PARAR PARA PENSAR

PARAR PARA PENSAR

9 de Fevereiro, 2018 Não Por Azores Today

Os Açores foram varridos nestas últimas semanas por um vendaval de más notícias.
Por mais que os nossos governantes pintem o cenário cor de rosa, desvalorizando os inúmeros indicadores que vão aparecendo todos os dias, a realidade é que algo se está passar em várias frentes da nossa sociedade que precisa de ser encarado com profunda reflexão e preocupação.
Se for preciso, temos mesmo que parar para pensar.
O actual governo vai a meio do mandato e está mais do que visto que muita coisa está a correr mal e que muitos dos que ocupam os cargos de responsabilidade demonstram uma grande desorientação face aos problemas com que são confrontados.
Os desaires com o Mestre Simão e o caso da Cofaco são apenas dois exemplos da incapacidade de respostas rápidas e eficientes por parte das entidades públicas.
Os indicadores internacionais dão-nos os piores lugares em matéria de desenvolvimento e coesão; e até no desemprego, apesar de termos diminuído a taxa em 2017, fomos muito mais lentos do que outras regiões e ficamos mesmo acima da média nacional.
Mas agora surgiram os casos mais profundos.
Em apenas uma semana ficamos a saber que somos os piores nos rankings escolares, somos os piores no abandono escolar precoce, somos os piores na embriaguez, somos os piores no consumo de drogas e até somos os piores na ingestão de refrigerantes.
O que se vai seguir?
Já sabíamos que a pobreza está a aumentar assustadoramente por estas ilhas fora, com consequências sociais tremendas em várias famílias e nas novas gerações.
Será esta a principal causa para o descalabro a que assistimos no ensino regional?
O responsável da escola Básica de Nordeste queixava-se, na semana passada, de que 80% dos alunos daquele estabelecimento são carenciados e muitos deles vêm de famílias a braços com o problema do desemprego.
Como é que estas crianças podem ter sucesso escolar?
Ninguém se interroga e se preocupa com o facto de, três anos depois da implementação do programa ProSucesso, sermos agora confrontados com o aumento de 26,9% para 27,8% de abandono escolar?
O que é que o responsável pela pasta da Educação vai dizer agora? Que é “um acidente de percurso”?
Nos desastrosos registos dos rankings escolares conseguiu vislumbrar uma “ligeira melhoria”. Agora vai dizer que foi uma “ligeira piora”?
Uma “ligeira melhoria” é uma declaração de derrota e revela uma falta de ambição tremenda, que só agrava a desmotivação que grassa em quase todos os sectores de actividade destas ilhas.
É muito provável que o discurso da desculpabilização volte a ser repetido, dizendo que em 1998 partíamos de uns inaceitáveis 60% de abandono escolar e em 2017 estamos com 27,8%.
Mas vivemos o tempo presente e a realidade é que os outros estão a avançar mais depressa do que nós e nós sempre a ocupar a cauda de todos os indicadores.
Em 2016 até tivemos uma melhoria em relação a 2015, ao contrário da média nacional (com umas declarações eufóricas do nosso governo na altura), mas quando se esperava que esta tendência era para se consolidar, com o ProSucesso a entrar no terceiro ano de vigência, eis que voltamos outra vez para trás e os outros avançaram com mais sucesso.
Avelino Meneses chegou mesmo a dizer, no ano passado, que a expectativa “é de, ano após ano, continuar a diminuir esta taxa a uma percentagem mais acelerada do que vai acontecendo no resto do país e, por via disso, a região aproximar-se, primeiro, dos valores atingidos pela Madeira (que são mais baixos), depois, numa etapa um pouco mais longínqua, dos valores nacionais”.
Falhanço completo!
Os outros diminuíram consideravelmente e nós pioramos.
Alguma coisa se está a passar nos Açores para tantas más notícias no plano social.
E nas dependências, o que dizer?
Mais programas contra a droga, mais campanhas contra o vício, mais projectos, mais planos, mais uns milhões, até foi criada uma Direcção Regional para esta área, ocupada por uma governante completamente fragilizada com o caso da ‘Arrisca’, e quais são os resultados?
Continuamos a ser os piores em tudo.
Há que parar para pensar o que está a correr mal.
Não custa nada, humildemente, chamar os inúmeros representantes da nossa sociedade, todos os parceiros, sentá-los a uma mesa e reflectir seriamente sobre os inúmeros desafios que nos apoquentam.
O governante Rui Bettencourt, ainda ontem, deu um excelente exemplo: juntou no Teatro Micaelense várias dezenas de pessoas, dos mais variados sectores ideológicos da nossa sociedade, para discutir e reflectir sobre o que aí vem em termos de pós 2020 na Política de Coesão.
Os restantes colegas deviam imitá-lo.

BOM SENSO NA ILHA

Finalmente imperou o bom senso.
O Conselho de Ilha de S. Miguel acaba de ser eleito e empossado, com base numa lista única, ao que parece consensual (28 votos a favor e 11 contra), sendo presidido pelo médico Dias Pereira.
Jaime Rita, Luísa Cordeiro e Clarisse Canha também foram eleitos.
É uma lista que reflecte o peso da cidadania e é retirada a carga partidária que o PS pretendia impor, quando Ricardo Rodrigues protagonizou uma corrida ao cargo com Jorge Rita.
Ainda bem que corrigiu o erro.
Ricardo Rodrigues e o PS estiveram muito bem em não insistir na polémica.
É disto que precisamos na política regional: bom senso, abertura à cidadania e ouvir vozes sensatas.

UMA IGREJA CADUCA

O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, publicou um documento, revelado ontem (ver notícia na página 10), onde defende que os casais recasados vivam “uma vida de continência na nova relação”.
Por outras palavras: que não tenham relações sexuais!
Nunca um alto dignatário da Igreja portuguesa recomendou tamanho disparate, o que reflecte bem o clima conservador e caduco que se vive na hierarquia católica portuguesa.
Como diz o famoso Padre Anselmo Borges, o cardeal há-de julgar que os casais recasados devem viver… como irmãos.
O conhecido Padre Mário Pais Oliveira, autor de vários livros católicos, reagiu também: “Tanto disparate não merece comentário”.
E é nisto que está transformada a Igreja portuguesa. Uma Igreja antiquada, que não vive o mundo actual, muito fora da realidade do dia a dia e muito longe do exemplo do Papa Francisco.
Nos Açores não estamos muito longe desta linha de pensamento.
Cada vez mais a Igreja açoriana acompanha este anquilosado ambiente de conservadorismo católico, sem ambição nenhuma, fechada sobre si mesma e cada vez mais dependente dos poderes políticos, desde para financiar obras ou pintar uma fachada de um templo.
É por isso que está afastada da sociedade, quando devia ser a primeira da frente na luta contra a pobreza e as injustiças que se desenvolvem cada vez mais por estas ilhas.
Diz bem o Padre Mário Pais Oliveira: “Deitem fora esta porcaria. Cada um rege-se pela sua consciência, não tem de andar a pedir autorização a ninguém. Na Igreja não há ninguém, nem Deus está acima de nós. Deus está ao nosso serviço, não está mandar em nós. A responsabilidade dos nossos actos é exclusivamente nossa. É o princípio de Jesus, não há nada mais sagrado na terra do que o ser humano. Não são as leis, não são os códigos, não são os cânones, nem os mandamentos, são os seres humanos. Cada adulto deve decidir de acordo com a sua consciência”.

Osvaldo Cabral
(Editorial Diário dos Açores 09-02-2018)