RI-SE O NU DO MAL VESTIDO

RI-SE O NU DO MAL VESTIDO

28 de Março, 2018 Não Por Azores Today

Se o caríssimo leitor reside nos Açores, fique a saber que tem uma dívida de mais de 3 mil euros todos os anos e que anda a pagar mais de 300 euros só em juros.
A consolação é que não deve sozinho. São todas as 245 mil almas desta região, que estão a entregar metade do seu IRS para a máquina administrativa regional amortizar os juros da crescente dívida bruta de 1,7 mil milhões de euros.
Se quiser dormir mais descansado – ou talvez não – fique também a saber que a dívida pode não ser paga agora, enquanto é vivo, mas vai deixá-la como herança aos seus filhos e netos.
Pode questionar à vontade sobre o que é feito dos milhões das transferências do Estado para a região e também do envelope financeiro dos apoios comunitários, pois já foram todos gastos e ainda temos de ir, todos os anos, à banca, para nos endividarmos até ao pescoço.
Quer números?
Então aqui vai: em 2013 a dívida ia nos 1.262 milhões de euros, no ano seguinte passou para 1.485 milhões, em 2015 voltou a subir para 1.485 milhões, em 2016 voou para 1.596 milhões e no ano passado já ia nos 1.690 milhões de euros.
A trajectória é sempre crescente e, como este Governo Regional está falido, o endividamento não vai parar, até porque a maior parte da dívida é para enterrar nas empresas públicas, que consomem o dobro da máquina da administração pública do governo.
É por isso que, só agora, querem desfazer-se de algumas destas empresas, porque já não há dinheiro que as sustente.
O problema, para além da má gestão, é todo o pessoal que enxameia o sector, na grande maioria uma clientela fiel que não se pode perder nos actos eleitorais.
Problema? Lá nada. Vão ser todos “internalizados” na administração pública regional, provavelmente sem concurso público, ultrapassam toda a geração que agora anda à procura de emprego e ainda são capazes de ocupar lugares de outros que lá estão há mais tempo.
Chama-se a isto o “novo ciclo” do resgate regional.
Para a lavoura houve um resgate, para as pescas novo resgate, para a construção civil nem resgate houve (cada um que se desenrascasse), mas para o pessoal das empresas públicas há o privilégio de terem todos emprego garantido, apesar do sector ter desaparecido.
É uma região muito original: para os sectores produtivos, os que criem riqueza, pagamos para se irem embora; para os que nada produzem, damos o prémio de aumentarem a despesa pública!
Percebeu, agora, porque é que, todos os anos, estamos a aumentar a dívida da região?
Percebeu, agora, onde são enterrados , todos os anos, mais de 250 milhões de euros que o Estado transfere para o orçamento da região?
Nos últimos quatro anos foram mais de mil milhões de euros de transferências, a que pode juntar, se quiser, mais 100 milhões por ano para as autarquias.
Sabe há quanto tempo não há uma obra estruturante na região?
Vê investimento público gerador de riqueza nalguma ilha?
Há aeroportos para ampliar? Portos para arranjar? Estradas para corrigir? Hospitais a rebentarem pelas costuras? Fornecedores a gemerem para receber? Notícias de calotes quase todos os meses?
Pois amanhem-se, que o tempo das vacas gordas já passou.
O que vai restando é para pagar salários, pensões, rendimento mínimo, subsídios e pôr a funcionar a galáxia pública regional.
Só aqui está metade do eleitorado.
Até na acusação de que a Madeira estava a contribuir mais para o défice foram desmascarados.
A região vizinha tem uma dívida muito maior do que a nossa, é verdade, mas está a endividar-se a um ritmo muito menor do que nós.
A dívida bruta da Madeira aumentou no ano passado 27 milhões e a dos Açores 94,4 milhões.
Nas necessidades, a Madeira tem um excedente de capacidade de financiamento de +85,2 milhões, enquanto que os Açores têm um défice de financiamento de -57 milhões.
Como venho dizendo há muito tempo caríssimo leitor, estamos bem amanhados com o caminho que estamos a trilhar (se calhar é por isso que a oposição está tão preocupada, tão preocupada, que até anda entretida no parlamento com o um novo Regime Jurídico dos Trilhos…).
E quando ouvir a cantiga de que os outros ainda estão pior do que nós, não é bem assim, porque os outros estão a criar riqueza a um ritmo muito maior do que nós e a criar empregos também a um ritmo muito superior a nós.
Este argumento de desculpar com os outros até é ridículo. Já nem recordo a história do nu e do mal vestido.
É o mesmo que o leitor estar no hospital com um ataque cardíaco e ficar todo satisfeito porque, na cama ao lado, está outro com um AVC…

Muita saúde e feliz Páscoa.

Março 2018
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milénio Stadium Toronto)