SENTADOS A VÊ-LOS PASSAR…

Todos os países com costa marítima, incluindo Portugal, estão a investir, há longos anos, nos seus portos, preparando-se para as novas estradas do futuro e para o brutal crescimento do transporte de mercadorias que as novas gerações de navios contentores proporcionam.
Os Açores, no meio do Atlântico, numa posição privilegiada e invejada por tantos países, nunca se preparou para nada e teima em não definir uma estratégia de forte aposta nos seus principais portos: o de Ponta Delgada e o da Praia da Vitória.
Para o porto terceirense, tanto se prometeu, tanto foguetório se fez, até invocando os milhões do Plano Junker, e agora já toda a gente percebeu que é mais um fiasco que enfiaram aos terceirenses, para equilibrar com o outro fiasco que foi o projectado cais de cruzeiros em Angra.
Ponta Delgada vai pelo mesmo caminho, o que não é surpresa nenhuma, pois o padrão da governação da última década é um autêntico afundanço em tudo o que está ligado ao mar: desde o resgatado sector das pescas, a transportes marítimos de passageiros e carga, portos esburacados, investigação científica, exploração do fundo do mar e por aí fora.
O porto de Ponta Delgada, que movimenta dois terços das mercadorias para esta região, teve a sua última grande intervenção no manto do molhe de protecção entre 1997 e 1999, depois dos estragos provocados pela tempestade de 25 de Dezembro de 1996.
Levaram um ano para actuar, mas avançou-se.
Curiosamente, novamente em Dezembro de 2016, o porto voltou a ser fustigado por uma tempestade.
Dois anos depois, o enorme rombo na cabeça do molhe ainda lá está, o que vem provar que a antiga Junta Autónoma agia com mais eficácia do que a actual desastrada Portos dos Açores.
A primeira fase das obras, anunciada faz agora exactamente 1 ano, tinha um prazo de execução de 12 meses e custaria 9 milhões de euros.
Um ano depois, está quase tudo na mesma.
Há quatro meses a Secretária dos Transportes visitou o porto de Ponta Delgada para anunciar “um grande investimento” (que afinal não passa de remendos), mas sem ideia nenhuma sobre o futuro da infraestrutura e o seu enquadramento face às novas plataformas logísticas em que todos os países estão a apostar forte, especialmente os portos do continente português.
Esta semana o Eng. José Carlos Cymbron, especialista nesta área, voltou à carga, num lúcido artigo publicado no “Diário dos Açores”, sobre a importância e a urgência de se voltar a estudar a construção de um segundo molhe na zona de Santa Clara, para movimentar todos os granéis líquidos e sólidos, libertando o congestionado e desactualizado porto actual.
Trata-se de uma sugestão antiga, que já estava incluída no Plano de Ordenamento antes da construção do Cais de Cruzeiros no ano 2000, mas, pelos vistos, apesar dos estudos e dos alertas dos especialistas, vamos continuando a ver os navios a passar…
O porto de Ponta Delgada tem registado um crescimento imparável nos últimos anos e há até um estudo bastante interessante sobre esta matéria, da autoria de Nuno Furtado, numa tese de mestrado em 2011, com 99 páginas, defendida com brilhantismo no ISCTE.
A tese descreve as enormes transformações que o porto trouxe a Ponta Delgada, com o crescente fluxo de mercadorias em contentores e todas as consequências e impacto trazidos à economia.
Através de um gráfico, da sua autoria, que publicamos nesta crónica, é possível constatar que a movimentação de contentores teve um crescimento brutal: de 37.706 toneladas em 1980 passou para 762.403 toneladas em 2009, qualquer coisa como 20 vezes mais!
Ora, com estes números, vir dizer que o porto de Ponta Delgada (cujo quebra-mar começou a ser construído em 1861 e concluído em 1965, sem grandes intervenções até agora) não precisa de se modernizar ou de ser aumentado, é um perfeito disparate.
Mas é o que vamos ouvindo da boca de alguns governantes, que não sabem como se desculpar pela enorme incapacidade que têm demonstrado na definição de uma estratégia portuária para a nossa região.
Como os Açores estão na moda, vamos assistir nos próximos tempos, cada vez mais, a situação semelhante à deste mês de Abril, em que Ponta Delgada vai receber, por duas vezes, 4 navios cruzeiros no mesmo dia.
Não podendo todos atracar no Terminal de Cruzeiros, lá irão alguns para o porto comercial, no meio de contentores e piso esburacado. Um belo postal para o turismo.
Implementar uma grande estratégia portuária nos Açores, principalmente na Terceira e S. Miguel, devia ser a maior prioridade política dos últimos anos.
A verdade é que desconfio que, agora, vamos tarde, até porque, como se vai vendo, este governo está falido de dinheiro e de ideias, com governantes fraquíssimos e sem rumo para acompanhar a pedalada da dinâmica Ministra do Mar, de seu nome Ana Paula Vitorino, que está a revolucionar a política portuária em Portugal.
Nos próximos dez anos vão ser investidos 2,5 mil milhões de euros – mais do que a dívida bruta da nossa região – para que a movimentação de contentores nos portos do continente aumente 200%.
É a luta pela competitividade no comércio internacional que assim o impõe.
Nós, aqui, no meio do estratégico Atlântico, continuamos sentados a vê-los passar…

Abril 2018
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milenio Stadium Toronto)

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