Parabéns, somos ricos!

A nossa região acaba de “dispensar”, pelo menos, 55 milhões de euros de fundos comunitários, porque, segundo o Governo Regional, já temos os investimentos todos concluídos.
Não há, portanto, mais obras a fazer.
Agora é entrar num “novo ciclo”, segundo a mesma argumentação.
Cá para mim, será o ciclo do pagamento das dívidas.
É tal o descalabro que vai por aí, desde o sector da saúde (com milhões de dívidas a fornecedores, ruptura de medicamentos, cortes nas visitas dos especialistas às outras ilhas), à falta de recursos na Educação, até ao desastre no sector empresarial público, onde já está desmantelada a Sinaga, vai seguir-se a Azores Airlines e depois é o que se verá.
Não admira, portanto, que não haja dinheiro para investimento público.
Depois do monstruoso Centro de Artes Contemporâneas, uma obra que custou mais de 13 milhões de euros a funcionar às moscas, e do que ainda vem aí com a super milionária Casa da Autonomia, com custo estimado de 3 milhões, os pobres dos doentes por estas ilhas fora que se amanhem com as longas listas de espera e as migalhas para deslocações e medicamentos
Em Lisboa há esta originalidade de se entrar saudável num hospital e sair de lá com uma doença mortal, como a legionella, de se velar a vítima e a polícia ir buscar o corpo para a autópsia, ou até de se fazer uma patuscada no meio dos mortos heróis nacionais.
Cá não temos isso, mas temos outra originalidade mais à regional: morre-se sentado à espera de uma cirurgia!
Vamos, então, sair deste ciclo fúnebre e entrar no agora chamado “novo ciclo”.
Precisamos de criar riqueza?
Claro que sim. Como?
Dispensando fundos comunitários para obras e, ao avesso, pedindo que nos dêem 5 milhões de euros para fazermos cabazes de alimentos para distribuir pelos pobres…
As ilhas do triângulo desesperam por um aeroporto sem penalizações, agora mais premente quando se estão a tornar num destino fantástico com o crescimento do turismo.
Tal como os doentes, vão esperar sentados.
Os nossos portos, os principais abrigos nestas novas autoestradas do mar, no vasto Atlântico, precisam de obras como de pão para a boca, mas vão continuar a ver navios… ao largo.
Todos os portos de Portugal, da Madeira e de outros países europeus estão a investir, a toda a força e urgência, na sua modernização, na sua ampliação e criando condições para ganharem competitividade internacional na nova economia azul, enquanto que nós aqui, nos Açores, andamos a discutir a produção de camarão nas piscinas de Nordeste!
A dinâmica Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, visitou nos últimos dias a China (depois de já ter ido ao Brasil e Canadá), levando consigo 40 empresários, com uma missão bem definida: ‘vender’ os portos do continente português, tentando integrá-los na tão falada ‘rota marítima da seda’.
Os portos dos Açores ficam para a ‘rota do esquecimento’.
O porto de Sines, desde 2011, passou de 25 milhões de toneladas de carga movimentada para 51 milhões em 2016 e já representa 55% do movimento de mercadorias nos portos portugueses, e Leixões vai expandir o seu terminal de contentores, passando de 750 mil para 1,5 milhões TEU, não falando de Lisboa, que vai arrancar com o novo terminal de contentores do Barreiro.
Diz a ministra que “Portugal tem um argumento de peso: a nossa localização geoestratégica, que domina todas as rotas atlânticas”.
E os Açores, dominam o quê, exactamente no meio do Atlântico?
Estamos a perder uma oportunidade única de nos posicionarmos neste enorme desafio estratégico do mar.
E a imagem mais demonstrativa da nossa imobilidade e incompetência para enfrentar os novos desafios está retratada, literalmente, naquele enorme buraco na doca de Ponta Delgada, aberto pelo temporal de há dois anos.
É um rombo bem representativo da nossa incapacidade, 40 anos depois da tão conquistada Autonomia.
O governo dos Açores queria um terminal exclusivo em Lisboa, um hub na Praia da Vitória , um Observatório para o Atlântico, um estaleiro para reparações, armazenamento de gás natural e não sei mais o quê.
Ficou-se pelo camarão nas piscinas de Nordeste.
Somos ricos.
Já não precisamos de obras, mas de milhões para distribuir em forma de cabaz aos pobres destas ilhas.
Faz sentido.
É isto que assegura o mandato seguinte.
Fiquemos, então, todos à espera do “novo ciclo”.
Como os doentes… sempre sentados.
Novembro, 2017
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)