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Domingo , 25 Fevereiro 2018

AMORDAÇAR OS JORNAIS

No passado dia 5 de Setembro o parlamento regional debateu
e aprovou o Decreto Legislativo Regional que estabelece o regime jurídico do novo PROMEDIA 2020, documento que rege os apoios à imprensa regional açoriana.
Durante a discussão, que não foi consensual, Berto Messias, o
governante que tem esta pasta à sua responsabilidade, assumiu
o seguinte compromisso em nome do governo: “Continuamos a
apoiar a difusão informativa nos mesmos moldes e nos mesmos
termos que existia anteriormente, sendo este apoio uma medida
de apoio importante, um instrumento importante sobretudo
para a imprensa, para a comunicação social escrita em papel”.
E disse mais: “Aquilo que consta no PROMÉDIA 2020 também
constava no PROMÉDIA III, exactamente da mesma forma”.
Ora, o que se passou depois não foi nada disto.
Toda a imprensa da região foi confrontada com uma resolução
do governo em que os valores a atribuir no âmbito daquele
programa eram diferentes dos que constam do Plano Anual Regional para o ano de 2017, que no “Programa 15 – Informação e Comunicação, tem uma Programação financeira que inclui uma
verba de 985.048 euros no ponto 15.1 – Apoio aos Media”.
O que Berto Messias propõe agora é praticamente metade e
ainda com uma condição: que a verba seja rateada pelas empresas de média candidatas ao programa.
Ou seja, o governo enganou toda a gente.
As empresas de comunicação social da região, que estiveram
no último ano sempre com a corda ao pescoço, à espera do novo programa de apoio, vêem agora todas as suas expectativas defraudadas e com um aperto ainda maior nos apoios.
Um governo que suporta e avaliza duvidosas empresas públicas
no valor de mais de mil milhões de euros, entende que a comunicação social regional merece migalhas.
A imprensa açoriana, mesmo com todas as dificuldades e garrotes que lhe vão impondo, ainda vai sendo a sustentabilidade da liberdade democrática nos Açores e desempenha um papel, como todos sabemos, muito para além da sua especificidade própria
que é a Informação.
Achar que equipas de futebol, com todo o respeito pela sua
actividade, merecem mais do que o conjunto da comunicação
social regional, diz tudo sobre o que o poder político pensa do
pluralismo da informação.
O cerco aos jornais, onde ainda se ouvem algumas vozes desalinhadas com o poder, aperta-se ao fim de 40 anos de Autonomia e de liberdade democrática nestas ilhas, coisa impensável na sociedade de hoje.
Mas nos Açores já nada espanta.

****
A REGIÃO DA BUROCRACIA – Já contei esta história, publicamente, várias vezes, a última das quais na sessão solene
evocativa do aniversário da elevação da Ribeira Grande a Cidade.
Um micaelense da Lomba da Maia, que aos 17 anos de idade
andava a lavrar as terras da costa norte com uma parelha de bois, emigrou para o Canadá, trabalhou como um mouro, e hoje é um dos empresários açorianos mais ricos de Toronto, com quase 4 mil trabalhadores por sua conta.
Passo a vida a convencê-lo para investir na sua terra, como
símbolo do amor que ele, de facto, dedica aos Açores, visitando-nos quase de três em três meses, para estar com a família e os
amigos.
Um belo dia, ao almoçarmos num restaurante local, veio cumprimentar-nos um outro emigrante de sucesso, residindo nos EUA, e que fez forte investimento na sua Vila Franca do Campo.
Não se conheciam pessoalmente.
Feitas as apresentações, disse ao meu amigo canadiano que tinha ali um excelente exemplo de como era possível investir na
sua terra.
O empresário dos EUA interrompeu-me de imediato e dispara
para o meu amigo canadiano: “Não te metas nisso! Foi a maior
asneira que fiz! Esta terra é só burocracias, complicações e problemas. Investir aqui, nunca mais!”.
Fiquei siderado.
Conversas como esta, qualquer um de nós ouve-as quando visita as nossas comunidades na diáspora, mas ouvi-las na própria
terra…
Foi o que aconteceu, agora, ao conhecido jornalista Miguel
Sousa Tavares, que numa das suas últimas crónicas no “Expresso” relata um episódio semelhante ocorrido em Toronto.
Conta o cronista que se encontrou com um casal de emigrantes, ela dos Açores e ele do Minho, que passaram dias difíceis no início, mas hoje estão bem da vida, com o seu próprio negócio.
Constata Miguel Sousa Tavares que a vida é dura no Canadá e o Inverno é terrível, mas quem trabalha paga metade dos impostos pelo trabalho do que nós aqui em Portugal e, em contrapartida, “têm serviços públicos – escolas, centros de saúde, hospitais – de primeira categoria”.
Miguel Sousa Tavares fez a mesma pergunta ao casal de emigrantes, sobre a possibilidade de voltarem à sua terra.
Resposta deles: “Nunca! Portugal não é um país amigo para
quem gosta de trabalhar e para quem quer enriquecer a trabalhar.
Há muita inveja, muita burocracia, muitos mandriões a
atrapalhar os outros”.
Ninguém gosta de ouvir isto sobre a sua terra, mas infelizmente
é o retrato que muita da nossa gente faz deste país e desta
região, onde tudo está politizado, partidarizado, controlado, não
sendo possível agir conforme o talento de cada um.
Não admira que os cérebros ou os jovens talentosos fujam a
sete pés de uma sociedade assim.
A tal que nem consegue aguentar uma imprensa livre.
Até nisto é preciso amordaçá-la.
Bom Natal!

Dezembro 2017
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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