Pelas alminhas, entendam-se!

Nunca se viu dois governos da mesma cor tão desentendidos em várias matérias, como estes de António Costa e Vasco Cordeiro.
É raro o assunto pendente no Terreiro do Paço, relativo aos Açores, que tenha despacho rápido e eficaz.
O caso da cadeia de Ponta Delgada é um bom exemplo, com o governo de Lisboa a dizer que vai procurar adquirir os terrenos muito em breve e o governo dos Açores a anunciar que já cedeu os terrenos ao Estado, numa clara demonstração de que a Ministra da Justiça há muito que perdeu o andamento da carroça.
Mais recentemente tivemos o repetente Augusto Santos Silva a anunciar, todo eufórico, “em primeira mão”, os “usos adicionais” recomendados pelo Congresso dos EUA para a Base das Lajes, e o Presidente do Governo dos Açores a desmenti-lo.
O mesmo protagonista já se tinha revelado um verdadeiro artista na arte da ignorância sobre o dossier das Lajes.
Em Abril de 2016 o Primeiro-Ministro António Costa visitou os Açores, assumindo o compromisso de defender o PREIT (Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira), que exigia aos EUA o pagamento de 167 milhões de euros para a revitalização económica da ilha.
Quase um ano depois (em que já ninguém fala destes milhões) o ministro trapalhão vai a uma audição no parlamento e diz que o PREIT “vale zero”!
Foi mais longe ainda, dizendo-se “absolutamente estupefacto” com as exigências do PREIT.
Caíu-lhe em cima o Carmo e a Trindade, como era de prever, vindo depois tentar reparar a asneira com um discurso mais flexível , afirmando que, afinal, o PREIT era “um documento orientador “, mas sem nunca se comprometer.
Daí para cá o homem fez pouco pelos Açores – a bem dizer, não tem feito nada -, e até mandou para a última reunião da Bilateral, em que Vasco Cordeiro participou, alguns técnicos de terceira categoria para representar Portugal.
Andamos nisto desde que António Costa tomou posse e, como se já não fosse suficiente, veio também o Ministro do Ambiente, noutra audição parlamentar, ‘chutar’ o assunto da descontaminação da Terceira para o Governo Regional.
Após mais um puxão de orelhas, veio dizer que, afinal, tinha sido “mal interpretado” e até mostrou-se disponível para avançar com técnicos da Agência do Ambiente para virem cá trabalhar com o Governo Regional nesta história da descontaminação. Ninguém os viu até hoje…
Agora, passado um Orçamento de Estado, vem o de 2018 e lá não está inscrita nenhuma verba para a descontaminação.
Confrontado com isto, o Ministro das Finanças – outro distraído em relação aos Açores – diz desconhecer o assunto e promete tomar nota para mais tarde se inteirar…
Neste entretanto, vão-nos entretendo com coisas pomposas de nível internacional, como o célebre Air Center, que tanto serve para o Brasil, como para a China. É uma questão de quem der mais.
No meio da arrematação, já veio o congressista Devin Nunes avisar que chineses ou outros estrangeiros perto da Base das Lajes, “nem pensar”.
Na boca de tantos ministros, a Base das Lajes já serviu para tanta coisa: desde centro de investigação internacional para tecnologias nas áreas do espaço, mas também para o estudo do clima ou dos oceanos, instalação de satélites, enfim, conforme a disponibilidade de cada freguês.
E mesmo que digam que vai servir para estudar os oceanos, pode-se arranjar mais uma estrutura em duplicado, porque isto de fazer anúncios não custa nada.
A Ministra do Mar acaba de anunciar na Terceira um Observatório do Atlântico, que também ninguém sabe o que é, e cujo local de instalação ficará ao critério da Região.
Eles anunciam e a gente escolhe. É como jogar na roleta.
Mas temos mais: o Secretário Regional do Mar, Gui Meneses, acaba de anunciar no Brasil, onde está para tratar do tal Air Center, que temos “a disponibilidade e o interesse” para acolher um “sítio piloto” do Deep Ocean Observing System.
Ou seja, estamos abertos a tudo.
E se nenhum deles servir, também temos a versão de Augusto Santos Silva, após uma visita aos EUA este ano, que é o aproveitamento das Lajes para “novas dimensões”, seja lá o que isto for.
Também já foi um centro de segurança marítima do Atlântico, apresentado em Washington, com pompa e circunstância, por outro ministro, o das armas roubadas em Tancos, o que é um excelente cartão de visita para ir falar de segurança com os americanos…
Foi penoso ver, por estes dias, a Ministra do Mar e Vasco Cordeiro a distribuírem recados sobre os radares e o gás natural.
A primeira a sentir o incómodo de, sete anos depois, ainda não termos os radares instalados e a aceitar o recado da celeridade.
E o Presidente do Governo quase a implorar à ministra para integrar os portos nos Açores na estratégia de internacionalização que o Estado está a fazer pelo mundo fora, sem ligar nenhuma aos portos açorianos.
Já nem se entendem no recato dos gabinetes. Agora dão recados em público.
Cá dentro, na nossa política regional, a desorientação também vai em linha com os ciclos da nossa República.
Quando Vasco Cordeiro tomou posse, há um ano, prometeu uma nova etapa baseada “na qualificação e sucesso escolar”, o “combate à pobreza e à exclusão social” e ainda a “promoção da empregabilidade e combate à precariedade”.
Um ano depois, já está a anunciar um “novo ciclo”, que ainda ninguém percebeu o que é, mas o mais provável é que seja para pagar o enorme buraco que está criado nas empresas públicas regionais.
Daí a inexistência de investimento público no próximo Plano e Orçamento regionais, a recusa em baixar impostos para as empresas e nenhuma estratégia para combater a pobreza, que vai aumentando de ano para ano, ao ponto de já pedirmos esmola à Comissão Europeia para distribuirmos em cabazes de alimentação…
Se esta desorientação é para durar até ao fim do mandato, o melhor é ir fazendo como o amigo António Costa: isto é tudo culpa de Passos Coelho!
Novembro 2017
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores; Diário Insular; Multimedia RTP-A; Portuguese Times EUA; LusoPresse Montreal)

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