Grande travessia do Pacífico: Las Perlas – Ecuador – Marquesas

Grande travessia do Pacífico: Las Perlas – Ecuador – Marquesas

19 de Junho, 2017 0 Por Azores Today

Tripulação: Armindo, Joana, Benita, Leonardo e Gaston Gimbernat.

IMG_1559Partimos de Las Perlas (Panamá) rumo às Galápagos mas o vento de frente fez-nos mudar de rota. Aproximámo-nos de costa, onde os ventos sopravam mais fracos, e navegámos em direção ao Ecuador, país. Íamos tranquila e lentamente, quando o capitão atento avistou um tronco de árvore enorme a flutuar, daqueles que à noite podem provocar tragédias, mas que de dia, são chamados de “achados” pelos pescadores. Estes troncos geram um impressionante miniecossistema, cheio de vida! As nossas linhas começaram a dar sinal, as 3 ao mesmo tempo, agitação total, as aves alimentavam-se, os golfinhos saltavam e até um espadim vimos à procura do jantar. Demos três voltas ao “achado”, o suficiente para nos abastecermos para os dias seguintes e jantarmos um delicioso home made sushi 😉

Passados 3 dias a motor, sem vento, seguiram-se 2 de relâmpagos e chuva fraca. Chegamos a Esmeraldas, no Ecuador, e por VHF informaram-nos que não tinham Marina. Não conseguimos entrar no porto dos pescadores pois devido à maré vaza a entrada não tinha a profundidade necessária para o nosso barco. O mar não dava condições para ancorar ao largo. Felizmente, ofereceram-nos guarida no porto dos navios, junto a um rebocador, com gente simples e amistosa. Deram-nos água e lavaram-nos a roupa.P1060137 Mostramos-lhes de onde vínhamos e ficaram encantados, como todos a quem mostramos um livro sobre os Açores. No dia seguinte, o Armindo voltou-se para os costumeiros problemas do barco e eu e o Gaston fomos resolver as habituais e enfadonhas burocracias para se entrar num país. A emigração cobrou-nos 50 dólares por cabeça, na capitania queriam mais outro tanto – queixamo-nos!! O raro capitão Romero ligou à emigração a pedir o decreto que informa ser necessário pagar tal valor – não existia!… Devolveram-nos o dinheiro!!

3 dias depois, onde num deles o Armindo esteve a trabalhar cerca de 7 horas no topo do mastro, com barcos de pesca a provocar ondulações ameaçadoras, reabastecemos de frescos, gasóleo, e finalmente seguimos caminho. Desistimos das tão ambicionadas Galápagos, por ser necessário efetuar um pedido de entrada duas semanas antes, além dos valores exorbitantes que pediam para lá estar – cerca de 250 dólares/dia.

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Continuámos junto à costa onde os ventos eram menos desfavoráveis. Aproximamo-nos de Salinas, cidade grande, e pedimos apenas para abastecer de gasóleo, de modo a evitar todos os pagamentos e burocracias de entrada e de saída. Pedido negado, continuamos viagem, a noite caiu, e apercebemo-nos que estávamos rodeados de redes de pesca, sinalizadas por flashes brancos. O Armindo ficou à proa a dar orientações e eu a executar ao leme. De repente, um barco com 3 homens aproximou-se a grande velocidade, o Armindo gritou “Chama o Gaston!!” Assalto? Piratas?!! Eram pescadores preocupados com as redes. Escoltaram-nos até ao fim da sua rede e despedimo-nos, gratos. Fui-me deitar e o Armindo ficou de turno. Estava a dormir e possivelmente devido a um som diferente, sonhei que estávamos presos nas redes. Foi tão real que acordei assustada e vim cá fora a correr e a berrar “Armindo, as redes! Estamos presos!”. Olhamos para o mar e já estávamos… “Chama o Gaston, Joana!” gritou outra vez, desesperado. Facas, lanternas, mergulhos, stress, sufoco e preces ouvidas. Rasgamos a rede dos pobres pescadores e livramo-nos. Aliviados, voltamos a içar a vela e de olhos abertos e lanternas apontadas para o mar, seguimos receosos. Passado algum tempo, outra vez!!! Presos nas redes! Oh, não!… desta vez o barco dos pescadores estava ao lado. Não se mexeram… os pescadores deviam estar a dormir. O Armindo voltou de faca à água, que tinha alforrecas ou qualquer outro tipo de bicho urticante e safou-nos de um filme de meter medo. Prosseguimos, de lanternas apontar para o mar e stress na barriga. De manhã estávamos KO e os meninos, felizmente OK para um novo dia 😉

Afastámo-nos da costa e finalmente estávamos no ângulo certo para aproveitar os famosos e tão esperados tradewinds, responsáveis pelo nome deste oceano. Começamos uma nova fase da travessia, estávamos a cerca de 3500 milhas náuticas das Marquesas. Velejamos 6500 Km sem ver terra, 23 dias onde tudo se fez numa dança com o mar, ora mais descompassado, ora mais suave e ritmado, com alguns dias de ócio e outros de muito trabalho – tudo, em total autonomia, graças ao nosso já mui fatigado Benyleo 2.

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E tanto que navegamos, e apenas atravessamos uma pequena parte deste enorme oceano, que cobre duas vezes a área do Atlântico e que se estende por uma área maior do que toda a terra firme do planeta – 165 milhões de km quadrados… E tanto que ainda nos espera!

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