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Pedro Nascimento Cabral anuncia no 25 de Abril a sua candidatura à liderança do PSD/Açores

“Os partidos e os políticos têm de saber reinventar-se, garantindo uma efectiva representatividade do povo. Cada vez mais a sociedade exige que os políticos tenham competência e provas dadas ao longo da sua vida profissional e social. A lógica dos políticos que não fizeram mais nada sua vida e que se encontram dependentes da actividade política tem de acabar”

Correio dos Açores – Como recorda os primeiros anos do 25 de Abril?
Pedro Nascimento Cabral (Advogado) Como nasci no dia 19 de Julho de 1973, não tenho, naturalmente, recordações sobre esses primeiros anos. Só mais tarde, em conversas mantidas com os meus pais e pela leitura de livros e jornais sobre esta época da nossa História é que comecei a ter consciência da importância que o 25 de Abril tem para todos nós. A chegada da Liberdade ao nosso país representa o ponto de partida para a construção de uma nova sociedade, uma sociedade mais justa, firmada em princípios democráticos e de livre expressão do pensamento.

A partir de que altura da vida começou a seguir os acontecimentos políticos da Região?
Comecei a seguir os acontecimentos políticos da nossa Região muito novo. A minha mãe era professora e o meu pai exercia a profissão de jornalista na RDP/Açores, tendo acumulado estas funções, a partir de 1981, com a de Director do jornal Correio dos Açores. Mais tarde, em 1984, o meu pai, que tinha sido co-fundador do PSD/Açores, foi eleito deputado em representação deste partido, pelo círculo eleitoral da ilha de São Miguel, à Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Assim, devido a estas circunstâncias familiares, todas as questões ligadas à informação e à política sempre estiveram presentes na minha infância e juventude. Por influência directa dos meus pais ver o telejornal da RTP/Açores e ler os jornais diários eram actividades absolutamente normais em nossa casa, daí que tenha sido atraído muito jovem para os acontecimentos sociais e políticos dos Açores.

Como recorda a sociedade açoriana nas últimas décadas do século passado?
Recordo que existia uma grande preocupação pelo facto dos açorianos não se conhecerem entre si. O nosso povo, naturalmente disperso pelas nove Ilhas do arquipélago, tinha a necessidade de sentir que não estava isolado ou esquecido. Nesta medida, o Dr. João Bosco Mota Amaral teve a visão e o mérito de conseguir unir os Açores. A sua acção governativa de combate às profundas desigualdades sociais que se faziam sentir nas nossas Ilhas, com acessos muito díspares a cuidados primários de saúde, à educação, ao emprego, e com o forte investimento nas infra-estruturas portuárias e aeroportuárias, entre outros, criou um sentimento no nosso povo de que os Açores estavam unidos e que a melhoria da qualidade de vida da população açoriana era um objectivo primordial, independentemente da ilha em causa, na sequência da estratégia assumida do desenvolvimento harmónico da Região.

Solidificar actividade industrial
e criar novas indústrias

E como analisa as mudanças operadas em termos sociais, culturais e económicos nestas quase duas décadas do século XXI?
É obrigatório reconhecer que os Açores avançaram muito nestas últimas duas décadas, tendo acompanhado e beneficiado do surgimento das novas tecnologias. As novas tecnologias tiveram uma importância fundamental em todas as vertentes do desenvolvimento da nossa Região Autónoma. O surgimento da internet e da televisão por cabo, por exemplo, fez com que os Açorianos passassem a ter acesso ao que de mais importante sucedia no continente ou mesmo noutros países em tempo real, fosse na política, na cultura ou do ponto de vista das actividades económicas que se desenvolviam. É nesta época que se assiste a uma significativa diminuição do preço das passagens aéreas para o continente, fruto de uma acção política concertada dos então Presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César e Primeiro-ministro António Guterres, permitindo, assim, um aumento do fluxo de passageiros entre os Açores e Lisboa, que impulsionou o turismo e todos os serviços relacionados com esta actividade.
Do ponto de vista económico, a criação da Lei de Finanças Regionais originou uma importante estabilidade no relacionamento financeiro com a República, possibilitando ao Governo Regional planear com segurança os seus investimentos na nossa Região Autónoma, sobretudo na construção de infra-estruturas, com destaque para a rede de transportes terrestres. Entre muitos outros aspectos, estes que acabei de referir, a par com a recente decisão política de liberalização do espaço aéreo dos Açores, foram muito positivos para a evolução e melhoria significativa da qualidade de vida dos Açorianos.

