Ter coragem de viver numa pequena freguesia como a Ribeira Chã

Ter coragem de viver numa pequena freguesia como a Ribeira Chã

17 de Agosto, 2017 0 Por Azores Today

Por José Pacheco

Pois é preciso mesmo ter muita coragem de viver numa pequena freguesia como a Ribeira Chã. Ao contrário do que muito por ai se apregoa, o mundo rural anda cada vez mais esquecido, mais abandonado, vivendo de “sorrisos virtuais”. Aquilo que poderia ser um postal turístico dos nossos belos Açores é constantemente esquecido por quem nos governa.

É certo e sabido que nas pequenas localidades vivem poucas pessoas, que é o mesmo que dizer que representam poucos votos. Isto é uma realidade indiscutível e transversal a toda a sociedade, partidos políticos, etc. Fomos educados a relativar a importância das terras pela dimensão populacional das mesmas. Este mau critério traduz-se em tudo que nos rodeia, quer seja o investimento público, quer seja o privado. A lógica dominante é a de se investir nos grandes centros e até mesmo criar as condições de promoção e apoio ao turismo nos maiores aglomerados.

Posso aqui dar o meu testemunho de vida enquanto habitante e trabalhador de uma pequena, mas muito bela freguesia como a Ribeira Chã. Uma terra que teve como grande benfeitor o Padre João Caetano Flores, homem de visão, pessoa lutadora pela defesa do mundo rural. Com ele a Ribeira Chã passou a ter uma igreja com uma arquitetura de referencia, quintais etnográficos, museus etnográficos, de arte sacra, uma escola e um jardim de infância, que os políticos acharam por bem nos retirarem. A sua visão era de colocar uma pequena terra no topo de uma lista que hoje muito falamos em termos turísticos, ou seja, lugares importantes a visitar. A sua luta por aumentar o parque habitacional da freguesia era também o desejo de uma constante renovação populacional geração, após geração. Mas mesmo passados cinquenta anos, tudo isto foi esquecido e apenas vamos vendo passar promessas, intenções e uma manutenção, a muito custo, do pouco que ainda nos resta, até ao dia que se lembrem de nos fecharem as portas. Passado todo este tempo são muito raros os investimentos e ao existirem são pouco representativos e despidos de uma qualquer visão de futuro. Claro que por esta altura tudo se promete, tudo se pinta, tudo se entelha, fruto do verdeiro carrocel eleitoral.

Quando se fala numa carga excessiva do turismo sobre certas atrações turísticas como as Furnas, a Vista do Rei, etc, esquecemo-nos que existe muito para além disto a mostrar a quem nos visita. Existe, pelos meus lados, uma escola de sabedoria sobre o nosso passado, a nossa história que interessa aos turistas se cá chegassem. E como mero exemplo falemos no Pastel que tão importante foi para os nossos Açores. Mas quando aqueles que nos governam esquecem-se disto, está tudo dito, tudo explicado.

Da minha parte, vou fazendo o que posso e sei, todo o ano e todos os anos, com os meus próprios meios e financiado por mim. Tenho ao longo dos tempos tentado projectar esta bela terra através da imagem, do vídeo, da música, da cultura, das tradições e costumes, usando todas as ferramentas que disponho, sem nada pedir em troca. É uma tarefa ingrata e árdua e que tem esbarrado nas mais diversas barreiras, até mesmo naqueles que deveriam apoiar e promover este trabalho. Mas sei que para muitos é um trabalho válido, mesmo que para outros não passe de “concorrência” a quem nada faz dispondo de todos os meios e mais alguns. Sinto que tenho a obrigação de deixar aos meus filhos e netos este mundo melhor do que o encontrei, custe o que custar.

Não é fácil remar contra a maré, contra um sistema, contra os interesses instalados, contra os derrotismos constantes, mas, como otimista que sou, desafio sempre outros a seguirem este caminho, sem qualquer visão de lucros que não sejam o orgulho por aquilo que nos rodeia e a herança que podemos deixar.

O nosso mundo rural precisa de ser repensado e acarinhado, mas de forma séria e sem falsos paternalismos políticos. Precisamos de ser tratados com mesma dignidade e com o mesmo grau de esforço financeiro que as demais e maiores terras. Não podemos continuar a receber as migalhas que vão caindo da mesa. Aqui vivem pessoas que se recusam a ser tratados, perdoem-me a expressão, como se fossem “pequenos animais num zoológico”. Temos todo o  direito de aqui viver, constituir família e trabalhar. Queremos também poder contribuir de forma activa para o desenvolvimento dos nossos Açores, oferecendo o que de melhor temos que são os nossos valores e tradições, a nossa natureza, a nossa hospitalidade reconhecida. Queremos ser tratados como iguais tal como somos.

As pequenas localidades precisam manter a sua identidade e potenciar uma visão a quem nos visita de que existe muito mais e melhor mundo para além dos aglomerados de cimentos. Existe muito mais para oferecer que os tradicionais “postais turísticos” que são a única imagem vendida no exterior. Para tal, haja um esforço constante, pensado a médio e longo prazo e que não sejam apenas pequenas ventanias em períodos de campanha eleitoral.

Em nome da coesão social da unidade geográfica, é urgente mudar o rumo, pararmos e repensarmos para onde queremos ir afinal.

José Pacheco