POLÍCIAS DE NÓS MESMOS

POLÍCIAS DE NÓS MESMOS

25 de Julho, 2017 0 Por Azores Today

Por José Pacheco

Recordo-me, muito vagamente, de em criança a minha mãe me advertir com a seguinte frase: “não podemos falar nisto ou vamos presos”. Não me recordo da pergunta, nem das circunstâncias, mas isto gravou-se na minha memória durante décadas. Eram os tempos conturbados antes do 25 de Abril e eu não teria mais de três anos de idade.

Os tempos passaram, e veio a era da Liberdade, de por em prática tudo aquilo que há décadas infinitas todos ambicionavam. Neste ramalhete de ambições estavam certamente a liberdade de expressão e a liberdade democrática de escolher os seus representantes, ou seja, de poder votar livremente em quem mais se desejasse ou se achasse ser o “melhor do mundo”.

Foram tempos complicados, de muita agitação social, mas aos poucos a coisa foi-se compondo e lá fomos aprendendo a viver na democracia, ou naquela que nos venderam embrulhada em papel dourado e com cheiro a flores. De um país pobre e na escuridão intelectual passamos a ser os candidatos a “novos burgueses” da Europa. E lá que veio a CEE.

Com o andar da carruagem, legitimamente, todos nós queríamos ter melhores casas, melhores carros, melhores graus académicos, melhor no tudo e no nada se necessário fosse. Com o rendimento mínimo, prometia-se acabar com a pobreza com “resmas” de dinheiro que vinha da tal Europa, à qual estendíamos cada vez mais a mão e fechamos com mais força a “matraca”. Nasce uma nova classe de “iluminados”, os gestores do bem comum, os tais que tinham a “saca do dinheiro” muito bem guardada. Vivíamos “principescamente”, desde que não levantássemos “muito cabelo”. Os mercedes deixavam de ser um exclusivo dos táxis, assim como, os senhores doutores uma exclusividade da medicina ou advocacia. Passamos a ser um país rico e altamente culto. Será que sim?

Nem de perto, nem de longe. Vivemos sim numa virtualidade económica que sobrepôs todos os valores de uma sociedade que apenas queria melhorar a sua condição, sem perder a sua identidade. Abdicamos de nos erguer pelo conhecimento, pela cultura, pelos valores, pelo saber fazer, para darmos lugar ao “tamanho da algibeira”, normalmente retratada em palacetes, grandes carros e roupas de marca, arrematado pelo senhor doutor.

Hoje somos polícias de nós mesmos. Não necessitamos de “pides” ou “guestapos”, nós sabemos fazer isto muito bem nas nossas pálidas cabecinhas. Policiamos o sentido crítico, condicionamos as nossas amizades, comercializamos o nosso dever democrático de voto, tudo isto em prol de um certo “paraíso” que nunca veio, não existe e jamais chegará.

Triste é não podermos ser críticos porque somos “más línguas”, não vendermos as nossas artes porque não somos do “sistema”, porque não fazemos parte dos tais “iluminados”. Foi a isto que chegamos infelizmente.

A mordaça aperta cada vez mais e a cegueira passou a moda. O que importa é o que se recebe em troca, pouca importa o que se dá neste mercado do “toma-lá-dá-cá”. E quem não é por mim, certamente é contra mim e deste já não quero ser “amigo”.

Podemos mexer na parte mas jamais o todo. Colocamo-nos em prisão domiciliária de livre e muito “espancada” vontade porque passamos s ser os nossos próprios polícias.

 

José Pacheco in Azores Today