Quais são os principais desafios que se colocam aos Açores para a próxima década?
Os desafios são muitos e enormes. Desde logo, combater a pobreza e melhorar os serviços de cuidados de saúde que devem ser prestados à nossa população. Temos a obrigação de investir significativamente na educação e na formação dos nossos jovens, uma vez que necessitamos de ter uma Região com níveis educacionais elevados que nos permita competir com os melhores em qualquer parte do mundo. No que diz respeito ao nosso modelo de desenvolvimento económico, estamos obrigados a organizar estratégias governativas que nos possibilite ampliar a excelência dos nossos produtos provenientes das mais diferentes áreas de actividade que praticamos, como na actividade agrícola, na pecuária, e encontrar novos mercados para a sua colocação. A protecção das nossas pescas e demais recursos marinhos é inquestionável. A quebra da sazonalidade da actividade turística. A protecção ambiental. A solidificação da actividade industrial existente e apoio à criação de novas indústrias. O aproveitamento da nossa localização geográfica nos mais diferentes campos. A aposta nas energias renováveis, entre tantas outras que se revelam fundamentais para o desenvolvimento dos Açores.

Como se deve ultrapassar os constrangimentos que o modelo de desenvolvimento social e económico sofre, mantendo desigualdades profundas na sociedade Açoriana, devido à pobreza e ao falhanço na educação?
Com novas estratégias de abordagem a estes problemas. É sabido que existe, em termos gerais, um nexo de causalidade entre a pobreza e o insucesso escolar. Daí que grande parte da acção governativa tenha que ser vocacionada para estes dois flagelos da nossa sociedade. Mas olhar para estes problemas (pobreza e falhanço da educação) não pode ser apenas mediante a atribuição de recursos financeiros como forma de os camuflar. Isto não é governar, mas antes calar a boca das pessoas por uns tempos. O que é preciso é consciencializar e acompanhar no terreno o modo como tais recursos são aplicados, mediante atitudes de pedagogia que se revelam fundamentais para a boa administração da economia doméstica da nossa população. A partir daqui, estão criadas as condições essenciais para que uma sociedade se passe a ocupar de outros patamares de desenvolvimento, apostando na inovação nas orientações que defendi na pergunta anterior.

O Turismo tem conseguido
“camuflar” a crise nos Açores

Considera que os políticos e os partidos em que militam estão preparados para enfrentar os novos desafios e combater as desigualdades sociais e económicas?
Os partidos e os políticos têm de saber reinventar-se, garantindo uma efectiva representatividade do Povo. Cada vez mais a sociedade exige que os políticos tenham competência e provas dadas ao longo da sua vida profissional e social. A lógica dos políticos que não fizeram mais nada sua vida e que se encontram dependentes da actividade política tem de acabar. Ora, em face do que acabei de referir, considero que há uma certa dificuldade dos políticos em perceber os problemas que atormentam as pessoas, dada a circunstância de muitos deles nunca terem tido uma vida profissional autónoma da política. Assim, se não se acerta no diagnóstico, nunca teremos um bom tratamento, uma boa resolução destas desigualdades. É preciso que os políticos sintam na pele os problemas que assolam o dia-a-dia das pessoas. Se não tiverem tido essa oportunidade, porque nunca saíram das cadeiras do poder, dificilmente estarão aptos para enfrentar estes novos desafios e combater as desigualdades da nossa sociedade.

Entende que a Região tem, neste momento, condições para haja alternância democrática?
Na sequência do que acabei de referir, considero que estamos a chegar a um limite deste actual modelo de governação. Estou convicto até que já ultrapassamos a exaustão no que concerne à gestão do Partido Socialista, que revela ser um partido esgotado. São praticamente 22 anos à frente dos destinos dos Açores. Neste momento, enquanto na generalidade dos países europeus, assistimos a sinais animadores e de recuperação económica, nos Açores, vemos o contrário. Os nossos sectores primários estão a definhar, quer a Agricultura, quer as Pescas, estão a passar por um momento de crise, não se vislumbrando quaisquer soluções por parte do actual governo para a ultrapassar. Assistimos ao desmantelamento e venda do nosso sector público empresarial regional. Portanto, o que sobra é o sector dos serviços, nomeadamente, o Turismo, que tem conseguido camuflar, em larga medida, esta crise que assola os sectores que acabei de referir. Eu não vejo os Açores nem os Açorianos como meros prestadores de serviços. Vejo a nossa Região e os Açorianos como responsáveis por produzir produtos de enorme qualidade, que nos distingam do resto do mundo e que sejam a nossa imagem de marca. O turismo é de facto uma fonte muito importante de rendimento e receitas, mas nunca poderemos ficar dependentes só de um sector, porque estaremos sempre subordinados a circunstâncias externas que não controlamos. Temos de ter orgulho na nossa terra, no que é nosso e no que é produzido por nós e isso voltará a acontecer. Retomando a sua questão, sim. Considero que há todas as condições para que o PSD/Açores volte a merecer a confiança dos Açorianos que estão cansados de um governo esgotado como é o governo do partido socialista que está no poder há quase 22 anos.

