma saga de delapidação dos dinheiros públicos.
O capricho de levar o “Gilberto Mariano” às festas das Sanjoaninas, sem necessidade nenhuma, mas para cumprir ordens partidárias, custou-nos a nós todos, contribuintes, umas boas centenas de milhares de euros.
A festarola terminou na segunda-feira com uma terceira viagem entre Angra e Calheta de S. Jorge, transportando 19 passageiros, que se juntam aos 3 transportados no dia 25 de Junho e mais 7 no dia 18 de Junho!
Ou seja, 29 passageiros para três viagens, não falando do enorme prejuízo que causou às ilhas do triângulo nos dias desta loucura.
Este é apenas um pequeno exemplo do modo como estão a ser geridos os dinheiros públicos nesta região.
É esta mesma empresa – a Atlânticoline – que recebe 1,6 milhões de euros de subsídios para as rotas anuais e mais 7,9 milhões para a operação sazonal, em que tudo somado resulta em 68% de subsídios e 32% de vendas.
Se adicionarmos a fantasia destes dias de festa, é caso para perguntar se vivemos numa região de luxos asiáticos e quem são os beneficiados por estes caprichos, que só em custos de pessoal ultrapassam os 2,5 milhões de euros.
São gestões ruinosas como esta que estão a arrastar os Açores para o limbo, não admirando que continuemos na cauda dos índices de desenvolvimento entre as 25 regiões do país.
Numa altura em que o sector da Educação revela os parcos apoios financeiros a que os governos dedicam, como se vê pela luta dos professores, é de questionar como se gastam tantos milhões em tanta coisa mal gerida e mal aproveitada, enquanto o futuro das nossas gerações fica sempre comprometido.
A dívida total do sector público administrativo regional continua em trajectória ascendente, tendo ultrapassado os 1,7 mil milhões de euros, dos quais mais de 1,5 mil milhões correspondem a dívida financeira.
Uma bela herança para filhos e netos, que vão ter de aguentar com 13 empresas públicas, todas falidas, e 62 serviços e fundos autónomos para sustentar.
E isto é apenas o que se conhece, porque, como diz o Tribunal de Contas, quando analisou a última Conta da Região, não é possível obter “prova suficiente e apropriada de modo a certificar a dívida total da Administração Pública directa e dos serviços e fundos autónomos”, o que diz bem do quanto estará por aí escondido, que um dia certamente iremos saber.
Todo este cenário dá razão a um estudo interessante do professor Tomás Dentinho, onde conclui que o desenvolvimento dos Açores tem sido condicionado por mau entendimento dos efeitos dos gastos públicos e por um conhecimento errado do funcionamento das economias regionais.
Com base num modelo que apresentou, o docente universitário revela que a dívida pública tem um forte impacto negativo no emprego, sugerindo, no coeficiente apresentado, que para cada 100 milhões de euros adicionais de dívida, 7.950 empregos são perdidos.
Tomás Dentinho faz a mesma pergunta que o comum dos cidadãos: “Por que razão o Governo Regional aumenta a dívida? Porque tende a defender os políticos e funcionários em vez do povo”.
Se a dívida, como sabemos, aumenta ao ritmo de 50 milhões por ano, imagine-se os empregos que estamos a perder…
Não fossem as transferências públicas e estaríamos a pedir esmola às instituições internacionais.
Elas desempenham, segundo o professor universitário, um grande papel no emprego, dando como exemplo de que um milhão de euros de transferências criam directamente 43,1 empregos, o que significa que uma redução de 100 milhões de euros implica uma perda de 4.310 empregos (as transferências públicas baixaram 150 milhões em 2014).
Quando as regras do equilíbrio orçamental não são respeitadas, como alerta o Tribunal de Contas em relação às nossas contas regionais, é mais do que certo que o caminho que estamos a traçar está todo errado.
Por alguma razão as empresas públicas estão a falir, os sectores sociais estão a definhar, os calotes públicos são cada vez maiores e as ilhas mais pequenas estão a desertificar.
Apenas uma elite política se vai mantendo à superfície neste mar tão ruim como o que navegou nestes dias o “Gilberto Mariano”.
Eis a exaltação da política irracional que prevalece sobre as pobres populações em estado de sobrevivência.
Reflictam bem neste Verão.
Esta crónica regressa em Setembro.
Boas férias… sem se endividarem.

Julho 2018
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milenio Stadium Toronto)