O desastre anunciado na empresa “pacote”

O desastre anunciado na empresa “pacote”

6 de Novembro, 2017 0 Por Azores Today

O Governo Regional publicitou na semana passada uma resolução do Conselho do Governo, com data de 27 de Outubro de 2017, sobre as orientações estratégicas de gestão destinadas à generalidade do sector empresarial da Região.
São cinco página publicadas em Jornal Oficial que não dizem rigorosamente nada.
Quando se esperam decisões sobre a reestruturação de todo o sector empresarial público, como já foi prometido por mais de uma vez, o que vemos é um conjunto de regras burocráticas para fingir que se faz alguma coisa… para ficar tudo na mesma.
Os dois últimos avales, concedidos à Sinaga e à Sata, no valor global de mais de 12 milhões de euros, são a prova de que a receita continua a ser a mesma, com a vergonha da banca já impor condições ao governo, como aconteceu com o aval à Sata.
Depois do desastre na transportadora regional, segue-se agora na fila das empresas ruinosas a Sinaga, precavendo-se já os bolsos dos contribuintes para acudir as outras que aguardam a sua vez.
A solução que o governo apresentou ontem para a açucareira – tarde e a más horas – é uma meia medida.
A Sinaga deixa de laborar a beterraba, que era a sua actividade principal, e fica transformada numa empresa “pacote”, o que, na gíria açoriana, não é lá muito lisonjeiro.
Com efeito, a Sinaga já era, cada vez mais, uma empacotadora: empacota açúcar para os clientes, já que não o produz; empacota dívidas crescentes com aval do erário público e; vai empacotando prejuízos das mais diversas formas. Agora passa a empacotar em exclusivo.
É tamanha a necessidade da Região possuir uma empresa para empacotar, com todos nós, contribuintes, a contribuir para o “pacote”.
Assim vão os grandes negócios públicos.
Para além de processar meia dúzia de atrelados de beterraba que, por ano, lá iam descarregar umas toneladazinhas para a laboração de uma semana, pouco se sabe sobre o que efectivamente faz a Sinaga, para além de empacotar.
A Sinaga é uma empresa da Ilhas de Valor, uma entidade originalmente criada para operacionalizar medidas de apoio às ilhas mais pequenas, razão pela qual tem a sua sede em Sta. Maria, mas que acaba por acudir também nas ilhas maiores, porque a aflição não tem geografia.
Vejam-se os números das contas da Sinaga de 2016:
Capital social, 2.753.000 euros realizados em 1.853.000 euros, obtido depois da operação harmónio que afastou os outros accionistas em Dezembro de 2015, numa operação misteriosa, e um novo aumento de capital decidido em 2016, no valor de 900.000 euros e realizado em 30% (270.000 euros nesse ano), sendo os remanescentes 530.000 euros para realizar em 2017.
Entretanto, havia por lá suprimentos da Ilhas de Valor da ordem dos 2.034.131euros, que foram “esquecidos porque não recuperáveis” e colocados em prestações acessórias.
Em suma, injecta-se em dois anos, para lá ficar, 1.853.000+900.000+2.034.131= 4.787.131 euros, ou seja cerca de 63 mil euros por cada um dos 76 trabalhadores.
Visto de forma simplista até seria melhor indemnizar cada um neste valor e acabar com a tormenta.
Capital próprio, 723.893 euros (muito menos do que os valores em contencioso com as alfândegas).
Resultados transitados, -21.022.034 euros, um registo notável de acumulação recente de prejuízos.
Vendas, 3.120.290 euros (verdadeiras) + 4.671.000 euros (venda de direitos de produção aos espanhóis – valeu mais a venda de direitos de produção do que a própria produção. Será o novo negócio? Não! Porque geram custos adicionais de 4.194.520 euros, sobrando apenas cerca de 477.000 euros. Lá vai que é melhor do que nada!)
Custo com pessoal, 1.390.579 euros.
Resultados Líquidos: -1.884.224 euros .
Dívidas bancárias: 20.710.325 euros.
Outras dívidas: 2.296.396 euros (Fornecedores) + 3.074.844 euros (Estado: Alfândega e Segurança Social).
Total das dívidas: 28.840.044 euros.
Com um registo destes, tão expressivamente negativo, não admira que o Conselho de Administração seja tão contundente ao dizer que este negócio não dá!
E até aponta que os trabalhadores correm perigo significativo, tal é o estado de degradação e desactualização dos equipamentos.
O relatório que a administração da Sinaga enviou ao accionista revela que, no ano passado, “um acidente de trabalho, com alguma gravidade e do qual resultou a evacuação para o hospital de 4 colaboradores, originou um bloqueio de grande dimensão no forno de cal e que obrigou à paragem forçada da produção por cinco dias, tendo como consequência a perda de toda a matéria-prima no circuito”.
E a seguir lança um aviso para o facto de se actuar “num contexto deveras perigoso e com grande probabilidade de ocorrência de acidentes de trabalho”.
É como quem diz: ainda não morreu ninguém, mas pode morrer!
Um pouco à semelhança do que aconteceu com a tragédia dos incêndios lá fora, o accionista não venha depois dizer que não foi avisado e lavar as mãos do que vier a acontecer.
Resta saber se ao transformar-se numa empresa “pacote”, os velhos equipamentos vão ou não ser “empacotados”.
E quem paga a gestão ruinosa de todo este “empacotamento” durante os últimos anos?
Como sempre, não há responsáveis.
É preciso chamarmos Marcelo para, também, nos acudir destas falhas clamorosas do Estado regional?
Véspera de finados, 2017
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)