Deputados quinhentistas

Deputados quinhentistas

24 de Abril, 2018 Não Por Azores Today

Sabem quanto recebe, por dia, um doente açoriano que tenha de se deslocar da sua ilha para outro hospital?
Varia entre os 27,21 euros e os 45,35 euros, conforme a sua declaração de rendimentos.
Isto com o novo regulamento aprovado em 2015, porque no tempo dos governos de Carlos César era muito menos.
Agora, sabe quanto recebe, por dia, um deputado como Carlos César ou Berta Cabral para se deslocarem dos Açores para a Assembleia da República e vice-versa?
São 66,6 euros por dia, quase o dobro dos doentes.
Os tais 500 euros por semana (2 mil euros por mês) que dizem ser “legal e ético”.
“Legal” é sim senhor, pois foram eles, os deputados, que legislaram para si e não o fizeram por menos.
Agora “ético” é outra coisa, só se for derivado do grego ‘éthos’, que significa “costume”, “hábito”.
Como é ‘costume’, os políticos pensam muito em si e o ‘hábito’ faz o monge, neste caso 500 euros ao bolso, sem se dignarem questionar se é justo este subsídio, depois de ter sido alterado o regime de mobilidade aérea nas Regiões Autónomas.
É provável que antes de 2015 se justificasse, dada a exorbitância que se pagava em deslocações entre os Açores e Lisboa, mas a partir daquela data, com o novo modelo tarifário, em que o máximo são 134 euros, o que os senhores deputados deviam ter feito era questionar o próprio parlamento para rever aquele valor.
O quadro que aqui publicamos, para melhor compreensão do “esquema”, é bem ilustrativo de quanto os senhores deputados se aumentaram a partir do momento em que passaram a beneficiar do novo modelo de mobilidade: são mais 27% de aumento de rendimento líquido!
Os valores que apresentamos são uma média arredondada, com base no vencimento e subsídio atribuídos pela Assembleia da República, demonstrativos de como os parlamentares insulares viram o pecúlio aumentar repentinamente nas suas algibeiras e bem caladinhos nada questionaram.
A habilidade só desprestigia – ainda mais – a política e os políticos.
A defesa trapalhona do Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, e do Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, adensa ainda mais o descrédito junto dos cidadãos, que já não sabem em quem devem confiar neste país.
Como se defendem todos uns aos outros, é bem provável que as comissões parlamentares que vão analisar o caso, compostas por deputados, deixe ficar tudo na mesma.
Tudo isso diz bem da podridão que se vai vivendo na política portuguesa.
Tal e qual como na época quinhentista, em que, segundo os relatos, “a nobreza vivia de forma abastada, rodeada de luxo, boa alimentação bom vestuário, desfrutava de tudo, até por vezes, com alguns exageros”, enquanto que “o povo embora também tivesse direito de usufruir destes luxos não tinham posses económicas, contentavam-se com pouco e de fraca qualidade”.
Bem podem todos desfilar na Feira Quinhentista.
Não sei é se o Povo estará disponível para os aplaudir.

(Osvaldo Cabral / Diário dos Açores de 25/04/2018)