Portugal deve “tornar-se
num Estado Federal”

Os ciclos políticos têm sido equiparados aos ciclos geracionais o que tem como consequência a perda da memória e o desconhecimento do acervo histórico importante para garantir a identidade e o futuro das civilizações. Não acha que a sociedade do descartável e do imediatismo tem como consequência uma sociedade de sonâmbulos, sem referências do passado, focalizada no presente e sem perspectiva de futuro?
Sempre acompanhei a actividade política desenvolvida pelo PSD/Açores e habituei-me a ter como referências da social-democracia alguns nomes que, infelizmente, alguns tentaram apagar e nunca me conformei com esta atitude. A falta de memória é de facto o pior exercício que poderemos emprestar à Política, até porque a história tende a repetir-se e sem memória voltaremos a cometer os mesmos erros. Tenho defendido que devemos acabar com esta cisão, com este conflito intergeracional a que assistimos em alguns partidos, numa lógica de integração dos seus saberes, das suas experiências, dos seus contactos, das suas mais-valias, entre outros aspectos.
Não regressando ao passado, porque este passado já não volta, mas integrando-os, ouvindo-os e, acima de tudo, servindo como uma referência para as novas gerações e sendo sempre o garante da manutenção dos valores e ideais dos partidos. Os líderes passam, mas ficam os militantes do partido, que muitas vezes dão a cara e entram em lutas inglórias pelo amor à causa e à coisa pública. E estas pessoas jamais poderão ser esquecidas. A palavra-chave é saber integrar, trabalhar para que haja uma linha de continuidade, uma lógica coerente na vida do partido.

Como entende que evoluirá a Autonomia agora consagrada na Constituição e no Estatuto?
Entendo que Autonomia não é, nem pode ser estática. Ela é dinâmica, tal como são dinâmicas as sociedades e tem de reflectir a cada momento o sentir do Povo Açoriano. Neste momento, defendo que deve ser extinto o cargo de Representante da República para os Açores, passando as suas competências a ser exercidas pelo Presidente da República. Outro aspecto importante, prende-se com a clarificação do conceito de “gestão partilhada” do mar dos Açores, apenas para dar estes dois exemplos que considero ser muito importantes. Apenas acrescento que estou convencido que a própria evolução na nossa sociedade deverá ser determinante para que, a dado momento, o nosso País possa tornar-se num Estado Federal.

“Superiorizarmos no
quadro na União Europeia…”

Como deve a Região relacionar-se com Portugal, com a Europa e com a diáspora?
Os Açores representam uma enorme riqueza para o todo Nacional e são responsáveis por Portugal ter a 3ª maior Zona Económica Exclusiva da Europa e a 11ª do mundo. A economia azul, a economia verde, a promoção da biodiversidade, a sustentabilidade ambiental, a posição geoestratégica, as ligações que temos com o resto do mundo e principalmente com a nossa diáspora, entre outros aspectos, revelam claramente que somos um enorme activo que temos de aproveitar. No que concerne a Portugal, a Lei de Finanças Regionais veio estabilizar o relacionamento financeiro entre a República e a Região, o que é positivo, mas julgo que é importante irmos mais longe. A permissão da criação de partidos regionais, os problemas sobre o princípio da subsidiariedade, a gestão da exploração dos fundos marinhos, a clarificação de áreas de actuação que cabem ao Estado, para dar alguns exemplos, precisam de ser resolvidos num franco e aberto diálogo com a República de forma a podermos ultrapassar os entraves que os mesmos colocam ao nosso desenvolvimento. Paralelamente, há que fazer uma maior pedagogia sobre as autonomias regionais e o seu sucesso junto do país. Somos uma Região Autónoma, com órgãos de Governo próprios e não um distrito do país, com todo o respeito que me merecem os distritos.
Do mesmo modo, defendo a importância da nossa diáspora, com a presença de açorianos nos mais diversos países ocupando relevantes posições nas sociedades onde estão inseridos. No que se refere à Europa cumpre referir que o artigo 349.º do Tratado de Funcionamento da União Europeia salvaguarda e dá estatuto às Regiões Ultraperiféricas e defende que estas têm de ser compensadas pelos acrescidos custos de insularidade, não para temos uma vantagem competitiva em relação aos outros, mas acima de tudo para que possamos competir em igualdade de circunstâncias. Por via de tal facto, temos de encontrar a melhor forma de nos superiorizarmos no quadro na União Europeia.

Como gostaria que fosse no futuro a sociedade açoriana e que contributo está disponível para dar?
Quero uma sociedade instruída. A Educação é um pilar fundamental das sociedades evoluídas e informação é poder. Se tivermos uma sociedade instruída, teremos uma sociedade com poder, logo, não será dependente nem colocará os interesses de uma pequena parte à frente do todo. É este o meu principal desígnio: libertar a sociedade, não pela denúncia ou pelo poder económico, mas sim através de uma arma tão poderosa que jamais será quebrada: a Educação.
Quero uma sociedade mais justa, com igualdade de oportunidades para todos. Evoluída no seu pensamento e sustentável do ponto de vista económico. O meu contributo actual assenta no anúncio da minha candidatura à liderança do PSD/Açores, desafio que pretendo vencer para poder estar ao lado dos meus concidadãos na defesa do que entendo que deve ser o futuro dos Açores.

Fonte: Correio dos Açores