MEDALHA AUTONÓMICA

MEDALHA AUTONÓMICA

8 de Janeiro, 2018 1 Por Azores Today

Daqui a poucos meses o Governo Regional e a
Assembleia Regional estarão a escolher, como é tradicional,
entre a sua clientela, as quotas para os medalhados
na cerimónia do Dia dos Açores.
Se querem uma sugestão consensual entre as populações
– coisa que geralmente não pensam – aproveitem
para homenagear os históricos ‘lobos do mar’ do canal
do triângulo, nas pessoas dos tripulantes do ‘Mestre
Simão’.
No meio daquele infeliz acidente, o mais extraordinário
foi assistir à serenidade da evacuação dos passageiros
e à lucidez dos nove tripulantes na orientação dos
processos de salvamento.
É claro que as circunstâncias estão longe do que
aconteceu com o Costa Concordia, de que resultou
trinta e duas mortes, mas estou convencido que o nosso
colaborador, jornalista da Deutch Welles, Rui Almeida,
que ia a bordo do cruzeiro italiano com sua esposa, terá
pensado o mesmo do que eu ao ver aquelas imagens à
entrada do porto da Madalena.
Acalmar 61 passageiros naquela situação, conseguir
dar instruções no meio da confusão e de algum pânico,
saber conduzi-los para a balsa de salvamento e tudo
correr sem problemas, é obra que ficará para a longa
história da navegação marítima nos nossos mares.
As pessoas que iam a bordo jamais esquecerão, para
toda a vida, aqueles momentos.
No rosto de cada uma delas está estampado o medo
do que poderia ter acontecido de pior, mas, ao mesmo
tempo, a recordação de que é possível confiar em profissionais
altamente competentes e muito corajosos.
Sempre foi assim ao longo da história e desconfio que
as gentes do Faial, Pico e S. Jorge, sabiam, lá no íntimo,
que se um dia isto acontecesse, os famosos ‘lobos do
canal’ estariam à altura.
Sou avesso a viajar de barco e das poucas vezes que
atravessei o canal, recordo-me sempre, já lá vão muitos
anos, do velho amigo João Quaresma, na sua sala com
uma das maiores colecções de Whisky do mundo, dizer
simplesmente: “se há coisa aqui no Pico em que eu meto
as mãos no lume por eles, são os pilotos das lanchas”.
O João ficou com o seu nome atribuído ao terminal
da Madalena, o terminal mais atacamancado que se
terá construído neste país, por teimosia da Portos dos
Açores e do Governo Regional, apesar dos reparos dos
especialistas e das forças vivas do Pico.
Recordo-me, perfeitamente, das inúmeras vozes que
alertaram para a asneira que se estava a fazer no porto
da Madalena aquando da sua requalificação.
Um deles até era deputado do PS e, mesmo assim,
ninguém lhe deu ouvidos, porque não era um ‘yes
man’.
De facto, em 2011, o comandante da marinha mercante,
Lizuarte Machado, entregou ao Governo Regional
um parecer antecipando dificuldades de operação com
barcos de passageiros no porto da Madalena, avisando
que aquelas obras iriam condicionar as manobras.
Pois aí está a confirmação.
Os responsáveis que esfreguem agora as mãos às
paredes do cais da Madalena, também com um grande
rombo, fruto das cabeças decisoras desta região, que não
atinam com a construção de portos e de barcos.

Osvaldo Cabral
Diário dos Açores 09-01-2018